Posts tagged ‘Capitalismo Cultural’

março 19, 2009

Ou dá ou desce

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Paulo Costa Lima

O assunto transcende.

Olha que maneira elegante e misteriosa de iniciar uma crônica! O assunto transcende!

Não precisa dizer nem o assunto nem o que estaria sendo transcendido. Talvez seja mais um importante passo na direção do ideal de escrever a crônica sem pecado e sem assunto.

Mas com esses desvios que comentam o processo, a forma e até os ideais, talvez perca de saída o leitor objetivo, aquele que deseja ir direto ao cerne da experiência, sem transcendências, se possível.

E será que existe mesmo a alternativa de ‘ir direto ao assunto’?

Por exemplo, essa facilidade sem preliminares que o texto da internet exibe a cada dia… Não seriam todos os textos da internet mais ou menos influenciados pelo mundo virtual pornô?

Ou seja: assim como nos sites de sexualidade explícita os textos da internet são compelidos a dar logo o que têm que dar, são plasmados, de alguma forma, pela impaciência da ‘pulsão de ver’ que habita os nossos voláteis usuários.

Se quiserem uma formulação mais popular – ou dá ou desce! Desce com o cursor procurando coisa mais palatável página abaixo.

Trata-se de uma pulsão que invade tudo, desde a ciência ou arte de arrumar produtos numa prateleira de supermercado ao mundo das notícias, passando pela política (basta lembrar do ‘bateu levou’), pelo ensino privado e certamente pelo show business.

Sendo assim, ‘ir direto ao assunto’, comporta além do próprio assunto, uma transcendência que, no mínimo, é o próprio estilo do mostrar, ou do fingir que vai mostrar.

Mas, esse princípio do ‘ou dá ou desce’ – e seu complemento, a pirraça e o fingimento tipo strip tease – parecem fazer parte mesmo do cerne da comunicação humana. São elementos indispensáveis da dinâmica das narrativas, e têm a ver com a dosagem daquilo que vai sendo oferecido.

A rigor, o simples ato de prestar atenção se relaciona com essa lei do ‘ou dá ou desce’, através da esperança constante de produzirmos prazer e sentido.

Neste ponto vale abrir um parêntesis para perguntar pelo significado original da expressão ‘ou dá ou desce’. O blog do Reinaldo Azevedo afirma que a expressão original seria na verdade ‘ou dá ou desse’, fazendo um revirão entre presente do indicativo e pretérito do subjuntivo.

Outras versões incluem a alternativa motorizada (ou dar ou descer do carro, moto etc.) e o do dilema absurdo-e-lógico (ou dá ou desce as calças).

As alternativas confirmam que a expressão dramatiza um certo fatalismo bastante em voga: ‘ou dá ou dá de qualquer forma’. Predomina, portanto, a eficácia de uma economia de serviços.

É claro que a impaciência da pulsão do leitor é uma função do próprio mercado. Ele sai avaliando o prazer da leitura em termos da rapidez do ‘chegar diretamente ao assunto’, e daí vai resvalando de manchete em manchete.

Mas se o leitor ainda está conosco é justamente por causa do frisson de um tema como o ‘dá ou desce’. Estamos tirando energia do mesmo moinho, apesar das pinceladas de erudição. Me contaram que tem gente que lê os textos de Freud apenas para se excitar. Os assuntos são sempre facas de muitos gumes.

De forma que o assunto desta crônica pode recair em campos tão diversos como a economia, a comunicação, a psicanálise ou teorias das artes. Pode também fingir que está em alguma dessas áreas, algo absolutamente legítimo diante da leveza do meio.

Imaginem se Jane Austen tivesse que escrever seus romances pela internet. Acabo de ler o folhudo ‘Mansfield Park’ onde a gente fica curtindo os volteios da pena durante páginas e páginas até que o sujeito perceba que está se apaixonando pela donzela.

Parece óbvio afirmar que a dinâmica da recepção de narrativas tem se acelerado com o advento do capitalismo cultural. Há uma diferença notável entre Jane Austen e o BBB. A ejaculação precoce era incompatível com o romantismo. Que frase mais jocosa e inconveniente – só mesmo numa crônica desassuntada como esta.

Entrei por uma porta e saí pelas outras.

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março 17, 2009

Para onde vai o ego?

ego

Paulo Costa Lima

Para onde vai o ego? Para onde nos leva? Em suas palestras em Harvard (1939), Stravinsky lembrava que a noção de autor-compositor individual foi surgindo junto com o imaginário da burguesia incipiente, no início da Renascença – na Idade Média essa não era uma prioridade. De lá pra cá tem sido uma intensificação só. E agora, na época do capitalismo cultural, essas perguntas impertinentes assumem uma centralidade vexatória tendo em vista a exaltação desmesurada da individualidade, e essa espécie de artistificação progressiva ou espetacularização de tudo – da osteoporose ao câncer de próstata. Mais importante que a cátedra: o talk-show.

Antigamente os artistas eram artistas, os outros não. Ego de artista era ego de artista. Os outros tinham noção e compostura, havia todo um resguardo de gabinetes, consultórios e distâncias regulamentares com relação a médicos, advogados ou engenheiros. Para que imitar os artistas e boêmios? Podia pegar mal. Egos excêntricos sim, moldados pelos palcos, pela constante exposição à fantasia alheia, mas tudo, tudo, em nome da arte. A sublimação era escudo e altar.

O que acontece hoje é uma artistificação forçada. Muito menos em nome da arte do que em nome de mecanismos oferecidos pelo “sistema”, a partir de egos espetaculosos que dão as cartas e movem montanhas. Ao invés de socialismo e distribuição de renda e oportunidades, o que aparece no horizonte do capitalismo é esse hiper-capitalismo narcísico das celebridades, dando origem a uma nova ecologia de egos. E mais do que isso, dando origem a repetições em escala, a vulgarizações em escala, colocando em risco a própria noção de autenticidade. Todos preferem ser modelo. O que é legítimo? Eu.

Digo ecologia porque é palavra limpa e cristalina, mas bem que a vontade é dizer patologia. Não sei se os profissionais da área estão classificando cuidadosamente esses tipos de desvio que cada vez mais aparecem como defesa contra a depressão, contra o perigo de sentir-se vazio e inexpressivo no meio do turbilhão – e certamente os profissionais da área também estão sendo afetados pelo mesmo fenômeno, o que complica as coisas. Lembro que Lacan disse em alto e bom tom naquele livro que tem um elefante na capa, que o ego é o sintoma humano por excelência. E aí, cara, fudeu. Quem é que quer ou pode ‘ficar bom’? Perder o bilau do ego? Jamais. Também não se sabe o que seriam egos animais. Jacaré tem super-ego?

Brincando… Quando Lacan fala em sintoma, fala em mediação entre a conquista da normalidade neurótica (top de linha das aspirações normais) e o espatifamento no real, sem mediação simbólica, com foraclusão do “nome do pai” e tudo que tem direito (delírio, psicose e o escambau). Observa que o sintoma cumpre sua função de mediador, explicita uma geografia psíquica, confere identidade.

Para alguns teóricos da psicanálise via sociedade, a globalização coincide com um fenômeno abrangente chamado de “declínio do nome do pai”. Todas as ações de desconstrução da ordem vigente (inclusive os ditames da modernidade) a partir dos anos 60, se enquadrariam nesse ciclo. É o que leva Melman a prever que a passagem pela castração (processo de construção de identidade sintonizada com os referenciais do pai simbólico, da lei), estaria sendo cada vez mais problemática, aleatória, frágil ou incerta. E assim, da mesma forma, cada vez mais haveria delinqüência em todos os níveis. Não parece existir delinqüência mais freqüente em nossos dias que a síndrome do ego-espetaculoso.

Os egos humanos estão sendo, cada vez mais, moldados pelo olhar de quem os consome, seja no Big Brother ou na Caras. E de quem é a doença – de quem representa, de quem assiste ou de quem pauta e filma? E quem disse que é doença? É Zeitgeist – espírito da época, ou melhor, da estação, com modelito, passarela virtual e tudo.

Os novos egos não convivem bem com a noção de instituição. Redirecionam para si e para seus objetivos especulares a energia que antes circulava pelo organismo da dita cuja. O que dizer da pesquisa, quando esta importa menos que o pesquisador? Adeus àquela ética laboriosamente desenvolvida pelo Iluminismo, que estabelecia uma competição leal entre as idéias. No capitalismo narcísico, o que importa de fato é a quem a idéia ilumina.

E pensar que, em nome da liberdade, Spinosa costurou um discurso crítico com relação ao prazer (libido), honras e riquezas. Parece ter pedido que seu nome não constasse da obra que deveras escreveu. Não considerava digno de um filósofo. Puro contraste: meu amigo verifica seu nome no Google três vezes ao dia.

De volta à própria arte: sobreviverá aos novos egos, e à crescente fusão com a publicidade? Espoliados de sua marca distintiva, de sua “razão de espetacularidade”, os artistas de hoje ou se adaptam ao regime superficial em prol da visibilidade, ou transformam essa superficialidade em coisa densa (sem perda de rebolado; como?). Não sendo assim, precisariam secretar substâncias capazes de torná-los independentes de sua necessidade estrutural de testemunhas, priorizando um, e apenas um objeto erótico: a gaveta