‘Fiz uma viagem’ de Dorival Caymmi

Eu fiz uma viagem
a qual foi pequenininha
Eu saí dos Olhos d’Água
fui até Alagoinha…

A análise de uma canção nos leva a pensar na lógica de suas estruturas musicais e de como essas lógicas reverberam nos meandros de imaginário que a mesma desencadeia. A canção funciona como uma espécie de espelho de quem ouve. Observe como o protagonista convoca a atenção do colega (e também a nossa) para o desenrolar da narrativa:

Agora colega veja
como carregado eu vinha
Trazia a minha nega
e também minha filhinha
Trazia meu tatu-bola
filho do tatu-bolinha…

Poderia ser Ulisses voltando pra casa na Grécia Antiga, mas o percurso é reconhecidamente menor (dos Olhos d’Água até Alagoinha). Será uma referência inicial (lágrimas?) ao desando da sorte que virá em seguida? O caso é que há aí todo um jeitão de relato épico, e de orgulho másculo, e é isso que o colega precisa ver, esses atributos fantásticos do protagonista.

Na ordem das coisas vivas e queridas ele carrega sua nega, sua filhinha e ainda um incrível tatu-bola, filho de um outro, bolinha – até o tatu tem linhagem nessa estória, e é colocado na lista como membro da família! Logo depois vem o portentoso facão, com muito aço e vinte couros de boi manso, fonte inquestionável de poder e de masculinidade, e outros bens de grande valia: 400 galinhas, 20 sacos de feijão, 30 de farinha. São sete atributos de identidade…

A canção envolve um jogo constante entre três perspectivas que se cruzam:

a. A narrativa propriamente dita com seus eventos e des-eventos;
b. As marcas de identidade desse narrador-viajante tão peculiar, retratadas com bastante humor (a bainha do facão tem couro de vinte bois!!!);
c. As artimanhas compositivas de Caymmi que garantem a integridade do todo e o deslizamento orgânico das partes.

Vale observar que existe uma platéia interior à canção, que ouve o protagonista cantando sua saga a um ‘colega’. Nós somos uma segunda platéia, e recebemos o efeito dramático desse jogo de espelho.

Obviamente tudo isso remete diretamente ao ambiente das feiras populares no interior da Bahia (e em todo Nordeste) com seus repentes e cantorias. Mas não é “folclore” (mesmo se isso existisse), é Caymmi, montando um universo de representação.

Há toda uma economia de meios para garantir que a atenção fique concentrada na estória que vai sendo contada. A narrativa se divide em duas, a ida radiante do narrador e seu ‘carregamento’ e os desandos da sorte em Alagoinha. O discurso musical se apóia em dois gestos complementares que se repetem, cada um equivalendo a um verso, ilustrados abaixo em sua primeira aparição:

Ex. 1

A canção é construída por 16 unidades desse tipo, e apenas a última é alterada, como uma espécie de licença poética pra finalizar. Em termos de proporções, estamos diante de algo do tipo: (2+2) + (2+2) + (2+2) + (2+2)………..

Ou seja: uma regularidade exemplar, sempre versos de dois compassos (Eu fiz uma viagem) complementados por mais dois (a qual foi pequenininha), do início até o fim. A lógica musical da canção depende em grande medida dessa articulação binária, da capacidade de manter uma espécie de movimento pendular que vai desenrolando a narrativa.

Ex. 2

E a atratividade das duas metades pode ser atribuída a vários fatores. A harmonia, por exemplo, que é o mais óbvio: um sai da Tônica para a Dominante, o outro da Dominante para a Tônica. E só tem isso, dois acordes.

Mas também o contorno. O primeiro saltita como arpejo, o segundo desliza em grau conjunto. Há, entre o final do primeiro e o início do segundo, um espaço considerável (de sétima menor), que empresta ao segundo verso uma expressividade, uma eloqüência, típica dessas narrativas populares. E que justifica a descida por grau conjunto.

Esse movimento binário pode ser tomado como guia das coisas simétricas que são usadas na construção do todo. Além das já mencionadas divisões de tempo (no nível macro e micro da canção) surgem também outras ramificações.

Todos os objetos de amor e de orgulho que são listados na primeira parte da narrativa – nega, filhinha, tatu-bola, facão, capoeira, feijão e farinha – reaparecem na mesma ordem, na segunda. O tal ‘colega’, que é o destinatário direto do discurso, aparece abrindo e fechando a narrativa.

Mas a pulsão simétrica acaba transitando para uma bagaceira sem fim, gerando uma enorme assimetria de expectativa. Rompe-se impiedosamente com a aura radiante do início, levando cada ‘objeto’ a um destino particularmente infeliz. O orgulho incontido do narrador-viajante vai de encontro ao constrangimento do desando da sorte. Já pensou no drama da morte de 400 galinhas? Ou na morte do tatu-bola – reconhecido membro da família? Ou a bexiga que deu na nega (varíola?) Mas, o caso é que a desgraceira é ‘cênica’ – assume efeito de espetacularidade.

Esses dois extremos (simetria e bagaceira) se encontram na construção de outra coisa, algo que tem a ver com a capacidade de rir de si mesmo, dos altos e baixos da vida, da espantosa união entre graça e desgraça, orgulho e miséria – tudo isso com amplo respaldo na tradição popular e na experiência nordestinas.

Não se pode dizer que a canção é épica. A rigor seria uma tragédia, mas no esquema milenar da tragédia o herói deve ter alguma culpa, mesmo quando não sabe disso, como é o caso de Édipo. Ora, a única fonte plausível de culpa na canção seria o orgulho do narrador-viajante.

Talvez estejamos diante de uma fábula nordestina que reforça o sentimento coletivo de que não se deve ter nada como garantido, e muito menos se gabar das coisas… Será?

O gesto final muda o andamento de forma drástica e resolve de uma vez aquela distribuição de infelicidades. Surpresa e relativização de toda a ordem usada até então. O que era monótono se apressa.

Agora veja: a harmonia, que representava o movimento da viagem através do movimento pendular, recebe um acorde diferente, o Lá Maior (Subdominante), e essa pequena-grande mudança nos informa que aquela hipnose da narrativa acabou de acabar. Ou seja: quando a harmonia ‘anda’ é porque parou! É como se o protagonista dissesse: olha, tudo isso é representação, posso acabar com toda essa lenga-lenga em um segundo… e zás!

Ex. 3

Do ponto de vista musical há várias escolhas que provocam uma convivência íntima entre simetria e assimetria. As idéias musicais sempre começam fora do tempo, e produzem muitos desequilíbrios de síncope. São calcadas numa alternância fiel de proporções de ‘1’ e de ‘2’, estilo característico da rítmica africana transposta para os nossos gêneros musicais – veja tabela abaixo. Daí a quantidade daquilo que chamamos de ‘síncopes’.

Além disso, verifica-se com certo espanto que nenhum dos 16 gestos é igual a qualquer outro. Há sempre um pequeno detalhe de ritmo ou de escolha de nota, motivado pela prosódia, criando esse verdadeiro painel de coisas que parecem iguais, mas são diferentes. E isso é muito pouco comum:

Ex. 4

O Exemplo acima lista apenas 7 variantes do primeiro verso/gesto – de um total de 16 unidades. Mesmo sabendo que é apenas uma mostra parcial do verdadeiro painel de pequenas diferenças que se acumulam ao longo da canção, já dá pra ter a sensação das sutilezas musicais envolvidas no processo do compor. Se isso é preguiça, macacos me mordam!

Esse tecido musical super-diversificado oferece um contraste marcante com a regularidade exposta anteriormente e espanta qualquer monotonia. Vejam as proporções de cada gesto:

E mais uma vez: Viva Caymmi!
PS: Dois agradecimentos: a Tuzé de Abreu que me apresentou a canção, e ao Songbook de Chediak que registra com precisão as estripulias de Caymmi.

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One Comment to “‘Fiz uma viagem’ de Dorival Caymmi”

  1. Gostaria de ter esta canção “Eu FIz UMA VIAGEM’ escrita inteira para passar para o meu computador. Gosto muito dela mas não sei toda. Por favôr se puderem me indicar onde ficarei muito agradecido ou mesmo em disco de Caymmi. Um Abraço. Estarei a espera.

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