Archive for abril, 2009

abril 26, 2009

Pimentão alucinógeno

Paulo Costa Lima

O pimentão ficou famoso. Entre temperos e destemperos estreou nesta semana como campeão da contaminação nacional – dos 101 coletados em todo o país, 64 estavam envenenados.

Não ficou bem para o rosto público dessa celebridade vegetal, sempre citada como agente antioxidante.

Com toda essa tensão entre ‘eu’ público e privado, o pimentão vai experimentar um pouco do seu próprio veneno. Não existe celebridade sem a montagem de um rosto público imaginário, captador e indexador da fantasia e do desejo das pessoas.

Já existe um nome para os famosos por 15 minutos – celetóides. Parece ser o caso. Tudo vai depender da quantidade de veneno que colocarem no ano que vem. Por favor, chega de metamidofós – além de proibido em todo mundo o nome já humilha.

Ainda bem que a Anvisa anvisou, mas é só isso que temos como defesa civil, executivo, legislativo e judiciário? Aliás, todos dizem que as leis são boas, mas e a aplicação delas? Ninguém é citado ou responsabilizado por atentar contra a vida de todos os consumidores? Não li nada sobre isso.

Devemos assimilar o discurso de que a contaminação é um mal necessário? Que sem agrotóxico não se alimenta o mundo? E onde fica o direito de ser informado sobre as drogas colocadas em cada produto?

Madona! Para onde vai uma crônica que pretende mostrar uma tendência muito mais ampla à contaminação da sociedade – poluição, radiação, medicalização, alienação – unindo cultura e agricultura, pimentão e celebridades?

Vale lembrar que as celebridades são mercadoria, no sentido de que os consumidores desejam possuí-las. E certamente surgiram na esteira da democratização das sociedades ocidentais – nesse sentido, são um verdadeiro progresso.

Receberam a energia que antes era colocada na crença de que os reis tinham direitos divinos. Também cresceram em cima do declínio da religião organizada.

No caso da vida cultural, ainda não existem testes tão precisos sobre contaminação e envenenamento – mas que as bruxas existem, existem.

Parece então que a tentativa é deixar que o mercado vá regulando anualmente o consumo dos venenosos, punindo seus produtores com a baixa de consumo – divulga-se que o ministro tirou o pimentão da dieta. A banana já esteve muito mal, e agora melhorou bastante, está na casa dos 2%.

Trata-se de uma estratégia reguladora neo-liberal (??) bastante deslocada nessa época de crise! Como permitir que os consumidores indefesos das periferias do mundo escolham seus pimentões e artistas com a acuidade necessária?

E veja bem a diferença entre periferia e centros do mundo. Temos que aturar/venerar as nossas celebridades e as deles. Eles raramente ouvem falar das nossas. Não sabem o que estão perdendo…

O desejo de possuir uma celebridade – ou de ser objeto desse impulso – é um dos exemplos mais representativos dessa tal sexualidade moderna. Lembram daquele trocadilho entre Elvis e Pélvis?

Herdeiro do desencantamento com a nobreza e reis, esse desejo vibra intensamente com casos que representam justamente a ascensão de alguém (com quem me identifico) ao Olimpo.

Quem não vibrou com a história de Lady Di – quem não amargou seu final trágico?

No varejo: o príncipe e o mendigo, a prostituta e o ricaço (Julia Roberts e Richard Gere), a variante do Notting Hill, o diabo veste Prada, etc, etc…

Será que toda a tensão gerada pelo caso Lewinski era simplesmente alimentada pela irresistível narrativa de uma jovem plebéia se aproximando perigosamente de um dos homens mais poderosos do planeta?

Pimentões e celebridades estão aí em nossa realidade. Não há como ignorá-los. Mas bem que poderiam ser mais saudáveis.

Enquanto não damos jeito no futuro do planeta ou do capitalismo, talvez fosse o caso de desenvolvermos um indicador para a contaminação cultural…

abril 17, 2009

Seja breve! No Juízo Final isso não passa de um pum!

Lima: Goethe rimou em alemão Juízo Final e pum

Lima: Goethe rimou em alemão Juízo Final e pum

Paulo Costa Lima

Goethe sabia das coisas. Colocou essa belíssima frase na boca do seu personagem demoníaco – Mefistófeles – só que rimando, e em alemão*.

E hoje a recomendação do diabo está na ordem do dia em todos os cantos, principalmente na internet.

Tem valor especial quando aplicada aos personagens políticos – de quem tanto dependemos – e seus intermináveis discursos. Imagine se as casas legislativas de todo o mundo colocassem essa insígnia em seus plenários…Mas também se aplica ao fazer artístico com igual relevância. O que dizer das óperas?

Fico admirando a imagem de um juízo final montado como um grande resumo de tudo, lembrando uma espécie de ‘vale a pena ver de novo’, ou BBB total.

Seria (ou será) fantástico. Assistir tudo que importa da vida humana numa única sessão. Pelo menos podemos ter esperança de que a ótica da narração não será a mesma dos filmes americanos.

Vale lembrar que naquela cena de julgamento divino no ‘Auto da Compadecida’ de Suassuna, Jesus é negro. E sua visão não é a dos senhores do nordeste. Há esperança.

Lembro de pelo menos dois criadores que reconstruíram essa imagem da visão ciclópica final: Machado de Assis no fantástico delírio de Brás Cubas, e Raul Seixas em ‘Eu nasci há dez mil anos atrás’. Ambos deliciosos.

Mas voltando ao dito. Chamo a atenção para essa associação atroz entre o diabo e o mundo de baixo, o mundo dos puns.

Para Freud – que usou a expressão como forma de ironizar Jung (em alemão ‘Jungsten Tag’ forma um trocadilho entre juízo final e ‘dia de Jung’, e os dois já estavam brigados) -, o diabo estaria aí refletindo um mecanismo de repressão, bastante germânico por sinal, dessas sujidades.

Outra coisa impressionante é que esse pum finalístico, ou pum final, está sendo adotado pela gozação do diabo por ser coisa muito breve e insignificante.

Percebo, dessa forma, que a metáfora de Goethe acaba sendo musical. O pum é apenas um tempinho sonoro, sujo e insignificante na presença divina.

Como se a presença divina criasse um tempo dentro do tempo geral. E mais: como se esse tempo especial fosse sonoro.

Para quem nada esperava desse tema, está aí de forma bem implícita, uma teoria do tempo em música. Que, por razões óbvias, não será possível desenvolver aqui…

Mas fica a idéia: a música como um domínio tocado pela presença divina (ou diabólica), onde é possível construir um tempo especial, um tempo próprio, diferente do tempo do relógio.

Um tempo, que justamente por ser diferente do tempo geral da vida, pode ser manipulado, atrasado, dilatado, até mesmo interrompido. A música suspende o tempo comum, e se oferece como substituto equivalente. Ou pelo menos, cria uma tensão entre os dois.

Pense leitor, na bossa-nova. Não é a toa que ela consegue os climas que consegue – barquinho deslizando no mar, no cantinho um violão – a bossa nova constrói uma noção especial de tempo com sua batida e suas harmonias. Um tempo malemolente, que passa mas não passa, como a Garota de Ipanema.

Muito diferente da valsa de Strauss que rodopia no salão ou no espaço sideral, ou mesmo da bateria de escola de samba, ou do frevo. No caso da bateria, ficar no meio daquela multidão de ritmos (sem samba enredo) tem o efeito paradoxal de parar o tempo. É uma experiência de não-linearidade. A música não quer chegar em lugar algum, apenas permanecer efervescente e rebolativa.

Já o frevo é bem diferente. Puxa pra frente – e acumula energia no corpo por causa da acentuação disciplinadamente fora do tempo, é só conferir os seus passos. Quando você entra na música não tem jeito, vai deslizando até o fim, como em Vassourinhas ou em Atrás do trio elétrico, que por sinal fala que o diabo nasceu na Bahia…

Cruz credo, já falei demais! Entrei por uma porta…

* Mach es kurz! Am Jungsten Tag ist es nur ein Furz.

abril 10, 2009

O incrível desafio entre Hulk e Obama

"De certa forma, as nossas ruas estão cheias de hulkies".

"De certa forma, as nossas ruas estão cheias de hulkies".

Paulo Costa Lima


Vez por outra deparo com antigos episódios do Incrível Hulk. Fico cada vez mais convencido de que aquele sujeito verde que explode de repente e sai correndo com as bermudas em frangalhos estava prenunciando uma série de coisas com relação ao imaginário dos anos 80.

De forma mais direta existe a conexão com o corpo. O herói-monstro apregoa uma estética de músculos e malhação, pouco celebrada anteriormente.

Só para citar um caso: o que em 1983 era apenas uma academia na Califórnia, hoje se transformou em rede mundial, com receita na casa dos bilhões. De certa forma, as nossas ruas estão cheias de hulkies. Foi uma fantasia eficaz…

Mas o que mais intriga é o caráter reativo do herói. Movido a raiva e stress, só aparece quando confrontado. Muda radicalmente o modelo consagrado de fantasia heróica.

Heróis de outras décadas queriam salvar o mundo — Super Homem, Mulher Maravilha —, fazer coisas heróicas na floresta (Tarzan, Caveira), ou mesmo proteger Gotham City. Mas o Hulk vive perdido por aí, perambulando de capítulo em capítulo até sua transfiguração apoplética. Toda a ênfase recai sobre a transfiguração em si.

Acho que é o único super-herói imbecilizado, menos sabido que sua forma original. Se fosse possível entende-lo como canalização de uma necessidade coletiva, como pára-raios de uma raiva espalhada na sociedade, que de repente se expurga através do personagem, essa crônica ficaria bem mais interessante.

Talvez expurgue a perda do paraíso da liberdade sexual e a perda da utopia. A agressividade que antes estava voltada contra os centros de poder locais e globais (da família ao capitalismo), agora flutua ‘livremente’ e incomoda.

Enquanto a narrativa dos outros heróis envolve uma relação amorosa — difícil mas potencializada pelos ‘poderes’ do personagem —, o Hulk sempre aparece para atrapalhar alguma ligação que o personagem cientista estava prestes a realizar. Pois é. Quem vai querer transar com aquela coisa — teria uma genitália verde?

E aí temos um ruidoso paradoxo: toda a ênfase colocada sobre o corpo sarado e potente convive com um ambiente de dessexualização. Estaria a série ensinando à nova geração o caminho de um narcisismo exacerbado, onde a energia sexual ficaria direcionada para o corpo modelar? O fato é que ela aprendeu.

Seria, dessa forma, o prenúncio de uma época que precisou dizer a si mesma que ‘o sonho tinha acabado’ ? Começa o pesadelo? Pois não foi a década de 80 que matou logo cedo o maior arauto do ‘faça o amor e não faça a guerra’— Lennon ? Voltam à cena com toda força temas como nacionalismo, materialismo e religião.

Não seria essa tendência à transfiguração uma marca claramente estabelecida pela década de 80? Sai Lennon entra MJ com seu thriller e dança lunática — sou mau, sou mau. Mau como um pica-pau. Não estamos no clima do Hulk? Os jeans agora são rasgados (relendo um ícone central ao período anterior), os passos ariscos, o corpo exposto como centralidade de uma sexualidade e etnia incertas.

Num certo sentido, o ET é uma espécie de Hulk. Só que encantado. Essa outra solução imaginária coloca o sonho num nível celeste e existencial. Mas o ET é um monstro, que quando encurralado faz coisas prodigiosas. Nesse caso os humanos adultos é que são os imbecis — criaturas das décadas de 60 e 70 —, incapazes de entender a vida e os sentimentos…

O re-encantamento é feito pela relação entre a criança e o monstro-sábio, que talvez tenha um tom cinza-esverdeado… A propósito, não tem sexualidade. Seria macho ou fêmea?

Daí para Reagan e Thatcher seria apenas um passo — lideranças capazes de controlar essa degenerescência do sonho. Ou seja: capazes de operar uma transfiguração política, permitindo o florescimento de um sistema global de negócios, reprimindo tudo que estivesse em seu caminho — e inaugurando uma era que apenas agora, com a crise, encontra o seu limite histórico.

Nesse sentido, o Hulk é bastante atual e incita a imaginação sobre os novos modelos de fantasia, sobre a difícil retomada de um projeto de participação coletiva, cuja estabilidade surge, dessa vez, patrocinada pelas evidências de destruição planetária (simbólica e real).

Sendo assim, e levando em conta a necessidade retórica de um final retumbante, diria que o Hulk é o verdadeiro oponente de Lula e Obama — personagens bastante reais dessa nova quadra.

abril 8, 2009

Atotô do L’homme armé

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Por volta de 1300, a Europa originou uma das mais candentes canções anti-armamentistas existentes até hoje.Na letra desse hit medieval recomenda-se que é preciso “vigiar contra o homem armado; com um pedação de ferro”, ou seja, para vigiar contra o homem armado, todos se armam (o que havia de mais potente que um pedação de ferro?).

A ironia dessa canção, que se faz presente em sua fisionomia melódica é levada a interagir com o ritmo de Xangô, o alujá, construindo um passeio por universos de ligação entre os dois arquétipos. Essa obra quer ser uma apologia da diversidade e da habilidade de viver juntos no globo…

Já foi executada diversas vezes no Brasil (Salvador, Rio de Janeiro, Campos de Jordão) além de ter sido apresentada no Festival Sonidos de las Americas (Carnegie Hall 1996), no Lincoln Center (Juilliard Ensemble, 2003) e ainda pela Seattle Symphonic Orchestra (2004).

A versão disponibilizada foi gravada pelo Bahia Ensemble sob a regência de Piero Bastianelli.

CLIQUE AQUI – para escutar

abril 2, 2009

A música e o espelho

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Paulo Costa Lima
De Salvador (BA)

A música não diz tudo de vez. Se dissesse, não haveria porque ouvi-la de novo.

Ela parece existir dentro de uma perpétua contradição entre ser o sinal da inteireza de um determinado paraíso, e ao mesmo tempo, a evidência viva de sua incompletude.

No último sábado, no show da banda Cof Damu aqui em Salvador, fiquei junto de uma jovem que ao ouvir sua música preferida, pulava o mais alto possível, numa pungente agonia gozosa.

Seu corpo robusto – era pesada sem ser gorda – parecia querer flutuar nesses saltos expressivos – sempre alternados com gestos de quem estava tocando guitarra, logo depois bateria, e mais uma vez, saltos.

Aquele corpo parecia querer tornar-se música, e isso envolvia toda uma coreografia saltitante. Almejava flutuar. Lembro já ter sentido sensações semelhantes. Lembro por exemplo, de uma coreografia magistral feita por Graciela Figueiroa para as Quatro Estações de Vivaldi. Inesquecível!

Talvez a música não diga tudo justamente porque na realidade se constitui como uma espécie de espelho, um espelho sonoro. Para Didieu Anzieu, esse espelho sonoro marca o próprio nascedouro do sujeito, embalado pela voz materna.

Ora, esse espelho de som antecede em vários meses o estádio do espelho lacaniano, quando, através da imagem, o infante reconhece a si mesmo pela primeira vez – e sorri.

Muito já foi escrito sobre esse duplo de imagem que acompanha o nascimento do sujeito, e que paradoxalmente vem de fora – permitindo associar esse jogo de imagens com a fonte do conhecimento, da descoberta do mundo, e também, surpreendentemente, com a paranóia – o medo desse duplo que sabe sobre mim.

Anzieu, portanto, defende que esse jogo de identidade começa bem mais cedo, e não no plano visual. A identidade começa com choro, gritos, vocalizações de prazer, e tudo que a isso responde. O entusiasmo da música teria essa cena como ponto primordial.

Mas há um detalhe fundamental: se a música é espelho, é um espelho de tempo. Os jogos de identidade, do tornar-se e do destornar-se, da imersão em um campo sonoro, da aproximação ou afastamento de um centro tonal – todos tão caros à música, acontecem e desacontecem no tempo.

Ora, essas estruturas de identificação e reconhecimento transcendem o indivíduo. São matrizes utilizadas pelas coletividades para registrarem seus traços, seus ciclos e feitos.

Por isso, além de estar nesse curioso entrelugar de sujeito e objeto, a música também ocupa um lugar intermediário entre o indivíduo e o coletivo – sua comunidade mais imediata, ou a sociedade mais ampla.

Com sua realidade fugidia, a música nos embala e nos adia. Oxalá nunca termine, levando nossas almas, digo nossos corpos, pelo incrível espaço da música das esferas…

abril 1, 2009

Conheça o Kyrie de Nanã

Kyrie de Nanã trata-se de uma peça afro-renascentista – ou seja, uma peça que combina escolhas musicais desses dois universos, aparentemente remotos, e que brinca com a existência de um ambiente sonoro bivalente onde Deus é homem e mulher, ocidental e africano, senhor/senhora do êxtase e da lógica. A peça é executada pelo Coronlaine sob a regência do Maestro Cícero Alves Filho.

CLIQUE AQUI para escutar.