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março 17, 2009

Para onde vai o ego?

ego

Paulo Costa Lima

Para onde vai o ego? Para onde nos leva? Em suas palestras em Harvard (1939), Stravinsky lembrava que a noção de autor-compositor individual foi surgindo junto com o imaginário da burguesia incipiente, no início da Renascença – na Idade Média essa não era uma prioridade. De lá pra cá tem sido uma intensificação só. E agora, na época do capitalismo cultural, essas perguntas impertinentes assumem uma centralidade vexatória tendo em vista a exaltação desmesurada da individualidade, e essa espécie de artistificação progressiva ou espetacularização de tudo – da osteoporose ao câncer de próstata. Mais importante que a cátedra: o talk-show.

Antigamente os artistas eram artistas, os outros não. Ego de artista era ego de artista. Os outros tinham noção e compostura, havia todo um resguardo de gabinetes, consultórios e distâncias regulamentares com relação a médicos, advogados ou engenheiros. Para que imitar os artistas e boêmios? Podia pegar mal. Egos excêntricos sim, moldados pelos palcos, pela constante exposição à fantasia alheia, mas tudo, tudo, em nome da arte. A sublimação era escudo e altar.

O que acontece hoje é uma artistificação forçada. Muito menos em nome da arte do que em nome de mecanismos oferecidos pelo “sistema”, a partir de egos espetaculosos que dão as cartas e movem montanhas. Ao invés de socialismo e distribuição de renda e oportunidades, o que aparece no horizonte do capitalismo é esse hiper-capitalismo narcísico das celebridades, dando origem a uma nova ecologia de egos. E mais do que isso, dando origem a repetições em escala, a vulgarizações em escala, colocando em risco a própria noção de autenticidade. Todos preferem ser modelo. O que é legítimo? Eu.

Digo ecologia porque é palavra limpa e cristalina, mas bem que a vontade é dizer patologia. Não sei se os profissionais da área estão classificando cuidadosamente esses tipos de desvio que cada vez mais aparecem como defesa contra a depressão, contra o perigo de sentir-se vazio e inexpressivo no meio do turbilhão – e certamente os profissionais da área também estão sendo afetados pelo mesmo fenômeno, o que complica as coisas. Lembro que Lacan disse em alto e bom tom naquele livro que tem um elefante na capa, que o ego é o sintoma humano por excelência. E aí, cara, fudeu. Quem é que quer ou pode ‘ficar bom’? Perder o bilau do ego? Jamais. Também não se sabe o que seriam egos animais. Jacaré tem super-ego?

Brincando… Quando Lacan fala em sintoma, fala em mediação entre a conquista da normalidade neurótica (top de linha das aspirações normais) e o espatifamento no real, sem mediação simbólica, com foraclusão do “nome do pai” e tudo que tem direito (delírio, psicose e o escambau). Observa que o sintoma cumpre sua função de mediador, explicita uma geografia psíquica, confere identidade.

Para alguns teóricos da psicanálise via sociedade, a globalização coincide com um fenômeno abrangente chamado de “declínio do nome do pai”. Todas as ações de desconstrução da ordem vigente (inclusive os ditames da modernidade) a partir dos anos 60, se enquadrariam nesse ciclo. É o que leva Melman a prever que a passagem pela castração (processo de construção de identidade sintonizada com os referenciais do pai simbólico, da lei), estaria sendo cada vez mais problemática, aleatória, frágil ou incerta. E assim, da mesma forma, cada vez mais haveria delinqüência em todos os níveis. Não parece existir delinqüência mais freqüente em nossos dias que a síndrome do ego-espetaculoso.

Os egos humanos estão sendo, cada vez mais, moldados pelo olhar de quem os consome, seja no Big Brother ou na Caras. E de quem é a doença – de quem representa, de quem assiste ou de quem pauta e filma? E quem disse que é doença? É Zeitgeist – espírito da época, ou melhor, da estação, com modelito, passarela virtual e tudo.

Os novos egos não convivem bem com a noção de instituição. Redirecionam para si e para seus objetivos especulares a energia que antes circulava pelo organismo da dita cuja. O que dizer da pesquisa, quando esta importa menos que o pesquisador? Adeus àquela ética laboriosamente desenvolvida pelo Iluminismo, que estabelecia uma competição leal entre as idéias. No capitalismo narcísico, o que importa de fato é a quem a idéia ilumina.

E pensar que, em nome da liberdade, Spinosa costurou um discurso crítico com relação ao prazer (libido), honras e riquezas. Parece ter pedido que seu nome não constasse da obra que deveras escreveu. Não considerava digno de um filósofo. Puro contraste: meu amigo verifica seu nome no Google três vezes ao dia.

De volta à própria arte: sobreviverá aos novos egos, e à crescente fusão com a publicidade? Espoliados de sua marca distintiva, de sua “razão de espetacularidade”, os artistas de hoje ou se adaptam ao regime superficial em prol da visibilidade, ou transformam essa superficialidade em coisa densa (sem perda de rebolado; como?). Não sendo assim, precisariam secretar substâncias capazes de torná-los independentes de sua necessidade estrutural de testemunhas, priorizando um, e apenas um objeto erótico: a gaveta