Archive for julho, 2009

julho 22, 2009

Recital Online – Participe!

Participe do Recital Online deixando sua opinião sobre o Cânone de Pachelbel e contribuindo para a elaboração de uma crônica sobre essa obra. Três versões distintas estão disponíveis abaixo — não deixe de conferir! – CLIQUE AQUI

julho 22, 2009

Democracia cultural versus democratização da cultura

cultura

cultura + democracia = educação
educação + democracia = cultura
cultura + educação = democracia

O que vai acontecer com a gente brasileira? Basta olhar para as cidades e constatar o quanto está posto para ser resolvido (ou não) pela democracia. Lembro de Cazuza: Mostra tua cara… Quem é que paga pra gente ficar assim?

Democracia não é coisa fácil. Até parecia, antigamente… Mas veja, ainda não consagramos no coração da sociedade a ética inviolável da ‘coisa pública’.

Democracia não tem fórmula. Precisa ser inventada junto com o caminho. Por exemplo: o que seria democracia na cultura? Que coisas precisariam acontecer para que tal conjugação fosse possível?

A linguagem engana. Não poderia ser ‘conjugação’ — porque essa palavra se refere a duas coisas distintas. Se a cultura fosse uma coisa, e a democracia outra, uma das duas seria caolha, aliás, ambas[1].

É também por isso que a expressão ‘cultura popular’ deixou de fazer sentido (idem para cultura erudita). Ambas veiculam uma idéia de cultura menor do que o todo.

Também não avançaremos muito com a estranha figura da ‘democratização da cultura’ — levando cultura do centro para as periferias — pois ela supõe que a cultura pré-existe com relação ao processo. O modelo esquece que todo mundo pode e deve criar.

A única forma de sair desse imbróglio é falar de democracia cultural — necessariamente uma espécie de amálgama, onde uma coisa personifica a outra. Onde uma coisa vai sendo reconstruída como função da outra. E onde o horizonte buscado é o do cidadão com potencial de criação e fruição crítica.

Na montagem desse amálgama todos os repertórios precisariam estar abertos à flexibilização, não existindo garantia prévia de estabilidade dos repertórios, mas também nenhuma restrição.

A capoeira pode dialogar com a formação de atores? Claro que sim. Por que ainda não desenvolvemos algo revolucionário nessa direção? Da mesma forma: design popular e moda, mestres de percussão do candomblé e música erudita contemporânea, cordel e multimídia… Estamos falando de amálgamas e não de misturas. E obviamente, queremos que tudo isso deságüe na escola.

Mas lembre, há um princípio mestre: para que haja avanços, a gente brasileira precisa aprender a construir autonomia responsável. Essa formulação resume a preocupação com desenvolvimento, distribuição de riqueza e inteligência ambiental. Não há como fugir desse princípio.

Qualquer coisa que chamemos de democracia cultural — e a rigor não precisamos de duas palavras — deverá dialogar com esse horizonte, melhor, de dentro dele. Quais os processos que facilitariam essa caminhada?

Como artistas, somos treinados a fazer perguntas de dentro dos nossos campos. Como desenvolver a música (?), grupos de excelência, cadeia produtiva, novos mercados ou campos teóricos etc. Essas perguntas são importantes, mas elas não definem sozinhas as prioridades. A cultura não pode ser entregue apenas às demandas de cada setor.

Ora, a música não tem problemas, e sim as pessoas. Um problema musical só faz sentido quando há pessoas à sua volta, significando-o. Equivale a dizer que os problemas (musicais, culturais) têm historicidade e peso estratégico (político). Algo está muito errado com os caminhos da especialização radical.

A favela — como parâmetro de referência das zonas onde a nação ainda não se fez presente como deveria — não pode ser parâmetro exclusivo, mas exige que pensemos a cada passo se as soluções propostas a contemplam. Precisa estar incluída nos diagnósticos e soluções.

De Cazuza prá cá houve avanços inegáveis. Temos hoje um número bem maior de líderes e gestores comunitários. Os avanços dependem disso. Mas ser liderança ‘orgânica’ não é mole.

Os líderes enfrentam problemas de muitos tipos: dificuldade de mobilização e sustentabilidade (credibilidade da idéia de mudança e de democracia), violência circundante, apelos de alienações diversas — das proporcionadas pela mídia global aos caminhos populistas ou simplesmente corruptos, e por aí vai.

De alguma forma, nessa mesinha colocada no meio do barracão — onde logo mais acontecerá a reunião da associação cultural unidos do jardim esperança — está também colocado o destino da gente brasileira

Mais do que pungente, o desafio envolve conectar mundos aparentemente isolados (e esse isolamento esplêndido é o nome de nossa tragédia) — as decisões ‘culturais’ da grande mídia, dos produtores e celebridades, as decisões culturais das universidades, as políticas de governo — e, principalmente, pairando sobre tudo isso, a construção de um processo político virtuoso.

Ah! Que junção extremosa entre essas duas palavras: virtude e política. Então é dessa magnitude que se tratava o tempo todo?! Muito mais amplo que ‘políticas públicas’ de cultura — cuja flexão republicana nos últimos anos tem dado tanto rebu — imagine pegar o touro completo pelos chifres?

Alguns respondem com aquela famosa chave de ouro: educação.  Está certo, mas remete a médios e longos prazos. Eu queria uma solução pra ontem, ou pelo menos, pra já…

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[1] Mas a dicotomia entre cultura ‘de baixo’ (dos populares, ou de raiz) e cultura ‘de cima’ (de alguma elite) reverbera no mundo da palavra cultura há vários séculos.

julho 22, 2009

Análise Musical – Gago Apaixonado

Paulo Costa Lima

Devo, não nego, uma crônica dedicada a Noel Rosa. Sua presença constante no cenário da música popular reafirma uma condição ímpar. A trajetória de vida não fica atrás: produziu mais de duas centenas de canções num período de sete anos, morrendo antes de completar 27 (1910-1937)— um verdadeiro vulcão. Chico Buarque reconhece que vem de sua lavra uma primeira formatação da canção popular no Brasil.

No entanto, pensar em Noel como patriarca fundador é um tanto estranho porque ele constrói um personagem tão malemolente, irônico, gozador, anárquico — dizem que gostava de escrever versões pornográficas do Hino Nacional — que espécie de pai seria?

É claro que no Brasil a figura do pai anárquico ocupa um lugar importante no imaginário[1]. A falta de coesão social resultou num grande vazio de força simbólica unificadora — fomos Colônia por vários séculos, e reunimos num mesmo território gente de culturas muito distintas. Xangô e Descartes nem sempre se entendem! Então, muitas vezes a liderança precisou ser exercida ao contrário, ao arrepio da sisudez e dos ‘bons costumes’. No contrapelo dos limites.

É o que anuncia há mais de trezentos anos a figura de Gregório de Mattos, em sua recusa de ser porta-voz da oficialidade cultural, religiosa ou política. Traços semelhantes reaparecem em personagens e situações diversas a exemplo de Vadinho de Dona Flor, Macunaíma (herói sem caráter), ou na centralidade do carnaval (festa de alegria e de anarquia), e ainda na figura do malandro. Leia na íntegra

julho 22, 2009

Chico, Mané e Beiçola – todos três na corriola

Paulo Costa Lima

Chico é o leitor, mané o editor, e beiçola é quem escreve. No jargão de hoje, produtor de conteúdos. Não, não. Melhor mesmo é colocar o beiçola como leitor. Consumidor tem ou não tem cara de beiçola?

Pode até ser engraçado, mas quem vai ler insulto? Deixa o criador ser beiçola, fica mais fofo.

Só tem esses dois jeitos, porque o editor tem que ser o mané. Ele tá no meio, e não tem nada a ver com a ingrisilha. Como não? Ele não é amigo do gandola?

Mas o gandola não faz parte desse jogo – só virou folclore depois do Jô.

Nesse jogo da corriola o mestre vai impondo a cada pessoa uma sentença, e ninguém deixa a roda sem cumprir a lei: “cantar como galo, grunhir como porco, cacarejar de galinha, mugir de vaca, rezar uma oração, abraçar alguém…” (Danças e Ritos populares de Taubaté, p.39).

Você quer dar ares de semiose digital pra Chico, Mané e Beiçola – só porque a expressão não existia em nenhuma máquina de busca – mas combinou com o pessoal dapuc (?), vai dar rolo -, e no Aurélio o que aparece é outra coisa: arruaça e motim de rua…

Não tire atenção da beleza da imagem. Muito mais intensa que galos tecendo uma manhã. Temos aqui também porcos, galinhas, vacas e abraços, tecendo manhã, tarde e noite, nessa rede global de teúdos e conteúdos.

Escafedeu-se a obra prima, perdeu a forma. 240 canções do robierto (deixa assim mané!) num único suporte, meu amigo comprou. Pra onde vai a obra ora a obra não vai pra onde ia?

socorram-me, subi no … ônibus, em Marrocos
Acaba a ex-clusividade da obra? Os fãs, esses beiçolas empedernidos querem virar Chico – ou vice-versa. Os beiçolas querem ser gente. Produzem suas obras-b com grande entusiasmo: “posso divulgar o meu blog?”

Uma galinha grunhiu na Austrália.

obra-b, c, d, obra-r, rabo brabo de obra: abób-obra. Os beiçolas e o fim de repertórios canônicos. Beiçolas do mundo, uni-vos! E assim transito da semiose para o valor da rebeldia. Inventem uma geringonça diferente que a gente possa chamar de mundo. Já!

E talvez, o que um dia foi arruaça, num lugar desigual e violento como a bahia do século XIX/XXI tão bem pintada por João José Reis* e seu relato da vida do liberto Domingos Sodré, possa mudar…

Foi certamente um ambiente desse tipo que cravou na expressão seu viés de censura – entre brincadeira e motim, os três são denunciados. E cabe ao não nominado o maior peso nessa história.

A culpa é do beiçola? – uma marca de preconceito contra esse personagem sem nome que ameaça intervir no jogo? Afinal, ele é o único que rima com ‘curriola’ (fala-se assim), e vem no final da denúncia, recebendo todo o peso rítmico e métrico…

(Quantas mortes violentas já ocorreram no brasil em 2009 em função de curriolas do mal? 450 em Salvador)

A minha obra-b está pronta. Agora pensem em outras crônicas que tratariam de novas possibilidades:

eleitor, mídia e políticos (Chico, Mane e Beiçola);
os três macaquinhos;
o antes, o agora, e o depois (que beiçola terrível seria o depois)
o espírito, a alma e a mente (obrigado Pedro!)
a tese, a antítese e a síntese (êta beiçola danado!)
a trindade, o ego, o super-ego e o id (um beiçola intratável…)
Entro por uma porta e saio pela outra…

* Imperdível o livro do grande historiador baiano, com as teias de resistência e vida traçadas na bahia do século XIX, Companhia das Letras.

julho 8, 2009

Quadrilha

Quadrilha_Carlos Drummond de Andrade

Paulo Costa Lima

Quase nada sobre J. Pinto Fernandes. Apenas uma foto em preto e branco, com dedicatória e um grande charuto entre os dedos. Unhas polidas e esmaltadas como convém aos que lidam com a batuta – fraque ou casaca? Depois do casamento com Lili, as turnês da cantora (de voz afetada e fixada numa certa ária de Mozart) acabaram trazendo-o por essas bandas onde regeu três concertos e meio e arrotou intimidade com Karajan, tudo isso tentando abocanhar o Teatro Castro Alves (anos 70).

Como despertasse alguma simpatia entre incautos, o pessoal daqui percebeu o perigo e enxotou-o de volta. A demarcação de território não é exclusividade dos tigres. Um pouco de álcool a mais fez com que um belo dia, descesse para reger a orquestra de pijamas. Um escândalo… Há mulheres assim como Lili, o coitado do Joaquim fez de tudo, serenatas, canções especialmente compostas para sua voz incipiente, músicas que dedicou e batizou com algo do seu nome, nada disso adiantou. Era uma musa inatingível e atraía o compositor como se fosse uma espécie de atonalidade distante.

Enquanto isso, Maria ali de junto, tesa, tímida e um tanto magrela, doidinha por ele e pelo método Orff. Deu pra tia, educadora musical modelo, fundou corais e associações e Joaquim não viu nada. Pensava em Lili e em cosmologia, Smetak alertara para o dilema: “os eruditos insistem em colocar um conteúdo no espaço, enganam-se quase sempre, ao invés de dominar suas criações, são dominados por elas; já os populares, sentem mais do que sabem o que sentem e ainda se satisfazem em tocar para a lua!” Daí para o suicídio foi uma questão de compassos, polirrítmicos e polimétricos.

O desgosto de Maria não encontrou remédio, urubu quando está de azar, Raimundo, que pelo menos a amava, morreu de desastre, indo a Aracaju. Tocava viola em três orquestras e quatro conjuntos de casamento. Com a crise, há sempre aprendizes e outros periquitos que aceitam tocar em qualquer lugar por qualquer preço; o público, exigente e detalhista na mesma proporção das harmonias do pagode, nem nota que a “alegria dos homens” pode estar sendo um desespero tonal, cheio de glissandos e arranhaduras.

Teresa não teve outra escolha além do convento. Das aulas com Magnani guardou o fervor de gregorianos e já que uma coisa leva à outra, deu-se envolvida com os arquivos da diocese, e os exemplares de partituras seculares nele contidos. Com o tempo, olhava para a música como algo que se exuma, que vale pelo quanto morre, pelo tempo de enterro e esquecimento. Em sua cela, uma flâmula estendida na parede: musicologia: que os mortos enterrem os vivos! João já não a aborrecia com convites e propostas, foi para os Estados Unidos estudar etnomusicologia na Califórnia, minto, na Flórida ou Texas, e desenvolveu progressivamente uma mania de anotar, colecionar e medir comportamentos e usos musicais; quando esgotasse a lista teria aprisionado seu objeto.

Para que brincar de adivinhação com essa caixa preta que faz e ama a música que somos nós? Restrinjamo-nos ao visível e palpável: “João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém. João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes…” (Carlos Drummond de Andrade).