Archive for março, 2009

março 30, 2009

Meu caro amigo: uma homenagem a Chico e Hime

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Paulo Costa Lima
De Salvador (BA)

O que há de tão especial nessa canção?

De um lado o tom da delicadeza – existe algo mais carinhoso do que um “meu caro amigo”? E que vai adiante: me perdoe por favor, se não lhe faço uma visita… É uma linguagem bálsamo que a entonação quase jocosa de Chico realça e projeta (Confira no Youtube).

De outro, o tom do desabafo, um painel de durezas elencadas em carritilha logo após “a coisa aqui ta preta”, registrando muita mutreta pra levar a situação, e nessa mesma linha: careta, pirueta, sarro, sapo, cachaça… O desenlace é inevitável: “ninguém segura esse rojão”.

Quem viveu a década de 70 no Brasil sabe como foi intolerável o massacre de mídia do bordão “ninguém segura esse país” – a ditadura insistia em ser coisa nossa. A canção dá o troco, com uma dose vingativa e terapêutica de ironia e de pirraça: não é um país, e sim um rojão. O verso talvez tenha sido profético, basta lembrar o rojão que estourou no Rio Centro alguns anos depois.

Portanto, lá vai a canção, florescendo sobre uma polaridade – cruel e meiga. Não que soe partida ou desinteira. Nada disso, desce redonda pelo ouvido até o peito, e aí está um de seus grandes feitos. Sua emoção costura uma série de valores e de posições, tudo a partir de dois princípios estruturantes: a convocação do chorinho e o discurso intimista da carta.

Ambos elegem como objetivo maior a inclusão do ouvinte como membro da comunidade auditiva e pensante estabelecida pela canção, uma comunhão sonora. O bom ouvinte também é um dos destinatários da carta, pertence a seu mundo de sentido, com o qual se identifica, um caro amigo.

Neste manifesto simultaneamente sutil e destemperado, Chico e Francis colocam a melhor herança da música brasileira, e todos que com ela se identificam, em rota de colisão crítica com o antigo regime, que graças aos céus e a muitos espinhos e pingos de suor e sangue ávidos por uma outra realidade, foi-se. Ficou a pérola.

Mas de onde vem a força do chorinho? O chorinho foi um dos primeiros exercícios de abrasileiramento que a nossa música precisou desenvolver (a partir do final do século XIX). Recebe gestos da tradição “urbana” ocidental de polcas e xótis (originalmente vindos do mundo camponês) e os reconfigura.

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O que vemos no primeiro gesto da canção é algo claramente derivado da tradição de um Pixinguinha (confira o solo de flauta da introdução). O gesto melódico é forjado com a malícia e a malandragem desses volteios que sobem e descem. E embutidos nos volteios uma rítmica claramente influenciada pela mentalidade africana – por exemplo, a acentuação “contra-hegemônica” da última semicolcheia de cada grupo – dó-si; si-lá; lá-sol – (também no pandeiro), e a formação de um jogo complexo de acentos rítmicos versus acentos métricos (3 contra 4), que mesmo sem querer mexe com o corpo.

Esse gesto instrumental funciona como uma matriz que vai dar origem a todos os outros da canção, e se encaixa na voz de Chico com uma naturalidade impressionante (sem o fá#?), como se fosse mesmo uma conversa entre amigos. (Entregue a uma soprano lírica seria um transtorno).

É claro que o gesto imita a entonação da fala carinhosa e jocosa (sobe – desce – sobe de novo – repousa), mas estica essa lógica quase ao absurdo, com subidas e descidas íngremes (oitavas e quintas) e inflexões cromáticas.

Um analista muito entusiasmado consigo mesmo diria que a proximidade (os semitons) e a distância (as oitavas e quintas) desse gesto matriz representam no tecido musical a tendência bipolar da obra – no caso, estar perto e longe – ressoando a delicadeza e o desabafo já assinalados.

A negociação entre volteios rebolativos e uma harmonia típica de choro (I- vio – ii7 – V4/2) produz um curioso efeito sonoro nessa canção, como se fosse uma espécie de “cama de gato” – complica e tensiona até resolver como se nada tivesse acontecido.

Mas não é apenas de proximidade e distância que a “cama de gato” melódico-harmônica está falando. O que inicia como simples delicadeza entre amigos, logo na esquina vai aparecer ligeiramente modulado para cumplicidade, e já beirando o desabafo: “eu ando aflito pra fazer você ficar, a par de tudo que se passa”.

Grifo a expressão “tudo que se passa” porque ela justamente promete muito. Ela afirma que há muito a contar, mas as curvas do discurso seguinte revelam paradoxalmente que “uns dias chove, noutros dias bate sol”. Ora, que grande novidade! “Tem muito samba, muito choro e roquenrol”.

Ou seja: promete-se muito e revela-se pouco. A não ser que a palavra “choro” do último verso seja tão arisca quanto o correio do qual se queixa o autor da carta. Poderia ser mais do que o gênero musical, na direção do horror do choro produzido pela tortura. Futebol rimando com roquenrol mais parece um espinho de alerta. O discurso aparentemente solto da informalidade entre amigos confunde-se com a confissão muda de um ambiente perverso, tudo isso levando a uma constatação sombria embora meio absurda: a coisa aqui tá preta.

Esses pequenos abismos do discurso encontram uma contraparte sonora nos choques melódicos apontados acima, nas subidas e descidas quase insanas, e na pouca presença da terça da tônica (o mi é guardado a sete chaves), tudo isso, porém, sempre envelopado pelo gestual harmônico e rítmico do choro. Tudo muito normal! O ouvinte desatento percebe apenas a beleza do choro e a letra “engraçada”. O ouvinte informado percebe o jogo sutil de denúncia embutido no humor e na ironia. O ouvinte escaldado vai descobrir como o tecido musical de sons e palavras trabalham em parceria constante.

Refaço o percurso das categorias: da delicadeza amiga para a cumplicidade – note-se que a última frase da canção reforça a idéia de um coletivo e não apenas de indivíduos (a todo pessoal, adeus…). Percebemos que a cumplicidade desemboca no desabafo e na denúncia crítica (seja da alienação esportiva e musical ou da tortura). Depois disso surge o painel de bizarrices já comentado anteriormente. Além de ampliar o desabafo, esse painel e a ironia que o finaliza (…rojão) nos fala de teimosia, de pirraça, de engolir sapo, ou seja, de resistência, que se manifesta também através da malandragem do humor e da ironia.

Todos esses valores estão firmemente plantados no solo da canção. Mas eles giram como se fossem um móbile, embalados por algo que os transcende, e que garante a redondeza do discurso: a sedução de pertencimento que envolve o ouvinte cúmplice. Daí para as “diretas já” foi quase um pulo.

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Muito ainda haveria a dizer sobre a trama musical da peça. Por exemplo, o jogo sutil que se estabelece entre os saltos e o cromatismo (a proximidade e a distância). Fica o exemplo musical abaixo como aperitivo dessas análises musicais: trata-se da linha melódica da introdução, e os pequenos círculos colocados acima das notas mostra que apesar do volteio ascendente e descendente há uma lógica cromática subreptícia dando unidade ao tecido, tal como o segundo pentagrama registra, uma descida de oitava, de sol a sol:

Melodia da introdução e orientação cromática escondida

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Esse processo continua durante a canção e pode ser ilustrado em diversos pontos, mostrando que a polaridade entre estar próximo e distante é central para o discurso musical da canção. Outros processos: a diferenciação controlada do material motívico a partir da idéia inicial, o planejamento harmônico e formal, o mapa gestual da canção, etc. (fica para outra crônica)

*

¹A harmonia da música popular brasileira é filha direta de Rameau e de sua progressão fundamental.
²Muitos leitores talvez não se lembrem do que seja “cama de gato”, aquele jogo com cordões, que fazem e desfazem padrões (já apareceu numa novela antiga).

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março 19, 2009

Ou dá ou desce

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Paulo Costa Lima

O assunto transcende.

Olha que maneira elegante e misteriosa de iniciar uma crônica! O assunto transcende!

Não precisa dizer nem o assunto nem o que estaria sendo transcendido. Talvez seja mais um importante passo na direção do ideal de escrever a crônica sem pecado e sem assunto.

Mas com esses desvios que comentam o processo, a forma e até os ideais, talvez perca de saída o leitor objetivo, aquele que deseja ir direto ao cerne da experiência, sem transcendências, se possível.

E será que existe mesmo a alternativa de ‘ir direto ao assunto’?

Por exemplo, essa facilidade sem preliminares que o texto da internet exibe a cada dia… Não seriam todos os textos da internet mais ou menos influenciados pelo mundo virtual pornô?

Ou seja: assim como nos sites de sexualidade explícita os textos da internet são compelidos a dar logo o que têm que dar, são plasmados, de alguma forma, pela impaciência da ‘pulsão de ver’ que habita os nossos voláteis usuários.

Se quiserem uma formulação mais popular – ou dá ou desce! Desce com o cursor procurando coisa mais palatável página abaixo.

Trata-se de uma pulsão que invade tudo, desde a ciência ou arte de arrumar produtos numa prateleira de supermercado ao mundo das notícias, passando pela política (basta lembrar do ‘bateu levou’), pelo ensino privado e certamente pelo show business.

Sendo assim, ‘ir direto ao assunto’, comporta além do próprio assunto, uma transcendência que, no mínimo, é o próprio estilo do mostrar, ou do fingir que vai mostrar.

Mas, esse princípio do ‘ou dá ou desce’ – e seu complemento, a pirraça e o fingimento tipo strip tease – parecem fazer parte mesmo do cerne da comunicação humana. São elementos indispensáveis da dinâmica das narrativas, e têm a ver com a dosagem daquilo que vai sendo oferecido.

A rigor, o simples ato de prestar atenção se relaciona com essa lei do ‘ou dá ou desce’, através da esperança constante de produzirmos prazer e sentido.

Neste ponto vale abrir um parêntesis para perguntar pelo significado original da expressão ‘ou dá ou desce’. O blog do Reinaldo Azevedo afirma que a expressão original seria na verdade ‘ou dá ou desse’, fazendo um revirão entre presente do indicativo e pretérito do subjuntivo.

Outras versões incluem a alternativa motorizada (ou dar ou descer do carro, moto etc.) e o do dilema absurdo-e-lógico (ou dá ou desce as calças).

As alternativas confirmam que a expressão dramatiza um certo fatalismo bastante em voga: ‘ou dá ou dá de qualquer forma’. Predomina, portanto, a eficácia de uma economia de serviços.

É claro que a impaciência da pulsão do leitor é uma função do próprio mercado. Ele sai avaliando o prazer da leitura em termos da rapidez do ‘chegar diretamente ao assunto’, e daí vai resvalando de manchete em manchete.

Mas se o leitor ainda está conosco é justamente por causa do frisson de um tema como o ‘dá ou desce’. Estamos tirando energia do mesmo moinho, apesar das pinceladas de erudição. Me contaram que tem gente que lê os textos de Freud apenas para se excitar. Os assuntos são sempre facas de muitos gumes.

De forma que o assunto desta crônica pode recair em campos tão diversos como a economia, a comunicação, a psicanálise ou teorias das artes. Pode também fingir que está em alguma dessas áreas, algo absolutamente legítimo diante da leveza do meio.

Imaginem se Jane Austen tivesse que escrever seus romances pela internet. Acabo de ler o folhudo ‘Mansfield Park’ onde a gente fica curtindo os volteios da pena durante páginas e páginas até que o sujeito perceba que está se apaixonando pela donzela.

Parece óbvio afirmar que a dinâmica da recepção de narrativas tem se acelerado com o advento do capitalismo cultural. Há uma diferença notável entre Jane Austen e o BBB. A ejaculação precoce era incompatível com o romantismo. Que frase mais jocosa e inconveniente – só mesmo numa crônica desassuntada como esta.

Entrei por uma porta e saí pelas outras.

março 17, 2009

Para onde vai o ego?

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Paulo Costa Lima

Para onde vai o ego? Para onde nos leva? Em suas palestras em Harvard (1939), Stravinsky lembrava que a noção de autor-compositor individual foi surgindo junto com o imaginário da burguesia incipiente, no início da Renascença – na Idade Média essa não era uma prioridade. De lá pra cá tem sido uma intensificação só. E agora, na época do capitalismo cultural, essas perguntas impertinentes assumem uma centralidade vexatória tendo em vista a exaltação desmesurada da individualidade, e essa espécie de artistificação progressiva ou espetacularização de tudo – da osteoporose ao câncer de próstata. Mais importante que a cátedra: o talk-show.

Antigamente os artistas eram artistas, os outros não. Ego de artista era ego de artista. Os outros tinham noção e compostura, havia todo um resguardo de gabinetes, consultórios e distâncias regulamentares com relação a médicos, advogados ou engenheiros. Para que imitar os artistas e boêmios? Podia pegar mal. Egos excêntricos sim, moldados pelos palcos, pela constante exposição à fantasia alheia, mas tudo, tudo, em nome da arte. A sublimação era escudo e altar.

O que acontece hoje é uma artistificação forçada. Muito menos em nome da arte do que em nome de mecanismos oferecidos pelo “sistema”, a partir de egos espetaculosos que dão as cartas e movem montanhas. Ao invés de socialismo e distribuição de renda e oportunidades, o que aparece no horizonte do capitalismo é esse hiper-capitalismo narcísico das celebridades, dando origem a uma nova ecologia de egos. E mais do que isso, dando origem a repetições em escala, a vulgarizações em escala, colocando em risco a própria noção de autenticidade. Todos preferem ser modelo. O que é legítimo? Eu.

Digo ecologia porque é palavra limpa e cristalina, mas bem que a vontade é dizer patologia. Não sei se os profissionais da área estão classificando cuidadosamente esses tipos de desvio que cada vez mais aparecem como defesa contra a depressão, contra o perigo de sentir-se vazio e inexpressivo no meio do turbilhão – e certamente os profissionais da área também estão sendo afetados pelo mesmo fenômeno, o que complica as coisas. Lembro que Lacan disse em alto e bom tom naquele livro que tem um elefante na capa, que o ego é o sintoma humano por excelência. E aí, cara, fudeu. Quem é que quer ou pode ‘ficar bom’? Perder o bilau do ego? Jamais. Também não se sabe o que seriam egos animais. Jacaré tem super-ego?

Brincando… Quando Lacan fala em sintoma, fala em mediação entre a conquista da normalidade neurótica (top de linha das aspirações normais) e o espatifamento no real, sem mediação simbólica, com foraclusão do “nome do pai” e tudo que tem direito (delírio, psicose e o escambau). Observa que o sintoma cumpre sua função de mediador, explicita uma geografia psíquica, confere identidade.

Para alguns teóricos da psicanálise via sociedade, a globalização coincide com um fenômeno abrangente chamado de “declínio do nome do pai”. Todas as ações de desconstrução da ordem vigente (inclusive os ditames da modernidade) a partir dos anos 60, se enquadrariam nesse ciclo. É o que leva Melman a prever que a passagem pela castração (processo de construção de identidade sintonizada com os referenciais do pai simbólico, da lei), estaria sendo cada vez mais problemática, aleatória, frágil ou incerta. E assim, da mesma forma, cada vez mais haveria delinqüência em todos os níveis. Não parece existir delinqüência mais freqüente em nossos dias que a síndrome do ego-espetaculoso.

Os egos humanos estão sendo, cada vez mais, moldados pelo olhar de quem os consome, seja no Big Brother ou na Caras. E de quem é a doença – de quem representa, de quem assiste ou de quem pauta e filma? E quem disse que é doença? É Zeitgeist – espírito da época, ou melhor, da estação, com modelito, passarela virtual e tudo.

Os novos egos não convivem bem com a noção de instituição. Redirecionam para si e para seus objetivos especulares a energia que antes circulava pelo organismo da dita cuja. O que dizer da pesquisa, quando esta importa menos que o pesquisador? Adeus àquela ética laboriosamente desenvolvida pelo Iluminismo, que estabelecia uma competição leal entre as idéias. No capitalismo narcísico, o que importa de fato é a quem a idéia ilumina.

E pensar que, em nome da liberdade, Spinosa costurou um discurso crítico com relação ao prazer (libido), honras e riquezas. Parece ter pedido que seu nome não constasse da obra que deveras escreveu. Não considerava digno de um filósofo. Puro contraste: meu amigo verifica seu nome no Google três vezes ao dia.

De volta à própria arte: sobreviverá aos novos egos, e à crescente fusão com a publicidade? Espoliados de sua marca distintiva, de sua “razão de espetacularidade”, os artistas de hoje ou se adaptam ao regime superficial em prol da visibilidade, ou transformam essa superficialidade em coisa densa (sem perda de rebolado; como?). Não sendo assim, precisariam secretar substâncias capazes de torná-los independentes de sua necessidade estrutural de testemunhas, priorizando um, e apenas um objeto erótico: a gaveta

março 16, 2009

Um hino de paz para o mundo!

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No hino do Vaticano também aparece a ideia de combate e de luta.
“Força e terror não prevalecerão, Verdade e amor reinarão”


Paulo Costa Lima

Não estaria o mundo precisando de hinos de paz? Ou pelo menos de um bom hino da paz? Não seria essa uma urgência a ser tratada pela ONU, através da UNESCO? A idealização de um hino que pudesse funcionar em todo o mundo como um verdadeiro jingle de indução emotiva e apelo racional pelas vantagens da paz – sem diluir a ideia de nação e pertencimento. Ao início de cada conflito armado as pessoas se reuniriam nas praças e começariam a cantá-lo até que a paz retornasse…

Pois bem, vejamos:

Os hinos nacionais são experiências sensoriais complexas. Estão diretamente conectados ao sujeito coletivo e suas emoções. O emaranhado de mensagens que estrutura essas vivências culturais é elemento formador do imaginário de cada país, e do mundo. Afinal, os hinos são celebrados regularmente por bilhões de pessoas.

Olhando esses textos com todo respeito que merecem – pelo cabedal de união e solidariedade que proporcionam aos seus povos -, mas também com isenção analítica, ficamos preocupados com uma questão que daí emerge: para haver nação deve haver guerra? Na construção imaginária da pátria as referências bélicas parecem ser ‘condição necessária’.

Um breve percurso pela literatura dos hinos demonstra isso com facilidade. Comecemos por casa. Em nosso belíssimo hino, lá pelas tantas o eu lírico verde e amarelo apregoa:

Mas, se ergues da justiça a clava forte,
Verás que um filho teu não foge à luta,
Nem teme, quem te adora, à própria morte.

É uma construção poética sofisticada e emocionante. Ela reúne o apelo da ética, da justiça e da Mãe. Nessa altura o filho não teme mais nada…

Ora, bem sabemos que cada hino tem seu contexto, seu invólucro de ruptura e de instabilidade, e sua justificativa histórica.

Mas, aparentemente, penhorar a vida dos filhos-cidadãos parece ser uma estratégia absolutamente indispensável, e tem sido uma marca recorrente atravessando latitudes e longitudes.

Perceber isso, hoje, é se dar conta da quantidade de energia que foi necessária para ultrapassar a ordem medieval – e no caso das periferias, mergulhar na ordem colonial.

Mas voltando ao percurso dos hinos, verificamos que com os nossos vizinhos argentinos a marca de nacionalismo e morte surge no finalzinho do texto:

Coronados de gloria vivamos
O juremos com gloria morir.

Enquanto no hino brasileiro o eu lírico se dirige à Mãe Pátria, e os filhos são terceira pessoa, no hino argentino é com a primeira pessoa do plural que se faz o juramento – nós. O pior é que eles jogam com essa garra mesmo. Ninguém tem sossego até os 48 minutos da prorrogação.

Subindo na direção do México percebemos que ao invés da indução emotiva, ou juramento coletivo, o que temos é uma convocação explícita -aliás, como na Marselhesa, que parece ser o umbigo heróico de quase tudo isso:

Mexicanos al grito de guerra
El acero aprestad y el bridón,
Y retiemble en su centro la tierra
Al sonoro rugir del cañón.

O que dizer de Andorra, que é um dos menores países do mundo, porém com a maior expectativa de vida do planeta – 83,52 anos -, bradando contra seus incautos desertores?

Empenhemos nossa palavra de honra
Lutar por nossa salvação
E só um traidor nato
desiste da luta

No Chile, é a bandeira que conclama ao sacrifício:

con tu nombre sabremos vencer
o tu noble, glorioso estandarte
nos verá combatiendo, caer.

E o nosso querido Portugal?

Às armas! Às armas!
Pela Pátria lutar!
Contra os canhões marchar, marchar!

No caso do Canadá, a referência aparece de forma mais velada, mas ainda assim se faz presente:

O Canada, we
stand on guard
for thee
(Oh Canadá, estamos em guarda por você…)

E pasmem, no hino do Vaticano também aparece a ideia de combate e de luta – mesmo que pela verdade e pelo amor:

Sois o conforto e o refúgio daqueles
que acreditam e lutam,
Força e terror não prevalecerão,
Verdade e amor reinarão

(You are the comfort and the refuge of those / who believe and fight
Force and terror will not prevail, / But truth and love will reign)

Seria, dessa forma, impossível conjugar nacionalismo e pacifismo, ou pelo menos, discurso pacifista? Como deveríamos abordar essa questão numa era que se auto-define como prestes a ultrapassar a meta-narrativa da nação e do patriarcalismo?

Patriarcalismo? Sim, afinal, as imagens recolhidas nesses poucos exemplos fazem ecoar velhos símbolos da testosterona: clava forte, morrer com glória, grito de guerra, canhão, palavra de honra. Como seria a defesa das nações, a partir de uma ótica predominantemente feminina, pós-testosterona ?(1) Existe um hino feminino?

Dos hinos que pude ler, sobressai a delicadeza do japonês: que você (Japão) possa durar mil anos, oito mil anos, – sabemos que o número 8 é símbolo do infinito -, e que possa durar até que o mar transforme em pepita coberta de grama um grande rochedo… (tradução aproximada)

Existe sim, justificativa para propormos um hino de paz para o mundo. As crianças ouviriam esse jingle desde tenra idade, e todos os astros da música mundial seriam envolvidos na propagação dessa onda. Depois de conseguida a paz mundial, aos poucos o hino iria sendo esquecido, cumprindo dessa forma sua nobre missão: afinal, só fala de paz e de sua necessidade quem não a conhece plenamente.

PS-1: os hinos foram consultados através do site abaixo, e em alguns casos a tradução para o português foi feita por mim mesmo (sem muito esmero, apenas para mostrar as ideias contidas no trecho): http://fr-scubabrasil.sites.uol.com.br/bandeiras.htm

Curiosidades:
PS-2: O hino da Espanha não tem letra!

PS-3: Vale a pena conferir a obra Dona nobis Pacem – A Hymn for World Peace de David Fanshawe, para soprano, coro infantil, coro e orquestra, a partir de comissionamento feito por Nicholas Oppenheimer em 1994, diretor da De Beers Diamond, na África do Sul.

(1) Nem sempre a relação entre guerra e falicismo convence. Minha amiga, a escritora Cleise Mendes, observou ‘en passant’ que as mulheres também podem ser mui guerreiras e aguerridas. Registramos esse reparo.

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março 16, 2009

O resto é mar: o tom de Jobim

Paulo Costa Lima
De Salvador (BA)

A canção é toda cheia de onda, e o seu autor-personagem não deixa por menos. Na versão em inglês adverte(2): Don’t try to fight the rising sea (não tente lutar contra o mar que se ergue). Está aí, de próprio punho, uma declaração sobre o umbigo temático da obra, que, não por acaso, leva o nome de Wave (onda) – uma das canções brasileiras mais cantadas em todo o mundo.

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A figura acima mostra o primeiro gesto. A marolinha do ‘vou te contar’ e a onda inexorável, se erguendo logo após. Basta cantar esse início para perceber que, na canção, o gesto de onda é tão fundamental quanto o amor. Ou melhor, que o amor, a onda, o mar, brisa, cais, noite, estrelas, cidade, eternidade, indizível, tudo isso se mistura e se aproxima nesse verdadeiro hino… Pois é, essa é palavra que me ocorre – hino. Mas que espécie de hino seria Wave?

Não resta dúvida que é uma canção emblemática, mas como gênero é o avesso dos hinos. A distância heráldica, heróica, histórica que o hino constrói, aqui de nada serve. A canção-onda trata de proximidade, de envolvimento, e de mansinho, como a brisa que diz – ‘é impossível ser feliz sozinho’ (sic).

Veja, por exemplo, a marolinha do início – ‘vou te contar’. Gesto mínimo de significação máxima. Cria um laço todo especial com quem ouve. Só se fala isso na intimidade de uma roda, que é também a intimidade de uma comunidade lingüística – carioca, brasileira. Bem ao gosto da bossa-nova, a canção nos define a partir de uma perspectiva anti-heráldica, coloquial, como se a roda de amigos fosse o próprio País. A força do seu vínculo. E não é?

E vejam que sutileza bacana: as palavras do verso veiculam um ritmo de samba, que tem a ver com a alternância entre as consoantes (t,k,t), como se aí entrasse um chocalho ou coisa parecida – aliás, do mesmo jeito que o famoso ancestral ‘qual é o pente que te penteia’, esse aí, já uma verdadeira batucada.

Como técnica de composição, esse Jobim maduro nos coloca diante de um amálgama – gestos textuais e outros gestos sonoros, idéias de texto e idéias de som que se interpenetram para configurar o todo-onda que deságua sobre a gente. Tudo isso num ambiente de miniatura, onde muitas vezes a sugestão da idéia é bem mais eficaz do que sua explicitação.

Aliás, na arte de fazer letra, o não dizer é tão importante quanto o dizer – às vezes, mais. De repente prevalece a imagem. Por exemplo, quem é que não se pega contemplando o céu noturno quando a canção fala em ‘estrelas que esquecemos de contar’? Ou visualizando um cais, a onda que se ergueu no mar, e até mesmo a eternidade, que obviamente é impossível de visualizar, mas a canção tenta(3) – faz parte do seu charme…

Então voltando, os três primeiros segundos da canção (‘vou te contar’) trazem em si as sementes de todo o resto – algo que é um princípio de coerência do compor, e reúne: o formato de onda, a proximidade que envolve, a malemolência de seu gingado rítmico, a imbricação dos textos musical e poético, e uma harmonia que flutua (Ré Maior com sétima maior e nona), que paira suspensa – da qual trataremos logo adiante.

Existem vários exemplos na literatura de canções que transformam o mar em metáfora. Caymmi deixou pelo menos duas pérolas desse tipo – ‘O Mar’ e ‘É doce morrer no mar’. Ambas trabalham com gestos musicais que absorvem características de onda, e cada uma apresenta soluções fascinantes. Há também canções folclóricas como ‘Ondina’: IaIá olha a onda, na ponta de areia(4)

Digo tudo isso para lembrar que Jobim não inventou a roda ou a onda, como metáfora musical. Mas suas escolhas compõem um cenário diverso, todo seu. O mar de Jobim é um mar urbano, bossa-novista, cheio de matizes e de imagens, meio impressionista, lírico, zen, e claramente carioca. Não se apóia, como o de Caymmi, no olhar arquetípico de uma comunidade de pescadores.

Aí está, no exemplo abaixo, uma visão do todo da onda que se fez canção: de ‘vou te contar’ até ‘impossível ser feliz sozinho’.

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Depois da marola e da subida da onda chegamos ao grupo (3). É um gesto que se equilibra lá em cima da onda, certamente aquelas espumas que a gente sempre vê: ‘coisas que só o coração pode entender’. O grupo (4) começa o processo de descida e de focalização harmônica para o final: ‘fundamental é mesmo o amor’. O acorde de Mi maior faz a diferença, prepara a Dominante. O arremate cabe ao grupo (5) e sua impressionante blue note: ‘é impossível ser feliz sozinho’. A resolução final é um exemplo portentoso de mistura de modos. Já não existe maior e menor, os dois se entrecruzam. O acorde aumentado de Dominante (Lá) antecipa a terça do ré menor.

Por mais impressionante que seja o traçado melódico da canção, vale lembrar que toda a cor de Wave vem do trabalho harmônico. Jobim vive num mundo harmônico que já não é o da tonalidade tradicional. A musicologia cunhou um termo para técnicas semelhantes às que ele usa, e que foram desenvolvidas no final do romantismo europeu: tonalidade ‘suspensa’.

O Ré maior/menor de Wave convence quando chega, sempre no final dessa seqüência. Mas durante a canção parece difícil afirmar que este seja o centro tonal. O autor faz um monte de peripécias harmônicas ameaçando tonicalizar outros acordes – Sol e Si maior – mas logo-logo desliza em seqüências harmônicas sem permitir que estes se afirmem.

Tudo temperado com muitas dissonâncias acrescentadas aos acordes, cromatismo, suspensões, acordes aumentados e por aí vai. Ao sobrepor terças aos acordes mais simples cria-se um estado harmônico mais fluido, com muitas implicações. Essa flutuação harmônica expressiva sustenta o ciclo melódico da onda.

O gráfico acima mostra as duas seqüências internas para Sol e Si (ii V I). E na última linha, mostra que apesar de toda essa complexidade harmônica há uma seqüência de base, que é a mais tradicional de todas – a progressão fundamental. Ou seja, sustentando toda a pseudo-anarquia harmônica o que temos é a tradicional rota de baixos fundamentais visualizada por Rameau em 1726.

O jogo harmônico é parte integral da beleza de Wave e de seus processos de significação. Ele matiza a relação polivalente com o amor e com o existir: estar de olhos fechados, entender o indizível, coisas lindas prá te dar, as estrelas, impossível ser feliz sozinho, a noite que nos envolve.

Reúne num mesmo anseio a intensidade de amar e a intensidade de ser – especialmente do ponto de vista de sua finitude, a sensação de perda no infinito que o amor e o mar proporcionam. Esse é o tom, esse é o hino, ou anti-hino – que não exalta, porém envolve – ‘We know the wave is on its way’.

Muito mais haveria pra dizer, porém fiquemos por aqui: a riqueza do artesanato de compor canções; a possibilidade de diálogo entre visões analíticas formais e semânticas; o estilo sutil de construir pertencimento; um afastamento importante da fórmula analítica do ‘amor, do sorriso e da flor’, usado à exaustão para falar de bossa nova; e a curiosa proximidade entre erudito e popular. O resto é mar.

1. Esse artigo contou com a leitura e comentários de Tuzé de Abreu
2. A versão em inglês é de autoria do próprio Jobim.
3. Em inglês o autor manda fechar os olhos: ‘So close your eyes, for that’s a lovely way to be’.
4. Essa bela canção levou Ernst Widmer a construir uma obra para piano solo de rara sofisticação, as Variações em forma de onda.

março 16, 2009

Alguém pode querer me assassinar: poder e paranóia

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Paulo Costa Lima
De Salvador (BA)

Mamãe, não quero ser prefeito,
pode ser que eu seja eleito
e alguém pode querer me assassinar.
eu não preciso ler jornais,
mentir sozinho eu sou capaz,
não quero ir de encontro ao azar

O poder é um lugar de paranóia? Para Raul Seixas a conexão é bastante palpável. Uma breve inspeção dos significantes/personagens de sua canção “Cowboy fora da lei” nos leva diretamente ao contexto, e o título já nos fala das relações entre lei, heroísmo e transgressão.

Aquilo que parece ser apenas um balacobaco inofensivo com banjo e coisas do velho oeste oferece como ponto de partida um diálogo pra lá de delirante, envolvendo ninguém menos do que mamãe – “mamãe não quero ser prefeito”. Vamos e venhamos: combinar mamãe e velho oeste é uma raridade excêntrica.

Aliás, a canção reúne personagens improváveis: Durango Kid, Jesus, mamãe e papai, o cowboy fora da lei, um assassino aleatório, um prefeito recém-eleito, Deus!! Além de vários símbolos: o azar, a luz, a cruz, a lei, o heroísmo, a história, os jornais, o gibi, a pátria amada. Uma narrativa em forma de sarapatel que paradoxalmente flui sem maiores guinadas. Como consegue colocar tudo isso num mesmo saco?

Até que ponto, a canção de Raul deve ser pensada como alegoria do campo do poder? E que elementos traz para a análise do imaginário da convivência política, para o imaginário das eleições?

Ao escolher o velho oeste como ambiente da política, e dizendo que não é besta para ser herói crucificado, estaria Raul pintando um cenário onde não há solução política? Herdamos das ditaduras, ou melhor, da nossa tendência a ditaduras esse traço maléfico. Há quem diga que a canção se inspirou na tragédia que foi a morte de Tancredo Neves na década de 80 – uma época propícia para essa visão.

Não custa lembrar que o modelo da paranóia está presente em ninguém menos que Dom Quixote de la Mancha, e talvez seja uma abertura imprescindível para a modernidade.

Na canção a abertura é estranha e cômica. O círculo lógico e delirante de personagens se impõe: mamãe, ser eleito/ser prefeito, alguém. Quando o eu lírico diz a mamãe, com voz de bezerro desmamado que não quer ser eleito está soando na tecla do desamparo. Mas, porque o desamparo? Ora, só faz sentido se por baixo dele houver desejo de ser prefeito, herói e entrar para a história…

Desejo esse que pode atrair diretamente o ‘azar’ de um tal ‘alguém’. Alguém pode querer… olha que formulação maravilhosa! Quem pode negar uma coisa dessas? Alguém pode querer qualquer coisa. É uma frase ideal para o delirante justamente por não admitir contradição. Qualquer delírio consegue se justificar com essa tautologia.

A canção também registra esse incômodo com relação ao próprio cantar: “eu já servi à pátria amada e todo mundo cobra minha luz”. Raul se queixava de que havia uma expectativa das pessoas de que ele realizasse milagres do palco. Interessa-nos marcar esse paralelo entre a celebridade artística e a política. O reconhecimento da transcendência de ambas, conectando a expectativa geral à sensação difusa de perseguição.

Tanto na canção como na vida política, ser eleito significa trazer a si, ou melhor, incorporar uma narrativa que circula no âmbito coletivo. Convocar a atenção, ou mesmo usurpar a atenção que potencialmente poderia ser de qualquer um.

Nenhuma eleição no hemisfério sul pode fugir da expectativa de lidar com a extrema desigualdade de destinos. E como essa desigualdade não aconteceu por acaso, teve um script, sua desconstrução requer traços de herói e ao mesmo tempo de transgressor.

A frouxidão do laço social e a prevalência da lei de vantagem própria fazem da periferia do mundo um lugar de maior desconfiança com relação ao poder, onde a raiva do líder aflora com maior facilidade. A linha entre herói e bandoleiro fica bastante tênue. A síndrome emocional ligando comandados e poderosos, em torno da ocupação desse lugar central de decisão, apresenta peculiaridades e instabilidades próprias.

Esse sujeito que convoca o olhar, e que traz em si a promessa de avanço para uma situação melhor, também pode ser o mais novo sabidório de plantão, prestes a usar o poder em proveito próprio. O cinismo seria o avesso da paranóia?