XIX Bienal de Música Brasileira Contemporânea

Orquestra da UFRJ na XIX Bienal de Música Brasileira Contemporânea

Estou aqui no centro do Rio de Janeiro, visitando a querida livraria ‘Da Vinci’, me admirando com o Palácio Capanema imaginado por Le Corbusier e mesmo ‘observando’ a Lapa – por exemplo, uma deliciosa apresentação da Orquestra de Congas no tradicional Bola Preta (recomendo).

Mas o fato é que estou mergulhado em outra música de invenção – a Bienal apresenta 80 obras de compositores brasileiros, desfraldando dessa forma um painel representativo do pensamento sonoro da atualidade nacional.

Trata-se do maior gesto de política pública federal para essa área de criação, e sobreviveu todo esse tempo graças à dedicação extremosa de lideranças históricas como Edino Krieger e Valéria Peixoto (entre outros) e dos incansáveis organizadores atuais – Flavio Silva e Maria José Ferreira. Merece, sem sombra de dúvida, ter suas verbas garantidas e ampliadas.

Nesta edição celebra-se um fato inaudito: compositores recebem pela primeira vez cachês, como criadores que são – entre 1975 e 2009 todos trabalharam apenas pelo bem da causa. A avaliação das obras ocorreu em 2010 e a execução em 2011, inaugurando um modelo realmente ‘bienal’ de atuação.

Essa história dos cachês é um fato significativo, e ao mesmo tempo um absurdo bem brasileiro. A apresentação de trabalhos musicais inovadores não pode ser pensada como um favor, ou mera atribuição de prestígio ao compositor – trata-se de um investimento em pensamento sonoro criativo, é coisa coletiva, sistema imunológico do imaginário pátrio.

A Bienal reforça nesta edição seu potencial de evento catalisador, e exige união da área para que possa ser ampliada. Temos que pensar em contemplar cerca de 200 compositores por edição, incluindo obras representativas de todos os batalhadores da área, além de espaço para criadores e temáticas emergentes – mantendo e ampliando os dois mecanismos utilizados, encomendas e concurso.

Embora pouco se fale disso, o Brasil está crescendo de forma significativa nesse campo, atualmente são dezenas de centros de atividade relevante espalhados por todo o País. No contrapelo da mídia e da indústria cultural.

Inventar música é sempre um grande desafio, porque a liberdade precisa ser construída, mesmo pelo lado da intuição. E, obviamente, inventar não significa esquecer referências, mas exige sim a escolha de uma perspectiva, de como vê-las ou mesmo fingir que não existem.

Engraçado ter entrado por aí, porque terça-feira, na Sala Sidney Miller (no Palácio Capanema) a obra ‘Musik nach W’, de Paulo Guicheney, tematizava justamente esse delicado ponto. O compositor descreve seu caminho e motivação: “apropriar-se de uma obra conhecida, desmontá-la, despedaçá-la, escutar com outros (e novos) ouvidos”. Despedaçar também envolve amor auditivo (comento com meu amigo Flavio Oliveira).

Lembro que depois de um início ruidístico o compositor fustiga nossa sensibilidade com aquele famoso gesto inicial de Tristão e Isolda – de repente estamos em pleno poema sinfônico no meio eletrônico, com multiplicação dos gestos no espaço, e eventuais desconstruções nada graduais, até um ‘liquidificador’ foi ouvido.

A obra me fez saudoso – do ‘liquidificador’ e das intervenções desconstrutivas, por incrível que pareça. Na minha fantasia de ouvinte gostaria que fossem mais freqüentes e até se confundissem com o ‘poema sinfônico’ – mas são apenas devaneios de um ouvinte ‘participativo’.

A obra de Guicheney pode aqui ser tomada como fresta para esse grande tema da relação entre a invenção e suas referências – algo que tem atravessado boa parte das composições apresentadas até agora.

Na obra de Luis Carlos Csëko,Songs of Oblivion 14, veterano da contemporaneidade, berimbaus, guitarra processada, vibrafones friccionados com arco, tudo isso envolto em fumaça de gelo seco e brilhante performance de Joaquim Abreu, também tematizavam essa fresta criativa (uma baianidade reinventada) no âmbito de atmosferas multi-coloridas, vibrantes e pointilisticas, que fazem o exagero pulsar normalmente nas criações de Csëko.

A problemática poderia ser rediscutida em amplos horizontes, mediante observação detida (aqui não dá) das obras de João Victor Bota (Cordas parassimpáticas, descrito como um concerto de Brandemburgo com as notas erradas), as Geometrias Flutuantes de Wellington Gomes, Cordamadeira de Alessandro Ferreira, ou mesmo a presença de uma escaleta mágica (gerando imitações contrapontísticas eletrônicas) na obra Dharmapala V de Marcus Alessi Bittencourt.

Não perderemos o passado portanto (ou será que já o perdemos?). O fato é que não vamos deixar que ele crie por nós sem pedir licença. Ou será que vamos, e isso pouco importa? Devemos avaliar a qualidade pela novidade ou pela profundidade, ou pelas duas, ou por nenhuma? A celebração excessiva das estéticas anteriores mata a invenção. Mata? Viram só? É isso que dá falar de criação musical…

O fato é que ainda trago no ouvido as audácias texturais da obra de Borges-Cunha, apresentada na abertura do evento – Maxacali, regida por André Cardoso à frente da Orquestra Petrobras Sinfônica -, um denso exercício de construção de um todo sinfônico planejado em suas proporções. “…são turbulências que articulam a macro-forma e intensificam o conteúdo emocional das estruturas locais…” (ou quase isso).

E sendo assim, entrei por uma porta e saí pela outra…

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: