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abril 2, 2009

A música e o espelho

pianist

Paulo Costa Lima
De Salvador (BA)

A música não diz tudo de vez. Se dissesse, não haveria porque ouvi-la de novo.

Ela parece existir dentro de uma perpétua contradição entre ser o sinal da inteireza de um determinado paraíso, e ao mesmo tempo, a evidência viva de sua incompletude.

No último sábado, no show da banda Cof Damu aqui em Salvador, fiquei junto de uma jovem que ao ouvir sua música preferida, pulava o mais alto possível, numa pungente agonia gozosa.

Seu corpo robusto – era pesada sem ser gorda – parecia querer flutuar nesses saltos expressivos – sempre alternados com gestos de quem estava tocando guitarra, logo depois bateria, e mais uma vez, saltos.

Aquele corpo parecia querer tornar-se música, e isso envolvia toda uma coreografia saltitante. Almejava flutuar. Lembro já ter sentido sensações semelhantes. Lembro por exemplo, de uma coreografia magistral feita por Graciela Figueiroa para as Quatro Estações de Vivaldi. Inesquecível!

Talvez a música não diga tudo justamente porque na realidade se constitui como uma espécie de espelho, um espelho sonoro. Para Didieu Anzieu, esse espelho sonoro marca o próprio nascedouro do sujeito, embalado pela voz materna.

Ora, esse espelho de som antecede em vários meses o estádio do espelho lacaniano, quando, através da imagem, o infante reconhece a si mesmo pela primeira vez – e sorri.

Muito já foi escrito sobre esse duplo de imagem que acompanha o nascimento do sujeito, e que paradoxalmente vem de fora – permitindo associar esse jogo de imagens com a fonte do conhecimento, da descoberta do mundo, e também, surpreendentemente, com a paranóia – o medo desse duplo que sabe sobre mim.

Anzieu, portanto, defende que esse jogo de identidade começa bem mais cedo, e não no plano visual. A identidade começa com choro, gritos, vocalizações de prazer, e tudo que a isso responde. O entusiasmo da música teria essa cena como ponto primordial.

Mas há um detalhe fundamental: se a música é espelho, é um espelho de tempo. Os jogos de identidade, do tornar-se e do destornar-se, da imersão em um campo sonoro, da aproximação ou afastamento de um centro tonal – todos tão caros à música, acontecem e desacontecem no tempo.

Ora, essas estruturas de identificação e reconhecimento transcendem o indivíduo. São matrizes utilizadas pelas coletividades para registrarem seus traços, seus ciclos e feitos.

Por isso, além de estar nesse curioso entrelugar de sujeito e objeto, a música também ocupa um lugar intermediário entre o indivíduo e o coletivo – sua comunidade mais imediata, ou a sociedade mais ampla.

Com sua realidade fugidia, a música nos embala e nos adia. Oxalá nunca termine, levando nossas almas, digo nossos corpos, pelo incrível espaço da música das esferas…

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