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março 16, 2009

Um hino de paz para o mundo!

papa

No hino do Vaticano também aparece a ideia de combate e de luta.
“Força e terror não prevalecerão, Verdade e amor reinarão”


Paulo Costa Lima

Não estaria o mundo precisando de hinos de paz? Ou pelo menos de um bom hino da paz? Não seria essa uma urgência a ser tratada pela ONU, através da UNESCO? A idealização de um hino que pudesse funcionar em todo o mundo como um verdadeiro jingle de indução emotiva e apelo racional pelas vantagens da paz – sem diluir a ideia de nação e pertencimento. Ao início de cada conflito armado as pessoas se reuniriam nas praças e começariam a cantá-lo até que a paz retornasse…

Pois bem, vejamos:

Os hinos nacionais são experiências sensoriais complexas. Estão diretamente conectados ao sujeito coletivo e suas emoções. O emaranhado de mensagens que estrutura essas vivências culturais é elemento formador do imaginário de cada país, e do mundo. Afinal, os hinos são celebrados regularmente por bilhões de pessoas.

Olhando esses textos com todo respeito que merecem – pelo cabedal de união e solidariedade que proporcionam aos seus povos -, mas também com isenção analítica, ficamos preocupados com uma questão que daí emerge: para haver nação deve haver guerra? Na construção imaginária da pátria as referências bélicas parecem ser ‘condição necessária’.

Um breve percurso pela literatura dos hinos demonstra isso com facilidade. Comecemos por casa. Em nosso belíssimo hino, lá pelas tantas o eu lírico verde e amarelo apregoa:

Mas, se ergues da justiça a clava forte,
Verás que um filho teu não foge à luta,
Nem teme, quem te adora, à própria morte.

É uma construção poética sofisticada e emocionante. Ela reúne o apelo da ética, da justiça e da Mãe. Nessa altura o filho não teme mais nada…

Ora, bem sabemos que cada hino tem seu contexto, seu invólucro de ruptura e de instabilidade, e sua justificativa histórica.

Mas, aparentemente, penhorar a vida dos filhos-cidadãos parece ser uma estratégia absolutamente indispensável, e tem sido uma marca recorrente atravessando latitudes e longitudes.

Perceber isso, hoje, é se dar conta da quantidade de energia que foi necessária para ultrapassar a ordem medieval – e no caso das periferias, mergulhar na ordem colonial.

Mas voltando ao percurso dos hinos, verificamos que com os nossos vizinhos argentinos a marca de nacionalismo e morte surge no finalzinho do texto:

Coronados de gloria vivamos
O juremos com gloria morir.

Enquanto no hino brasileiro o eu lírico se dirige à Mãe Pátria, e os filhos são terceira pessoa, no hino argentino é com a primeira pessoa do plural que se faz o juramento – nós. O pior é que eles jogam com essa garra mesmo. Ninguém tem sossego até os 48 minutos da prorrogação.

Subindo na direção do México percebemos que ao invés da indução emotiva, ou juramento coletivo, o que temos é uma convocação explícita -aliás, como na Marselhesa, que parece ser o umbigo heróico de quase tudo isso:

Mexicanos al grito de guerra
El acero aprestad y el bridón,
Y retiemble en su centro la tierra
Al sonoro rugir del cañón.

O que dizer de Andorra, que é um dos menores países do mundo, porém com a maior expectativa de vida do planeta – 83,52 anos -, bradando contra seus incautos desertores?

Empenhemos nossa palavra de honra
Lutar por nossa salvação
E só um traidor nato
desiste da luta

No Chile, é a bandeira que conclama ao sacrifício:

con tu nombre sabremos vencer
o tu noble, glorioso estandarte
nos verá combatiendo, caer.

E o nosso querido Portugal?

Às armas! Às armas!
Pela Pátria lutar!
Contra os canhões marchar, marchar!

No caso do Canadá, a referência aparece de forma mais velada, mas ainda assim se faz presente:

O Canada, we
stand on guard
for thee
(Oh Canadá, estamos em guarda por você…)

E pasmem, no hino do Vaticano também aparece a ideia de combate e de luta – mesmo que pela verdade e pelo amor:

Sois o conforto e o refúgio daqueles
que acreditam e lutam,
Força e terror não prevalecerão,
Verdade e amor reinarão

(You are the comfort and the refuge of those / who believe and fight
Force and terror will not prevail, / But truth and love will reign)

Seria, dessa forma, impossível conjugar nacionalismo e pacifismo, ou pelo menos, discurso pacifista? Como deveríamos abordar essa questão numa era que se auto-define como prestes a ultrapassar a meta-narrativa da nação e do patriarcalismo?

Patriarcalismo? Sim, afinal, as imagens recolhidas nesses poucos exemplos fazem ecoar velhos símbolos da testosterona: clava forte, morrer com glória, grito de guerra, canhão, palavra de honra. Como seria a defesa das nações, a partir de uma ótica predominantemente feminina, pós-testosterona ?(1) Existe um hino feminino?

Dos hinos que pude ler, sobressai a delicadeza do japonês: que você (Japão) possa durar mil anos, oito mil anos, – sabemos que o número 8 é símbolo do infinito -, e que possa durar até que o mar transforme em pepita coberta de grama um grande rochedo… (tradução aproximada)

Existe sim, justificativa para propormos um hino de paz para o mundo. As crianças ouviriam esse jingle desde tenra idade, e todos os astros da música mundial seriam envolvidos na propagação dessa onda. Depois de conseguida a paz mundial, aos poucos o hino iria sendo esquecido, cumprindo dessa forma sua nobre missão: afinal, só fala de paz e de sua necessidade quem não a conhece plenamente.

PS-1: os hinos foram consultados através do site abaixo, e em alguns casos a tradução para o português foi feita por mim mesmo (sem muito esmero, apenas para mostrar as ideias contidas no trecho): http://fr-scubabrasil.sites.uol.com.br/bandeiras.htm

Curiosidades:
PS-2: O hino da Espanha não tem letra!

PS-3: Vale a pena conferir a obra Dona nobis Pacem – A Hymn for World Peace de David Fanshawe, para soprano, coro infantil, coro e orquestra, a partir de comissionamento feito por Nicholas Oppenheimer em 1994, diretor da De Beers Diamond, na África do Sul.

(1) Nem sempre a relação entre guerra e falicismo convence. Minha amiga, a escritora Cleise Mendes, observou ‘en passant’ que as mulheres também podem ser mui guerreiras e aguerridas. Registramos esse reparo.

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março 16, 2009

O resto é mar: o tom de Jobim

Paulo Costa Lima
De Salvador (BA)

A canção é toda cheia de onda, e o seu autor-personagem não deixa por menos. Na versão em inglês adverte(2): Don’t try to fight the rising sea (não tente lutar contra o mar que se ergue). Está aí, de próprio punho, uma declaração sobre o umbigo temático da obra, que, não por acaso, leva o nome de Wave (onda) – uma das canções brasileiras mais cantadas em todo o mundo.

1

A figura acima mostra o primeiro gesto. A marolinha do ‘vou te contar’ e a onda inexorável, se erguendo logo após. Basta cantar esse início para perceber que, na canção, o gesto de onda é tão fundamental quanto o amor. Ou melhor, que o amor, a onda, o mar, brisa, cais, noite, estrelas, cidade, eternidade, indizível, tudo isso se mistura e se aproxima nesse verdadeiro hino… Pois é, essa é palavra que me ocorre – hino. Mas que espécie de hino seria Wave?

Não resta dúvida que é uma canção emblemática, mas como gênero é o avesso dos hinos. A distância heráldica, heróica, histórica que o hino constrói, aqui de nada serve. A canção-onda trata de proximidade, de envolvimento, e de mansinho, como a brisa que diz – ‘é impossível ser feliz sozinho’ (sic).

Veja, por exemplo, a marolinha do início – ‘vou te contar’. Gesto mínimo de significação máxima. Cria um laço todo especial com quem ouve. Só se fala isso na intimidade de uma roda, que é também a intimidade de uma comunidade lingüística – carioca, brasileira. Bem ao gosto da bossa-nova, a canção nos define a partir de uma perspectiva anti-heráldica, coloquial, como se a roda de amigos fosse o próprio País. A força do seu vínculo. E não é?

E vejam que sutileza bacana: as palavras do verso veiculam um ritmo de samba, que tem a ver com a alternância entre as consoantes (t,k,t), como se aí entrasse um chocalho ou coisa parecida – aliás, do mesmo jeito que o famoso ancestral ‘qual é o pente que te penteia’, esse aí, já uma verdadeira batucada.

Como técnica de composição, esse Jobim maduro nos coloca diante de um amálgama – gestos textuais e outros gestos sonoros, idéias de texto e idéias de som que se interpenetram para configurar o todo-onda que deságua sobre a gente. Tudo isso num ambiente de miniatura, onde muitas vezes a sugestão da idéia é bem mais eficaz do que sua explicitação.

Aliás, na arte de fazer letra, o não dizer é tão importante quanto o dizer – às vezes, mais. De repente prevalece a imagem. Por exemplo, quem é que não se pega contemplando o céu noturno quando a canção fala em ‘estrelas que esquecemos de contar’? Ou visualizando um cais, a onda que se ergueu no mar, e até mesmo a eternidade, que obviamente é impossível de visualizar, mas a canção tenta(3) – faz parte do seu charme…

Então voltando, os três primeiros segundos da canção (‘vou te contar’) trazem em si as sementes de todo o resto – algo que é um princípio de coerência do compor, e reúne: o formato de onda, a proximidade que envolve, a malemolência de seu gingado rítmico, a imbricação dos textos musical e poético, e uma harmonia que flutua (Ré Maior com sétima maior e nona), que paira suspensa – da qual trataremos logo adiante.

Existem vários exemplos na literatura de canções que transformam o mar em metáfora. Caymmi deixou pelo menos duas pérolas desse tipo – ‘O Mar’ e ‘É doce morrer no mar’. Ambas trabalham com gestos musicais que absorvem características de onda, e cada uma apresenta soluções fascinantes. Há também canções folclóricas como ‘Ondina’: IaIá olha a onda, na ponta de areia(4)

Digo tudo isso para lembrar que Jobim não inventou a roda ou a onda, como metáfora musical. Mas suas escolhas compõem um cenário diverso, todo seu. O mar de Jobim é um mar urbano, bossa-novista, cheio de matizes e de imagens, meio impressionista, lírico, zen, e claramente carioca. Não se apóia, como o de Caymmi, no olhar arquetípico de uma comunidade de pescadores.

Aí está, no exemplo abaixo, uma visão do todo da onda que se fez canção: de ‘vou te contar’ até ‘impossível ser feliz sozinho’.

2

Depois da marola e da subida da onda chegamos ao grupo (3). É um gesto que se equilibra lá em cima da onda, certamente aquelas espumas que a gente sempre vê: ‘coisas que só o coração pode entender’. O grupo (4) começa o processo de descida e de focalização harmônica para o final: ‘fundamental é mesmo o amor’. O acorde de Mi maior faz a diferença, prepara a Dominante. O arremate cabe ao grupo (5) e sua impressionante blue note: ‘é impossível ser feliz sozinho’. A resolução final é um exemplo portentoso de mistura de modos. Já não existe maior e menor, os dois se entrecruzam. O acorde aumentado de Dominante (Lá) antecipa a terça do ré menor.

Por mais impressionante que seja o traçado melódico da canção, vale lembrar que toda a cor de Wave vem do trabalho harmônico. Jobim vive num mundo harmônico que já não é o da tonalidade tradicional. A musicologia cunhou um termo para técnicas semelhantes às que ele usa, e que foram desenvolvidas no final do romantismo europeu: tonalidade ‘suspensa’.

O Ré maior/menor de Wave convence quando chega, sempre no final dessa seqüência. Mas durante a canção parece difícil afirmar que este seja o centro tonal. O autor faz um monte de peripécias harmônicas ameaçando tonicalizar outros acordes – Sol e Si maior – mas logo-logo desliza em seqüências harmônicas sem permitir que estes se afirmem.

Tudo temperado com muitas dissonâncias acrescentadas aos acordes, cromatismo, suspensões, acordes aumentados e por aí vai. Ao sobrepor terças aos acordes mais simples cria-se um estado harmônico mais fluido, com muitas implicações. Essa flutuação harmônica expressiva sustenta o ciclo melódico da onda.

O gráfico acima mostra as duas seqüências internas para Sol e Si (ii V I). E na última linha, mostra que apesar de toda essa complexidade harmônica há uma seqüência de base, que é a mais tradicional de todas – a progressão fundamental. Ou seja, sustentando toda a pseudo-anarquia harmônica o que temos é a tradicional rota de baixos fundamentais visualizada por Rameau em 1726.

O jogo harmônico é parte integral da beleza de Wave e de seus processos de significação. Ele matiza a relação polivalente com o amor e com o existir: estar de olhos fechados, entender o indizível, coisas lindas prá te dar, as estrelas, impossível ser feliz sozinho, a noite que nos envolve.

Reúne num mesmo anseio a intensidade de amar e a intensidade de ser – especialmente do ponto de vista de sua finitude, a sensação de perda no infinito que o amor e o mar proporcionam. Esse é o tom, esse é o hino, ou anti-hino – que não exalta, porém envolve – ‘We know the wave is on its way’.

Muito mais haveria pra dizer, porém fiquemos por aqui: a riqueza do artesanato de compor canções; a possibilidade de diálogo entre visões analíticas formais e semânticas; o estilo sutil de construir pertencimento; um afastamento importante da fórmula analítica do ‘amor, do sorriso e da flor’, usado à exaustão para falar de bossa nova; e a curiosa proximidade entre erudito e popular. O resto é mar.

1. Esse artigo contou com a leitura e comentários de Tuzé de Abreu
2. A versão em inglês é de autoria do próprio Jobim.
3. Em inglês o autor manda fechar os olhos: ‘So close your eyes, for that’s a lovely way to be’.
4. Essa bela canção levou Ernst Widmer a construir uma obra para piano solo de rara sofisticação, as Variações em forma de onda.