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junho 18, 2009

França—Brasil: Allons enfants da pátria amada

A cantora francesa Mireille Mathieu canta "A Marselhesa"

A cantora francesa Mireille Mathieu canta Marseillaise

Paulo Costa Lima

Os textos não são coisas fechadas e autônomas como tantas vezes nos acostumamos a pensar. Eles dialogam entre si, e mesmo já nascem como respostas a outros textos — de antes e de depois! Pasmem! Isso acontece porque idéia não tem casca.

Os países também não. São textos — o que significa que são intertextos. O bode que deu vou te contar (você conhece esse verso?). O fato é que parece perfeitamente possível cantar o primeiro verso do hino francês seguindo com o segundo verso do hino brasileiro, sem tirar a beleza de nenhum dos dois[1], que lá isso eles têm de sobra:

Allons enfant de la patrie / De um povo heróico o brado retumbante…

allons enfants_de um povo heróico

Esse vídeo coloca a Marseillaise em seu devido lugar de ícone cultural de nossa civilização. A cena composta em preto e branco, a presença solene da orquestra (viu a expressividade contida do maestro?), a fonte jorrando, a Torre Eiffel ao fundo, e sobretudo a postura e a voz de Mireille Mathieu, despertam as emoções republicanas mais profundas.

Começo me indagando sobre a importância do corte de cabelo da cantora — uma marca que conserva até os dias de hoje. Chego à conclusão de que aquele cabelo exerce a função exemplar de moldura do rosto e da voz. Potencializa, dessa forma, toda a cena, concentrando sua energia. Encaminha a energia estática da montagem para a performance rasgada dos rrs, para a amplitude dessa boca que se abre em nome da liberdade.

E se o nosso hino se enrosca de alguma forma na Marseillaise (de 1792) temos que colocar na roda o Francisco Manuel da Silva, seu criador — aliás, criador não, não havendo textos autônomos não há autores autônomos, somos todos sinapses ou encruzilhadas (a intertextualidade parece ser coisa de Exu, aquele que abre os caminhos).

Era 1831 e D. Pedro I voltava para a Europa depois de um desenlace doloroso. Francisco Manuel era ativo ‘liberal’ e participou com garra dos dias agitados que precederam a abdicação. Na época, os ideais veiculados pela revolução francesa eram farol e espelho. A melodia que viria a ser o nosso hino foi feita nesse quadrante, para comemorar essa tal libertação. Razões de contexto não faltam para unir os hinos.

Depois de composta e executada em 1831 (provavelmente com outra letra) a música vagou pelo Século XIX, aparecendo em várias ocasiões. Só foi reconhecida formalmente em 1890. Nesta data, já na República, havia até sido instituído um concurso para escolha do Hino Nacional. Mas consta que Deodoro bateu pé firme pela manutenção do antigo [2] . A letra, só surgiu em 1909, composta por Osório Duque Estrada, em clima e estilo totalmente diversos. A Leopoldina virou trem…

A base teórica desse enroscamento melódico entre os dois hinos vem da noção de contorno — que é o perfil de movimento dos gestos musicais:

margens_plácidas

As duas melodias apresentam o mesmo perfil, ou seja, um contorno que sobe uma oitava e desce uma quinta. Além disso, tem anacruses muito iguais (dó-fá). Esse gesto impetuoso de subida lembra o idioma dos clarins, e com ele tudo que representamos como heróico e glorioso.

Então, pela via da intertextualidade, percebemos que também somos França. E que, ao refletirmos tal qual espelho coletivo os, traços culturais de lá emanados, projetamos o intertexto da brasilidade de volta a uma de suas origens — brasilizando-a também um pouco.

Mas quanto aos hinos há um diferencial importante que é o rebuscamento cromático da nossa melodia. Aquele si natural que pirraça o ouvinte até a resolução na nota final — e que Fafá de Belém levou ao extremo em sua versão intimista quando peitou a Campanha das Diretas (1984)—, é uma marca do nosso Hino. Permitiu a convocação de palavras proparoxítonas — margens plácidas — para enfatizar essa idiossincrasia (talvez uma inspiração de Chico, em Construção).

As ligações melódicas cromáticas vão se multiplicando no hino. Os próximos versos convocam as notas fá#, dó#, sol#, (todas estranhas ao seu campo tonal imediato) e agregam outra proparoxítona — raios fúlgidos.

De onde vem esse cromatismo com jeito maneirista? Se tivesse que apontar um caminho, diria que lembram claramente fórmulas de finalização bem caras à ópera italiana — que por sua vez parece ter absorvido esses tais ‘maneirismos’ das finalizações do classicismo vienense (vulgarizando-os só um pouquinho, na medida em que a voz pungente vulgariza o mundo sublime da música instrumental; ou será o contrário?).

Ou seja: Rossini, que era muito ouvido no Rio de janeiro do início do século XIX [3] , absorve do período de Haydn e Mozart as tais finalizações cromáticas que acaba passando para Francisco Manuel. Este, aliás, sempre sonhou estudar na Itália (e D. Pedro I havia prometido enviá-lo pra lá, mas não cumpriu…)

De Rossini e Manuel Francisco a Deodoro e Olavo Bilac (que não havia entrado na história), o que aconteceu com nosso belo Hino não é muito diferente da letra do famoso samba de Stanislaw Ponte Preta (Sergio Porto), onde Chica da Silva obriga a Princesa Leopoldina a se casar com Tiradentes, e este, depois eleito como Pedro Segundo, reúne-se ao Padre Anchieta para proclamar a escravidão.

Oh,Oh,Oh,Oh,Oh,Oh: o trem tá atrasado, ou já passou…
Viva a Intertextualidade!

Leia mais sobre o “Samba do Crioulo Doido” de Sergio Porto. (ele só não inventou a intertextualidade porque o Brasil foi inventado antes)

[1] Dá também para fazer o contrário, começar com o primeiro verso do hino brasileiro e emendar para o segundo do francês: Ouviram do Ipiranga às margens plácidas / Le jours de gloire sont arrivée.

[2] Aquele que ganhou o tal concurso  virou Hino da República.

[3] Cf. Vasco Mariz (2005, p. 67) registrando a encenação de: Il Barbieri di Siviglia, La cenerentola, L’italiana in Algeri, La graza ladra, todas gozando de enorme popularidade.

março 16, 2009

Um hino de paz para o mundo!

papa

No hino do Vaticano também aparece a ideia de combate e de luta.
“Força e terror não prevalecerão, Verdade e amor reinarão”


Paulo Costa Lima

Não estaria o mundo precisando de hinos de paz? Ou pelo menos de um bom hino da paz? Não seria essa uma urgência a ser tratada pela ONU, através da UNESCO? A idealização de um hino que pudesse funcionar em todo o mundo como um verdadeiro jingle de indução emotiva e apelo racional pelas vantagens da paz – sem diluir a ideia de nação e pertencimento. Ao início de cada conflito armado as pessoas se reuniriam nas praças e começariam a cantá-lo até que a paz retornasse…

Pois bem, vejamos:

Os hinos nacionais são experiências sensoriais complexas. Estão diretamente conectados ao sujeito coletivo e suas emoções. O emaranhado de mensagens que estrutura essas vivências culturais é elemento formador do imaginário de cada país, e do mundo. Afinal, os hinos são celebrados regularmente por bilhões de pessoas.

Olhando esses textos com todo respeito que merecem – pelo cabedal de união e solidariedade que proporcionam aos seus povos -, mas também com isenção analítica, ficamos preocupados com uma questão que daí emerge: para haver nação deve haver guerra? Na construção imaginária da pátria as referências bélicas parecem ser ‘condição necessária’.

Um breve percurso pela literatura dos hinos demonstra isso com facilidade. Comecemos por casa. Em nosso belíssimo hino, lá pelas tantas o eu lírico verde e amarelo apregoa:

Mas, se ergues da justiça a clava forte,
Verás que um filho teu não foge à luta,
Nem teme, quem te adora, à própria morte.

É uma construção poética sofisticada e emocionante. Ela reúne o apelo da ética, da justiça e da Mãe. Nessa altura o filho não teme mais nada…

Ora, bem sabemos que cada hino tem seu contexto, seu invólucro de ruptura e de instabilidade, e sua justificativa histórica.

Mas, aparentemente, penhorar a vida dos filhos-cidadãos parece ser uma estratégia absolutamente indispensável, e tem sido uma marca recorrente atravessando latitudes e longitudes.

Perceber isso, hoje, é se dar conta da quantidade de energia que foi necessária para ultrapassar a ordem medieval – e no caso das periferias, mergulhar na ordem colonial.

Mas voltando ao percurso dos hinos, verificamos que com os nossos vizinhos argentinos a marca de nacionalismo e morte surge no finalzinho do texto:

Coronados de gloria vivamos
O juremos com gloria morir.

Enquanto no hino brasileiro o eu lírico se dirige à Mãe Pátria, e os filhos são terceira pessoa, no hino argentino é com a primeira pessoa do plural que se faz o juramento – nós. O pior é que eles jogam com essa garra mesmo. Ninguém tem sossego até os 48 minutos da prorrogação.

Subindo na direção do México percebemos que ao invés da indução emotiva, ou juramento coletivo, o que temos é uma convocação explícita -aliás, como na Marselhesa, que parece ser o umbigo heróico de quase tudo isso:

Mexicanos al grito de guerra
El acero aprestad y el bridón,
Y retiemble en su centro la tierra
Al sonoro rugir del cañón.

O que dizer de Andorra, que é um dos menores países do mundo, porém com a maior expectativa de vida do planeta – 83,52 anos -, bradando contra seus incautos desertores?

Empenhemos nossa palavra de honra
Lutar por nossa salvação
E só um traidor nato
desiste da luta

No Chile, é a bandeira que conclama ao sacrifício:

con tu nombre sabremos vencer
o tu noble, glorioso estandarte
nos verá combatiendo, caer.

E o nosso querido Portugal?

Às armas! Às armas!
Pela Pátria lutar!
Contra os canhões marchar, marchar!

No caso do Canadá, a referência aparece de forma mais velada, mas ainda assim se faz presente:

O Canada, we
stand on guard
for thee
(Oh Canadá, estamos em guarda por você…)

E pasmem, no hino do Vaticano também aparece a ideia de combate e de luta – mesmo que pela verdade e pelo amor:

Sois o conforto e o refúgio daqueles
que acreditam e lutam,
Força e terror não prevalecerão,
Verdade e amor reinarão

(You are the comfort and the refuge of those / who believe and fight
Force and terror will not prevail, / But truth and love will reign)

Seria, dessa forma, impossível conjugar nacionalismo e pacifismo, ou pelo menos, discurso pacifista? Como deveríamos abordar essa questão numa era que se auto-define como prestes a ultrapassar a meta-narrativa da nação e do patriarcalismo?

Patriarcalismo? Sim, afinal, as imagens recolhidas nesses poucos exemplos fazem ecoar velhos símbolos da testosterona: clava forte, morrer com glória, grito de guerra, canhão, palavra de honra. Como seria a defesa das nações, a partir de uma ótica predominantemente feminina, pós-testosterona ?(1) Existe um hino feminino?

Dos hinos que pude ler, sobressai a delicadeza do japonês: que você (Japão) possa durar mil anos, oito mil anos, – sabemos que o número 8 é símbolo do infinito -, e que possa durar até que o mar transforme em pepita coberta de grama um grande rochedo… (tradução aproximada)

Existe sim, justificativa para propormos um hino de paz para o mundo. As crianças ouviriam esse jingle desde tenra idade, e todos os astros da música mundial seriam envolvidos na propagação dessa onda. Depois de conseguida a paz mundial, aos poucos o hino iria sendo esquecido, cumprindo dessa forma sua nobre missão: afinal, só fala de paz e de sua necessidade quem não a conhece plenamente.

PS-1: os hinos foram consultados através do site abaixo, e em alguns casos a tradução para o português foi feita por mim mesmo (sem muito esmero, apenas para mostrar as ideias contidas no trecho): http://fr-scubabrasil.sites.uol.com.br/bandeiras.htm

Curiosidades:
PS-2: O hino da Espanha não tem letra!

PS-3: Vale a pena conferir a obra Dona nobis Pacem – A Hymn for World Peace de David Fanshawe, para soprano, coro infantil, coro e orquestra, a partir de comissionamento feito por Nicholas Oppenheimer em 1994, diretor da De Beers Diamond, na África do Sul.

(1) Nem sempre a relação entre guerra e falicismo convence. Minha amiga, a escritora Cleise Mendes, observou ‘en passant’ que as mulheres também podem ser mui guerreiras e aguerridas. Registramos esse reparo.

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