A UNIVERSIDADE NÃO EXISTE

Disse isso outro dia num encontro com psicanalistas. Queria o efeito da ideia.  E claro, todo o humor de fazer ecoar afirmações de Lacan — ‘A mulher não existe’, ‘A relação sexual não existe’ — denúncias da visão biologizante da sexualidade, sem o inconsciente.

No caso da Universidade, a denúncia é outra: a ideia ingênua de que a universidade é algo igual no mundo inteiro. A rigor, a universidade não existe, existe apenas esta, essa ou aquela, cada uma diferente da outra.

Chamei essa tendência homogeneizadora de ‘força reprodutiva’, lembrando que seria necessário dar espaço para algo diferente, a força interpretativa, a produção de experiência que é mais do que mera repetição, a capacidade de reinvenção de si mesma.

Dada uma universidade, queremos saber que processos culturais ela materializa, como interpreta o tecido de onde surge, a que sintomas sociais responde.

Em lugares como o Brasil, submetidos por séculos ao rígido controle colonial, construir universidades foi (e continua sendo) um desafio de construção de liberdade de pensamento, de construção de capacidade crítica.

Ao longo dos séculos, o compromisso com essa liberdade exigiu autonomia com relação às figuras de autoridade, representantes do domínio colonial. Os que fundaram a nossa independência mental, lançaram as raízes do fazer universidade brasileiro.

Impossível deixar de lembrar do genial Gregório de Mattos e de sua invectiva contra o Governador Antonio de Sousa de Menezes, o Braço de Prata, o mandão ‘baiano’ daqueles tempos:

O rosto de azarcão afogueado  /E em partes mal untado,

Tão cheio o corpanzil de godolhões,/ Que o julguei por um saco de melões…

A palavra godolhões marca a liberdade crítica do poeta — cavalga uma ousadia estrutural, não é mero ornamento barroco. O poeta acabou degredado em Luanda, mas o espaço de liberdade estava inaugurado. Observem como ele vai adiante até a radicalidade mais desarvorada:

Xinga-te o negro, o branco te pragueja,/ E a ti nada te aleija,

E por seu sensabor,e pouca graça / És fábula do lar, riso da praça,

Té que a bala, que o braço te levara,/ Venha segunda vez levar-te a cara.

Mas, como esse espaço de liberdade prenuncia o desafio do conhecimento crítico e da universidade? Ora, desmitificando o poder absoluto desse mandão exacerbado que foi o eixo de estruturação de uma sociedade herdeira das capitanias hereditárias.

Esse gesto é crucial para que toda uma população explorada pelo poder colonial consiga enxergar um outro mundo. Porque, bem sabemos, o mandão colonial (do qual ainda não nos livramos), faz par com a figura do ‘outro degradado’, o elo desumanizado da cadeia produtiva. A tensão entre os dois mantém a sociedade em estado de disciplina.

O que sabe esse ‘outro degradado’? Nada (do ponto vista das elites) — aparece na universidade dos nossos dias como indigente dos hospitais universitários. Paradoxo: o melhor de nossas criações artísticas (mesmo as letradas) vêm muito mais da proximidade com esse magma cultural do que da imitação ou da cópia.

Ao atacar os godolhões do mandão baiano, Gregório coloca em cheque o maior mecanismo de dominação, o laço de identificação criado com a figura do poder, aquilo que Paulo Freire traduziu como o fenômeno de absorção da imagem do opressor pelo oprimido, relendo o Freud da Psicologia das Massas.

Numa sociedade onde a referência simbólica unificadora foi sempre um grande problema (portugueses deslocados, negros escravizados e índios exterminados), e onde a ausência dessa instância civilizadora gerou uma carência tão pronunciada a ponto de estimular uma exaltação doentia da autoridade exacerbada…

Ou seja, projetou no real o ditador como sintoma e solução… tornando muito mais difícil, dessa forma, tanto o trânsito como a democracia…

Pois bem: nesse lugar sintomático, a universidade que surge tem desafios e atributos próprios, traços que a vão constituindo que são necessariamente distintos de uma empreitada semelhante em outro lugar do mundo.

O compromisso da universidade com o pensamento crítico vai necessariamente envolver essa missão interpretativa, e esse distanciamento da mera reprodução, mesmo que habilmente apresentada como qualidade internacional em rankings feitos alhures. Isso, sem prejuízo de sua ligação íntima com o discurso da ciência, ou com a verificabilidade de resultados seja lá onde for.

Portanto, se a universidade herda de Gregório de Mattos a investidura de espaço de liberdade, ao ser criada em pleno século XX, no seio do poder republicano e de suas oligarquias, absorve uma série de traços da própria elite e do seu inexorável impulso de identificação com o espetáculo civilizatório europeu.

Mesmo em projetos revolucionários como a criação de escolas de arte na Universidade da Bahia, na década de 50, o ensino de percussão “esqueceu” completamente da rede de centenas de terreiros de candomblé, verdadeiros centros de excelência da formação percussiva, adotando a técnica germânica das baquetas de tímpano e de caixa clara.

O exemplo se multiplica em dezenas de situações onde contextos riquíssimos em termos de conhecimento (ecologia, botânica, corporealidade, medicina popular,  as artes e sociabilidades) foram ignorados porque exigiriam um outro desenho institucional, perigosamente remoto com relação à eficácia da força reprodutiva das cópias e imitações bem intencionadas.

Alguém já disse que a anatomia é um destino. Vale perguntar se o princípio se aplica à nossa geografia cultural. Como melhor interpretá-la como caminho de transformação e de autonomia?

 

 

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