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março 30, 2011

Notas entre popular e erudito

Confiram a crônica “Notas entre popular e erudito”, de Paulo Costa Lima, que faz uma abordagem sobre a música popular e erudita na cultura brasileira.

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junho 4, 2009

Gago Apaixonado

Paulo Costa Lima

Devo, não nego, uma crônica dedicada a Noel Rosa. Sua presença constante no cenário da música popular reafirma uma condição ímpar. A trajetória de vida não fica atrás: produziu mais de duas centenas de canções num período de sete anos, morrendo antes de completar 27 (1910-1937)— um verdadeiro vulcão. Chico Buarque reconhece que vem de sua lavra uma primeira formatação da canção popular no Brasil.

No entanto, pensar em Noel como patriarca fundador é um tanto estranho porque ele constrói um personagem tão malemolente, irônico, gozador, anárquico — dizem que gostava de escrever versões pornográficas do Hino Nacional — que espécie de pai seria?

É claro que no Brasil a figura do pai anárquico ocupa um lugar importante no imaginário[1]. A falta de coesão social resultou num grande vazio de força simbólica unificadora — fomos Colônia por vários séculos, e reunimos num mesmo território gente de culturas muito distintas. Xangô e Descartes nem sempre se entendem! Então, muitas vezes a liderança precisou ser exercida ao contrário, ao arrepio da sisudez e dos ‘bons costumes’. No contrapelo dos limites.

É o que anuncia há mais de trezentos anos a figura de Gregório de Mattos, em sua recusa de ser porta-voz da oficialidade cultural, religiosa ou política. Traços semelhantes reaparecem em personagens e situações diversas a exemplo de Vadinho de Dona Flor, Macunaíma (herói sem caráter), ou na centralidade do carnaval (festa de alegria e de anarquia), e ainda na figura do malandro.

Ora, Noel está muito ligado ao mundo da boemia e da malandragem carioca do início do século XX. E exerceu sim, diversas vezes, o papel de reverberação de contra-discursos. Um dos mais densos e candentes é o que segue:

Quanto a você / Da aristocracia / Que tem dinheiro / Mas não compra alegria

Há de viver eternamente / Sendo escravo dessa gente / Que cultiva hipocrisia

Gosto de entender a canção ‘Gago Apaixonado’, uma de suas criações mais interessantes, como parte desse cenário. Imperdível conferir a gravação original, feita em 1931. Quase 80 anos depois e ninguém conseguiu chegar perto do frescor de sua originalidade — é samba, chorinho, modinha lírica, e não dispensa trejeitos de New Orleans, tudo no melhor estilo. Mas, sobretudo, lá está a voz e a presença irradiante de Noel.

A inteligência composicional da canção coloca em primeiro plano a situação hilária de um gago, extravasando sua decepção amorosa[2], e olha que os gagos geralmente cantam sem tropeçar. Mas há outras leituras relevantes.

Trata-se de um gago paradigmático. Quem é que alguma vez não se engasgou com a paixão? A paixão faz engasgar, gaguejar, praguejar – e eis que o nosso personagem acaba afirmando que sua ‘amada’ vai ficar corcunda. Nesse sentido, rir do gago é rir da própria condição humana.

Um detalhe importante: a amada não recebe nome. A canção mudaria de perfil se fosse dirigida a uma mulher específica (Rosa, Marina, Rita…) como é tão comum no repertório romântico. Noel deixa o objeto da paixão no seu nível mínimo de personalização: mu–mu–mulher. Prevalece o lado passional, do qual a gagueira faz parte.

A série de rimas que acompanha esse processo é bastante sugestiva: estrago / gago / afago. A palavra ‘estrago’ é um capítulo em si mesmo[3]. O gago fica espremido entre o estrago e o afago. Não espanta que sua voz falhe. Ouve-se na gravação que Noel dá uma entonação toda especial à palavra afago, quase um arrepio, fazendo ainda por cima uma pequena cesura.

Outras séries de sonoridades significativas ampliam o processo. Na série ‘crueldade/da saudade/que maldade’, a repetição gaguejante acentua o ridículo e quase intoxica. Em outra direção surgem sonoridades mais pesadas, quase grosseiras (o estrago está feito): ‘moribundo/vagabundo’ até ‘tu vais ficar corcunda’. Tudo isso torna a palavra ‘afago’ a única recordação doce (embora chorosa) de todo o episódio.

A segunda direção de leitura pode ser vislumbrada a partir de um insight inesperado. As situações constrangedoras para o gago vão se acumulando. A mais pungente é, sem dúvida alguma, o gesto final, onde o pronome ‘tu’ dá origem a uma bravata melódica: tu, tu, tu ,tu, tu ,tu ,tu ,tu, tu tens….

partitura_gago

Qual não é a surpresa quando nos damos conta que esse gesto finalizante evoca uma cadenza de ária de ópera[4]. Ele navega pelos extremos da nota da Dominante (ré4 – ré3), e depois dos cromatismos de praxe, encerra com uma fórmula consagrada para arrancar aplausos das platéias: fi-fi-fin-gi-do.

Uma ária de bravura. O gago está bravo que nem só. Mas, ao mesmo tempo, é um gesto de samba. Sua rítmica chega a lembrar o samba de breque. Estamos em plena interface antropofágica?

Rindo do gago, estamos rindo também do cenário lingüístico onde ele trafega — um romantismo de gosto duvidoso e soluções piegas. Vale lembrar que o personagem de ‘Conversa de botequim’ não precisa de nenhuma moldura parnasiana. Fala em ‘manteiga à beça’, em ‘média requentada’, ou seja, é a linguagem do cotidiano, da vida — aliás, uma bandeira de Noel.

Mas o gago deriva parte de seu humor justamente desse absurdo. Alguém em sua condição, ainda ter que lidar com ‘tu tens’, ‘teu coração me entregaste’, ‘depois de mim tu tomaste’ — é demais para um pobre mortal. O gago acaba ridicularizando essa representação lírica que oblitera a realidade social em favor de ‘uma hipocrisia que escraviza’. Que bálsamo ouvir o gago estropiar a sentimentalidade do ‘co-co-ração’. Nesse sentido, a voz de Noel é modernista.

Por isso, os ritmos que desorganiza para criar o efeito da gagueira podem ser considerados como um experimento de crítica da representação. Como algo ‘original’, que nem os vizinhos ou papagaios conseguiriam reproduzir — tal como disse orgulhoso o próprio Noel a um jornalista.

Seriam, dessa forma, frestas de criação musical. E assim como a crítica da retórica vazia e a defesa da linguagem cotidiana prenunciam a bossa nova, esses ritmos tortos de gago, prenunciam essa incrível mania transformada em excelência e arte por João Gilberto, de imaginar que qualquer coisa pode ser tempo forte.


[1] Sendo a figura do tirano seu contraponto necessário.

[2] Vale lembrar que o compositor checo Bedrich Smetana, coloca no palco um personagem gago, na famosa ‘The Bartered Bride’. Essa ópera foi muito badalada pelo mundo afora, inclusive no Rio de Janeiro.

[3] Lembro aqui de Mariana, nascida no interior da Bahia (Itiuba) e uma grande amiga da minha família. Ela usava essa expressão para fazer referência à ameaça feita por alguma mulher de capar um macho. Eis aí o pano de fundo da palavra ‘estrago’.

[4] Também aparentadas com as cadências da forma Concerto.