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setembro 3, 2009

TERRA

caetano_veloso

Não há cosmonauta, simplesmente porque não há cosmos.
O cosmos é uma noção do espírito
Jacques Lacan

Nós, do século XX, construímos o privilégio de vermos a Terra de longe, e de fora. E ao vê-la assim desgarrada, parece que somos invadidos por uma ternura toda especial, uma ternura azul e branca. Como se a terra fosse um espelho, e o que víssemos fosse ao mesmo tempo um berço e uma lembrança antiga. Uma divindade em órbita, e ao mesmo tempo, o mais recôndito umbigo.

É mesmo uma sensação radical de desgarramento, tal como aquela que nos aparece em sonhos, quando pairamos na beirada do teto, ou quando saltamos e percebemos com grande surpresa que estamos flutuando — tem gente que bate os braços como se fossem asas. Acordar desses sonhos é sempre difícil, ninguém quer…

* A tentativa de preenchê-los com percussão em uma das versões no YouTube, mostra que essa escolha sacrifica a fluidez do efeito planador.

Talvez por isso eles tenham entrado na agenda real das nossas narrativas, desde Ícaro. É preciso voar, dizemos a nós mesmos há séculos e séculos. É preciso ultrapassar essa força que nos prende e nos amarra ao chão. E, certamente um dia, será preciso navegar pelo espaço, abandonar o berçário terra, e reverter apenas ao pó das estrelas. Flutuar é preciso.

Pois, essa me parece a maior força musical da canção Terra, de Caetano Veloso. Mais do que diz, o refrão da canção flutua, ou seja, coloca o ouvinte num certo estado de flutuação melódica (cante aí para lembrar, ou veja no YouTube):

Terra, Terra,
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?

É muito mais fácil sentir que a canção flutua do que explicar como é que ela consegue isso. Na verdade, olhando mais de perto, verifica-se que a sensação não é apenas de flutuar, mas de planar, como se fôssemos descendo até encontrar o chão do último verso, na última sílaba da última palavra — (quem jamais, te esqueceria).

Esse, aliás, um tópico amplo e muito discutido atualmente. A capacidade da música de formar gestos e redes de significado a partir do movimento — ou melhor, das metáforas que esses movimentos oferecem. Um exemplo fácil de acessar na memória musical é o Danúbio Azul de J. Strauss que faz a nave flutuar e orbitar no espaço (no filme 2001…), mostrando que a valsa pode ter implicações siderais — e ninguém havia pensado nisso antes, até então ela servia apenas para rodopiar por aqui mesmo.

No caso de Terra, vários fatores contribuem para esse efeito planador. O mais fácil de mencionar é o tratamento da harmonia. Nessa canção, a Tônica (Dó maior) representa a chegada no chão (jamais esqueceria…), e é guardada a sete chaves, só aparecendo mesmo no final da linha.

A canção apresenta uma espécie de gangorra ao ouvinte. Primeiro uma subida íngreme (onde a harmonia estática utilizada é a Dominante, Sol). Vai recheada de espinhos melódicos (dó# em sol) provenientes da utilização do modo lídio (adiante percebe-se que é lídio-mixolídio). Começa na “cela de uma cadeia” e vai até a visão erótica de alguém que estava “coberta de nuvens”, e funciona como uma preparação e armazenamento da energia que vai ser dissipada logo após, no vôo suave do refrão.

Só depois de atingir o pico é que começa a descida melódica gradual em parceria com um movimento harmônico simples e singular — colocando a Dominante depois da Tônica, e não antes (o resultado é uma Tônica mais instável, que escapole facilmente para o retorno da estática anterior, na Dominante, a ponto do Songbook se confundir, registrando Sol como Tonalidade da peça):
compos
O efeito de planar também depende dos espaços vazios deixados na melodia. Observe como a palavra terra é tratada: a primeira sílaba curta e acentuada, a segunda longuíssima e fraca. Há sempre uma duração longa suavizando a descida (distante, errante, navegante, jamais, esqueceria).

Os movimentos melódicos ou são descendentes (como em terra), ou em forma de arco (por mais distante, o errante navegante), ou seja, apresentam uma subida e uma descida, e são vitais para o controle do movimento geral, que desce de forma gradual, dando idéia de vôo que plana.

Esse traçado composicional tem a complexidade das coisas simples. A idéia da peça extrapola a sonoridade da voz (embora a voz seja tudo) e mesmo a sintaxe dos acordes, para convocar a sonoridade da imagem e do sonho antigo. Mais do que a voz, é o sonho que soa.

Desaprisionado pelas nuvens, esse leão de fogo acede à alegria de ser gente, planando no chão do real não sem uma certa nostalgia, uma nostalgia de navegador português, de Fernando Pessoa, e de São Salvador.

julho 22, 2009

Democracia cultural versus democratização da cultura

cultura

cultura + democracia = educação
educação + democracia = cultura
cultura + educação = democracia

O que vai acontecer com a gente brasileira? Basta olhar para as cidades e constatar o quanto está posto para ser resolvido (ou não) pela democracia. Lembro de Cazuza: Mostra tua cara… Quem é que paga pra gente ficar assim?

Democracia não é coisa fácil. Até parecia, antigamente… Mas veja, ainda não consagramos no coração da sociedade a ética inviolável da ‘coisa pública’.

Democracia não tem fórmula. Precisa ser inventada junto com o caminho. Por exemplo: o que seria democracia na cultura? Que coisas precisariam acontecer para que tal conjugação fosse possível?

A linguagem engana. Não poderia ser ‘conjugação’ — porque essa palavra se refere a duas coisas distintas. Se a cultura fosse uma coisa, e a democracia outra, uma das duas seria caolha, aliás, ambas[1].

É também por isso que a expressão ‘cultura popular’ deixou de fazer sentido (idem para cultura erudita). Ambas veiculam uma idéia de cultura menor do que o todo.

Também não avançaremos muito com a estranha figura da ‘democratização da cultura’ — levando cultura do centro para as periferias — pois ela supõe que a cultura pré-existe com relação ao processo. O modelo esquece que todo mundo pode e deve criar.

A única forma de sair desse imbróglio é falar de democracia cultural — necessariamente uma espécie de amálgama, onde uma coisa personifica a outra. Onde uma coisa vai sendo reconstruída como função da outra. E onde o horizonte buscado é o do cidadão com potencial de criação e fruição crítica.

Na montagem desse amálgama todos os repertórios precisariam estar abertos à flexibilização, não existindo garantia prévia de estabilidade dos repertórios, mas também nenhuma restrição.

A capoeira pode dialogar com a formação de atores? Claro que sim. Por que ainda não desenvolvemos algo revolucionário nessa direção? Da mesma forma: design popular e moda, mestres de percussão do candomblé e música erudita contemporânea, cordel e multimídia… Estamos falando de amálgamas e não de misturas. E obviamente, queremos que tudo isso deságüe na escola.

Mas lembre, há um princípio mestre: para que haja avanços, a gente brasileira precisa aprender a construir autonomia responsável. Essa formulação resume a preocupação com desenvolvimento, distribuição de riqueza e inteligência ambiental. Não há como fugir desse princípio.

Qualquer coisa que chamemos de democracia cultural — e a rigor não precisamos de duas palavras — deverá dialogar com esse horizonte, melhor, de dentro dele. Quais os processos que facilitariam essa caminhada?

Como artistas, somos treinados a fazer perguntas de dentro dos nossos campos. Como desenvolver a música (?), grupos de excelência, cadeia produtiva, novos mercados ou campos teóricos etc. Essas perguntas são importantes, mas elas não definem sozinhas as prioridades. A cultura não pode ser entregue apenas às demandas de cada setor.

Ora, a música não tem problemas, e sim as pessoas. Um problema musical só faz sentido quando há pessoas à sua volta, significando-o. Equivale a dizer que os problemas (musicais, culturais) têm historicidade e peso estratégico (político). Algo está muito errado com os caminhos da especialização radical.

A favela — como parâmetro de referência das zonas onde a nação ainda não se fez presente como deveria — não pode ser parâmetro exclusivo, mas exige que pensemos a cada passo se as soluções propostas a contemplam. Precisa estar incluída nos diagnósticos e soluções.

De Cazuza prá cá houve avanços inegáveis. Temos hoje um número bem maior de líderes e gestores comunitários. Os avanços dependem disso. Mas ser liderança ‘orgânica’ não é mole.

Os líderes enfrentam problemas de muitos tipos: dificuldade de mobilização e sustentabilidade (credibilidade da idéia de mudança e de democracia), violência circundante, apelos de alienações diversas — das proporcionadas pela mídia global aos caminhos populistas ou simplesmente corruptos, e por aí vai.

De alguma forma, nessa mesinha colocada no meio do barracão — onde logo mais acontecerá a reunião da associação cultural unidos do jardim esperança — está também colocado o destino da gente brasileira

Mais do que pungente, o desafio envolve conectar mundos aparentemente isolados (e esse isolamento esplêndido é o nome de nossa tragédia) — as decisões ‘culturais’ da grande mídia, dos produtores e celebridades, as decisões culturais das universidades, as políticas de governo — e, principalmente, pairando sobre tudo isso, a construção de um processo político virtuoso.

Ah! Que junção extremosa entre essas duas palavras: virtude e política. Então é dessa magnitude que se tratava o tempo todo?! Muito mais amplo que ‘políticas públicas’ de cultura — cuja flexão republicana nos últimos anos tem dado tanto rebu — imagine pegar o touro completo pelos chifres?

Alguns respondem com aquela famosa chave de ouro: educação.  Está certo, mas remete a médios e longos prazos. Eu queria uma solução pra ontem, ou pelo menos, pra já…

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[1] Mas a dicotomia entre cultura ‘de baixo’ (dos populares, ou de raiz) e cultura ‘de cima’ (de alguma elite) reverbera no mundo da palavra cultura há vários séculos.