Archive for junho, 2011

junho 18, 2011

The Brazilian Musical Libido (1996)

Carnaval is central to brazilian culture, not only the party, the festival, but the perspective, the logics of elaboration and presentation of compositional ideas, the flexibilization of limits. Brazilian culture was post-modern before modernism? How come?

junho 18, 2011

Brasil, um lugar de fala!

Você já leu a Interpretação dos Sonhos, de Freud? Lá dentro tem um relato sobre o ‘Sonho de Irma’. Se não me falha a memória trata-se de um sonho com sua cunhada. Pois é, há uma injeção no sonho, e uma garganta exposta, com pintas de possível inflamação, e é o Dr. Freud que aplica a injeção. Então, conteúdo sexual latente em família não é coisa nova quando Nelson Rodrigues afirma que “todo homem merece uma noite com a cunhada”.

De um lado o ímpeto germânico de entender e classificar tudo, de revelar o sentido dos sonhos, a ciência dos sonhos. Do outro, uma refinada esculhambação que celebra uma curiosa flexibilidade de limites – é flexibilidade ou é estupro mesmo?

Eu continuo preferindo falar em flexibilidade, mesmo de forma irônica. Vale observar que Nelson Rodrigues não recomenda comer a cunhada todos os dias – apenas uma noite. E que escolha preciosa da palavra ‘merece’. Fico pensando que espécie de merecimento é esse… Quantos sentidos essa formulação acumula?

É bem verdade que a noção de ‘identidade cultural’ acabou pagando um preço pela super exposição e quase banalização depois de Stuart Hall, na década de 90. Mas não os fenômenos que recobria, e recobre. No caso, a plasmação de uma perspectiva cultural que atua sobre todos, e em especial sobre a criação. Talvez, algo que seja melhor entendido como um lugar-de-fala do que como um estilo.

Nem sempre nos damos conta de que a irreverência de um Machado de Assis autorizando o protagonismo de um morto – o nosso estimado Quincas Borba, para quem a tumba foi um novo berço -, segue por linhas semelhantes. Habitamos um lugar-de-fala desconstrutivo, galhofento, ávido por afirmar que a ordem simbólica dos centros do mundo aqui não vale, ou simplesmente não existe.

O escritor Machado de Assis (foto: Divulgação)

Ora, as principais queixas (sintéticas) recentes sobre o modernismo são:

a) seu ascetismo e autoritarismo – sempre centrado na crítica da representação;
b) sua teleologia estética, sempre pescando o mais novo como ideal de sentido;
c) seu minimalismo típico ou ‘economia de meios’;
d) o culto do gênio ou do visionário – e a valorização dos repertórios canônicos;
e) as exigências não-prazerosas feitas à audiência.

Um jogo divertido é ver como cada uma dessas linhas de síntese encontra (ou não) refração na produção brasileira. Se por um lado celebramos um gênio como Villa-Lobos, por outro, dificilmente poderíamos classificá-lo como rigidamente ancorado numa teleologia estética, ou apontar com facilidade seu lado minimalista; ou mesmo representá-lo como visionário (no sentido dado à palavra pelo povo do norte). E muito menos essa história de ceder às exigências não-prazerosas com relação à audiência…

Avançando algumas décadas, vamos nos ver em plena execução da obra ‘Santos Football Music’ de Gilberto Mendes. A obra apaga os limites entre a música de vanguarda (anos 60/70) e o futebol brasileiro. A sala de concerto vira campo de futebol, com torcida, charanga, gritos, vaias, mas também uma série de sonoridades típicas das texturas modernas – glissandi, clusters etc. Minimalismo, nunca. Ascetismo, nem pensar. Teleologia: até sim, mas muito transformada pela hibridação. Afinal, como entender nosso modernismo?

Há uma noção cultivada pela psicanálise da cultura, que pensa o Brasil a partir da dificuldade de implementação de uma ordem simbólica unificada em torno de uma referência paterna estável. Todos os agrupamentos humanos que construíram o Brasil tiveram que lidar com um afastamento radical de sua ordem simbólica de origem. Os índios pelo simples extermínio, os negros pela escravização, mas também os portugueses, assumindo uma posição completamente distinta daquela da Metrópole.

Muitas coisas no Brasil seriam conseqüência dessa frouxura de laço com a dimensão da Lei simbólica, da ordem, do respeito às regras, da articulação social – e também pelo lado da cultura, a celebração da flexibilização dos limites, dos repertórios, o tal lugar-de-fala do qual falamos.

Ocorre que com a emergência daquilo que vem sendo chamado de pós-modernismo, no âmbito do processo de globalização e capitalismo cultural, tudo que se vê é derretimento de limites, evaporação de narrativas mestras, prazer imediatista etc… Os psicanalistas chamam isso de queda da função simbólica do Pai.

Mas nós, que sempre tivemos essa função comprometida pelo caos e violência da colonização, vivemos agora (e sempre) um paradoxo todo especial: fomos pós-modernos mesmo antes do modernismo. Como é que pode??????

junho 17, 2011

Escola profissão cultura

Se as escolas são uma floresta amazônica que nos cabe preservar e potencializar, e são, então aquelas árvores frondosas, as maiores, as que cobrem metade do céu com sua folhagem verdejante são os valores.

Uma ecologia da educação coloca em pauta a questão da sustentabilidade do ensino/aprendizagem. Sustentabilidade do desenvolvimento de identidades. Estratégias viáveis e necessárias para que o nosso futuro não seja o de jovens aprendizes da repetição conveniente, como tantas vezes parece o caso.

A escola necessária (ecoando Darcy) é a escola dos valores, e por essa via, uma escola de cultura – grandes sinapses mediadoras dos fluxos de informação provenientes dos próprios alunos, da família, comunidade e mídia. Todavia, a consciência da centralidade do papel cultural das escolas não é a norma. Prevalece a visão mais tradicional da transferência de conteúdos e habilidades.

O que significa para uma escola se conceber como equipamento cultural voltado para a transformação de alunos e sociedade? Significa primeiramente dar atenção e espaço aos modos de vida que a constituem – com ênfase no entorno. Os alunos não são simplesmente ‘unidades de carbono’ em busca de instrução. Aliás, como pode existir qualquer eficácia de desempenho sem a matriz desejante que a embase?

E por onde vai se ensinar desejo e valores, coisas absolutamente não ensináveis como conteúdos, se não for através da descoberta das fontes internas, dos discursos considerados legítimos pelos envolvidos, ou seja, através da legitimidade da própria criação de conteúdos?

Vale aqui a máxima de Feyerabend – “é preciso imunizar as pessoas contra todas as formas sistemáticas de educação” -, em outras palavras, educar e criar são a mesma coisa. Isso significa que não existem conteúdos soltos, que se justifiquem por si mesmos – o ‘x’ da questão sendo a relação que o aprendiz constrói com os conteúdos, educação aberta à criação e construção de identidades.

Há poucos anos a Escola Municipal Primeiro de Maio (Massaranduba-Salvador) recebeu uma distinção nacional por desempenho – Aprova Brasil. Uma análise mais detida mostra que a escola trabalha o tempo todo com a história de vida das famílias e da comunidade. Os conteúdos são produzidos a partir dessa espinha dorsal que reúne pais, filhos, professores e funcionários em torno de atividades conjuntas. Querem uma definição melhor do que seja currículo e transversalidade?

Na escola que se estabelece como centro cultural há de haver programas temáticos capazes de seduzir quem aprende ou ensina. Há de se preservar o direito de acesso ao patrimônio cultural da humanidade, a formação de grupos culturais, clubes de ciência, presença na internet…

“Há de haver pelo menos por ali, os pássaros que nós idealizamos” (J. de Lima). Em suma: raízes, troncos, conteúdos criados e recriados, folhagem densa de valores, e lá em cima esses meninos-pássaros cantando um futuro de ousadia e libertação.