Posts tagged ‘cultura’

novembro 22, 2011

A influência da África nas músicas brasileiras


Heitor Villa-Lobos: “Os ciclos de repetição estão presentes em criações da música letrada vindas de Villa-Lobos”(Foto: Reprodução)

 

1. Mais do que um tema é um painel de coisas – um caleidoscópio de encontros e desencontros, de pequenas e grandes colisões – é como se, no plano do imaginário, víssemos duas, ou melhor, três galáxias se fundindo (européia, africana e indígena, essa última aí dando nome a todas as coisas do território, por exemplo as pedras, de Itaparica a Itatibaia…).

Portanto, três perspectivas, e nesse processo de fusão – que não é fusão no sentido de uma derreter na outra, e sim de administrar as tensões pela ocupação do mesmo espaço – a gradual emergência de algo distinto, talvez uma espécie de síntese que o discurso sobre o nacional busca captar de forma sistemática a partir do século XIX.

2.Acho importante colocar de saída essa visão das galáxias e o desafio de acomodação dos empuxos gravitacionais – Xangô, El Rei e caboclos disputando espaços e força simbólica, digamos assim – para desmistificar o discurso da ‘influência sobre’. Esse discurso só é legítimo quando se refere a um processo onde algo externo atua sobre um determinado objeto. Mas, como sabemos, a presença cultural africana nos constituiu como sociedade, não é algo externo.

3. Isso nos leva de imediato à questão do poder – que na imagem das galáxias, diga-se de passagem, fica um pouco escamoteado. Ora, uma das galáxias tinha o poder, era o poder – numa situação de escravização dos negros e mesmo eliminação das sociedades indígenas. Isso vai definir muita coisa.

Todo discurso de empoderamento, de atribuição de prestígio, de valoração cultural vai estar inicialmente (e até os nossos dias) impregnado das marcas do espetáculo civilizatório europeu. A história de nossa cultura letrada fornece profusão de exemplos.

4. Mas, por outro lado, todas as iniciativas de representação do coletivo, da construção de pertencimento no âmbito dessa sociedade vão necessariamente esbarrar com a galáxia africana – seu imaginário e construções simbólicas. A África civilizou o Brasil pela ética e pela estética, nos lembrava Gérard Béhague.

Ora, a organização desse lugar periférico chamado Brasil exigiu doses cavalares de poder absoluto. Ser periferia significou para nós uma incompletude radical, o desejo projetado para fora, focado na satisfação desse Outro europeu.

Paradoxalmente, esse estado de alienação também vai reforçar o pólo ético da lógica do coletivo – a percepção de que não poderia haver construção ética sem o somatório de interesses dos de baixo (esse ainda o grande tema da nossa vida política).

5. E é a partir dessa moldura, de todo esse contexto, que a herança musical africana precisa ser entendida. Tomemos, por exemplo, como ponto de partida, o traço da comunalidade. A comunalidade do passado mítico na África, mas também a comunalidade da resistência, dos modos de vida desenvolvidos no Brasil, em grotões, periferias, guetos e quilombos.

A comunalidade adquire muitos sentidos entre nós – mas obviamente queremos citar de saída a questão do ritmo.

6. Ritmo é algo muito mais abrangente do que batidas, toques, e padrões, envolve o todo da música. Envolve, na verdade, aquilo que passou a ser denominado de construção de temporalidade, como se as músicas fossem arquiteturas de tempo (que na verdade são).

As construções rítmicas de origem africana guardam o traço da comunalidade, especialmente através de estratégias de repetição. São músicas que tratam com grande refinamento a possibilidade de repetição. Isso significa acionar um mundo de possibilidades de acentuação, de simetria e de assimetria, de pergunta e de resposta (texturas, portanto), fazendo pouco daqueles que pensam apenas em tempos fortes e fracos, em semínimas e colcheias.

O grande pesquisador Nketia, quando esteve na Bahia, disse que ao chegar em Londres aos 18 anos de idade, teve uma decepção fortíssima ao deparar com uma civilização que batia palmas de forma tão ridícula cantando Happy Birthday to You. Na realidade comunal de onde vinha, a civilização rítmica era outra… a capacidade de compatilhar estruturas de tempo, de trabalhar de forma colaborativa

7. Ora, os ciclos de repetição estão presentes nos grandes gêneros afro-brasileiros – no samba e samba-de-roda, na música de capoeira, no frevo, no chorinho, maracatu, forró, bossa-nova, lambada, samba-reggae -, mas também em criações da música letrada vindas de Villa-Lobos, de Ernesto Nazareth, de José Siqueira, Radames Gnatalli, Guerra-Peixe, Lindembergue Cardoso, deste que aqui escreve (entre muitos outros).

8. A adoção dessa perspectiva – comunalidade e repetição – acaba favorecendo aquilo que pode ser chamado de não-linearidade rítmica. A linearidade implica em construções marcadas por objetivos que conduzem o discurso musical até determinados pontos. Aponta na direção da chegada naqueles pontos.

A não-linearidade, claramente demonstrável pela simples execução de um padrão do candomblé, faz com que a música flutue sem objetivos finalizantes claramente definidos. É possível ouvir esses padrões por longo espaço de tempo sem cansar, e sem necessidade de conclusão.

Ora, a música do Ocidente desenvolveu de forma obsessiva qualidades de temporalidade linear, especialmente através do uso da harmonia, direcionando a atenção para os pontos de chegada. Muitas músicas brasileiras cultivam, dessa forma, uma ambiguidade curiosa entre esses dois mundos.

9. Esse caminho de elaboração musical (comunalidade e repetição) tem uma série de outras consequências, por exemplo, a própria noção de coerência – de construção de coerência e de lógica musicais. A coerência gerada pelas músicas de repetição exige atenção diferenciada da parte de seus ouvintes, que passam a ser muito críticos com relação a qualquer leseira ou marasmo rítmicos. É de se imaginar que fiquem menos sensíveis e exigentes com relação a outros parâmetros (será?)

10. Há também consequências importantes para o raio de sentimentos e emoções incentivadas por tais estratégias de criação musical. Mais ainda: a convocação do corpo como parte integrante do espetáculo. Num palco italiano, incentiva-se uma separação bem mais radical entre quem assiste e quem protagoniza.

No âmbito da comunalidade há um convite amplo e irrestrito para o protagonismo, é como se todos estivessem envolvidos na feitura do produto, mesmo quando apenas ouvem, batem palmas ou sacolejam.

11. Isso desemboca em aspectos de celebração coletiva desencadeados pela comunalidade – e abre uma série de outros aspectos, mas fica para outra vez.

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março 30, 2011

Notas entre popular e erudito

Confiram a crônica “Notas entre popular e erudito”, de Paulo Costa Lima, que faz uma abordagem sobre a música popular e erudita na cultura brasileira.

fevereiro 18, 2011

Você conhece o livro mais recente de Paulo Costa Lima?

 

A publicação é da Editora da Universidade Federal da Bahia (EdUFBa), lançado em 2010 durante o Lançamento Coletivo da EdUFBa, na Reitoria da UFBa.

Composição é mais do que música? Mais do que simplesmente aquilo que se ouve? Ou a música é quem engloba tudo, inclusive as vicissitudes de sua criação? Música e composição vão além daquilo que soa, e vibram na direção do que se pensa, do que se imagina e do que se fala. Envolvem, portanto, um mais-ouvir, surgindo daí o compromisso com o imaginário e a responsabilidade com o discurso.

As crônicas e ensaios apresentados em Música popular e adjacências surgiram dessa consciência, e especialmente da teimosia na combinação de traços e temas aparentemente opostos – leveza e incursão analítica, popular e erudito, formalismo e referencialismo, o cotidiano e o susto. Dessa forma, celebra uma abertura de diálogo com um novo público, encontrando agora uma moldura em livro.

Em foco, de forma especial, algumas canções brasileiras, buscando identificar caminhos e processos de construção composicional, mostrando que o terreno é fértil, e menos visitado do que deveria ser, especialmente agora que a complexidade das hierarquias não mais precisa das fronteiras de ontem, e nem mesmo de fixar receitas de complexidade.

Você pode adquirir o livro Música Popular e adjacências… na livraria Cultura.


julho 22, 2009

Democracia cultural versus democratização da cultura

cultura

cultura + democracia = educação
educação + democracia = cultura
cultura + educação = democracia

O que vai acontecer com a gente brasileira? Basta olhar para as cidades e constatar o quanto está posto para ser resolvido (ou não) pela democracia. Lembro de Cazuza: Mostra tua cara… Quem é que paga pra gente ficar assim?

Democracia não é coisa fácil. Até parecia, antigamente… Mas veja, ainda não consagramos no coração da sociedade a ética inviolável da ‘coisa pública’.

Democracia não tem fórmula. Precisa ser inventada junto com o caminho. Por exemplo: o que seria democracia na cultura? Que coisas precisariam acontecer para que tal conjugação fosse possível?

A linguagem engana. Não poderia ser ‘conjugação’ — porque essa palavra se refere a duas coisas distintas. Se a cultura fosse uma coisa, e a democracia outra, uma das duas seria caolha, aliás, ambas[1].

É também por isso que a expressão ‘cultura popular’ deixou de fazer sentido (idem para cultura erudita). Ambas veiculam uma idéia de cultura menor do que o todo.

Também não avançaremos muito com a estranha figura da ‘democratização da cultura’ — levando cultura do centro para as periferias — pois ela supõe que a cultura pré-existe com relação ao processo. O modelo esquece que todo mundo pode e deve criar.

A única forma de sair desse imbróglio é falar de democracia cultural — necessariamente uma espécie de amálgama, onde uma coisa personifica a outra. Onde uma coisa vai sendo reconstruída como função da outra. E onde o horizonte buscado é o do cidadão com potencial de criação e fruição crítica.

Na montagem desse amálgama todos os repertórios precisariam estar abertos à flexibilização, não existindo garantia prévia de estabilidade dos repertórios, mas também nenhuma restrição.

A capoeira pode dialogar com a formação de atores? Claro que sim. Por que ainda não desenvolvemos algo revolucionário nessa direção? Da mesma forma: design popular e moda, mestres de percussão do candomblé e música erudita contemporânea, cordel e multimídia… Estamos falando de amálgamas e não de misturas. E obviamente, queremos que tudo isso deságüe na escola.

Mas lembre, há um princípio mestre: para que haja avanços, a gente brasileira precisa aprender a construir autonomia responsável. Essa formulação resume a preocupação com desenvolvimento, distribuição de riqueza e inteligência ambiental. Não há como fugir desse princípio.

Qualquer coisa que chamemos de democracia cultural — e a rigor não precisamos de duas palavras — deverá dialogar com esse horizonte, melhor, de dentro dele. Quais os processos que facilitariam essa caminhada?

Como artistas, somos treinados a fazer perguntas de dentro dos nossos campos. Como desenvolver a música (?), grupos de excelência, cadeia produtiva, novos mercados ou campos teóricos etc. Essas perguntas são importantes, mas elas não definem sozinhas as prioridades. A cultura não pode ser entregue apenas às demandas de cada setor.

Ora, a música não tem problemas, e sim as pessoas. Um problema musical só faz sentido quando há pessoas à sua volta, significando-o. Equivale a dizer que os problemas (musicais, culturais) têm historicidade e peso estratégico (político). Algo está muito errado com os caminhos da especialização radical.

A favela — como parâmetro de referência das zonas onde a nação ainda não se fez presente como deveria — não pode ser parâmetro exclusivo, mas exige que pensemos a cada passo se as soluções propostas a contemplam. Precisa estar incluída nos diagnósticos e soluções.

De Cazuza prá cá houve avanços inegáveis. Temos hoje um número bem maior de líderes e gestores comunitários. Os avanços dependem disso. Mas ser liderança ‘orgânica’ não é mole.

Os líderes enfrentam problemas de muitos tipos: dificuldade de mobilização e sustentabilidade (credibilidade da idéia de mudança e de democracia), violência circundante, apelos de alienações diversas — das proporcionadas pela mídia global aos caminhos populistas ou simplesmente corruptos, e por aí vai.

De alguma forma, nessa mesinha colocada no meio do barracão — onde logo mais acontecerá a reunião da associação cultural unidos do jardim esperança — está também colocado o destino da gente brasileira

Mais do que pungente, o desafio envolve conectar mundos aparentemente isolados (e esse isolamento esplêndido é o nome de nossa tragédia) — as decisões ‘culturais’ da grande mídia, dos produtores e celebridades, as decisões culturais das universidades, as políticas de governo — e, principalmente, pairando sobre tudo isso, a construção de um processo político virtuoso.

Ah! Que junção extremosa entre essas duas palavras: virtude e política. Então é dessa magnitude que se tratava o tempo todo?! Muito mais amplo que ‘políticas públicas’ de cultura — cuja flexão republicana nos últimos anos tem dado tanto rebu — imagine pegar o touro completo pelos chifres?

Alguns respondem com aquela famosa chave de ouro: educação.  Está certo, mas remete a médios e longos prazos. Eu queria uma solução pra ontem, ou pelo menos, pra já…

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[1] Mas a dicotomia entre cultura ‘de baixo’ (dos populares, ou de raiz) e cultura ‘de cima’ (de alguma elite) reverbera no mundo da palavra cultura há vários séculos.