Archive for maio, 2011

maio 29, 2011

Convite

O professor Paulo Costa Lima repercute em seu blog o convite para a solenidade de instalação da Academia de Ciências da Bahia, dia 01/06, às 18h, oportunidade na qual tomará posse como membro fundador, juntamente com os Professores Jamary Oliveira e Manuel Veiga (na área de música) e outros ilustres representantes da pesquisa em nosso Estado.
maio 26, 2011

Caso de orquestra: um espirro em Mozart

Poucas aberturas tem idéias melódicas tão felizes e vibrantes como ‘As Bodas de Figaro’ de Mozart. Agilidade e simetria apresentadas por um desenho que todas as cordas executam em semicolcheias, ornamentando o acorde a tonalidade da obra: Ré Maior. Tudo com uma lógica de discurso impecável – não dá para tirar uma nota, parece Caymmi.

De repente, um espirro. Isso mesmo, uma fatalidade, alguém espirrou bem na hora da breve pausa entre uma frase e outra. Os músicos, mesmo ocupados em executar dedilhados e arcadas precisas, se entreolharam para descobrir de onde havia partido o ruído intruso.

Vinha do lado dos segundos violinos, aquela seção que fica à esquerda do spalla, o violino principal, e ao mirar o maestro com o canto do olho – arte que define um bom músico de orquestra -, todos perceberam que as bochechas tremelicantes do famoso regente estavam mais tremelicantes que nunca.

Poderia aqui abrir parênteses para instituir um concurso de adivinhação – qual o maestro brasileiro de bochechas mais tremelicantes? – e teríamos que discutir e entender a função e os diversos tipos de estertores expressivos dos titulares da batuta, que vão desde os meneios de cabeça, os ricolchetes de cabeleira, os tremeliques de braço, até certas coreografias pouco ortodoxas de pança e quadris.

Os próprios músicos, que em geral amam e odeiam seus maestros, lembram que nos ensaios diários, a ocorrências dos tais tremeliques chega praticamente a zero. Pra que servem então, são apenas jogo de cena? Outros, por sua vez, reconhecem que durante a performance a música invade o maestro, e seu corpo simplesmente responde ao enfrentamento, para encantamento de todos.

De acordo com Herbert Brün, um saudoso provocador de pensamentos sobre música, a regência ideal seria quase invisível, deixando ao ouvido a possibilidade de se surpreender com as mudanças de intensidade e andamento. Do jeito que os maestros abrem os braços uma fração de segundo antes do evento sonoro, a platéia acaba sendo avisada ‘visualmente’ do que vai ocorrer na peça. Lamentável, dizia ele.

Quem, todavia, vai conseguir levar o maestro a desistir de ser uma celebridade visual que se emociona com a música?

Mas voltando ao espirro, havia uma boa razão para aqueles tremeliques de bochecha do maestro. Do alto do pódio, podia ver com clareza, assim como o público, que não se tratava apenas de uma simples ocorrência. Junto com o espirro, num mesmo jato, havia pulado uma vistosa dentadura, que agora brilhava vermelha e molhada no solo sagrado da sala de concerto, para desespero de todos – maestro, músicos e público.

Agora que a abertura desviava para tonalidades próximas num esboço de desenvolvimento, mesclando menor e maior com toda a graça mozartiana, a dentadura se oferecia como espetáculo alternativo, ou como releitura pós-moderna, para a curiosidade das primeiras filas, que já cochichavam aqui e ali sobre o desconserto.

Mas quem era o espirrante? Como já dissemos era um bravo membro do naipe dos segundos violinos, ‘Gato’, como era carinhosamente chamado pelos amigos Florisvaldo e Vivaldo Conceição. Gato tinha essa mania de espirrar com espalhafato, abrindo braços e pernas para aumentar o efeito. Sem pensar, fez isso no meio do concerto, e deu no que deu. O constrangimento crescia a cada compasso.

Imagine como deve ser difícil para um maestro se concentrar na interpretação de Mozart tendo uma dentadura vermelha e vistosa bem perto do pódio, a desafiar suas escolhas de fraseado. Gato fez de conta que nada havia acontecido, continuou tocando seu violino e parecendo o mais inocente dos mortais.

Como essa estratégia aparentemente não estava dando certo, já que os olhares se intensificaram em sua direção, o violinista mudou de rumo, e lá pelo meio da peça desembainhou o arco e foi esticando-o no chão para ver se conseguia puxar a dentadura de volta, para perto de si.

Depois de algumas tentativas, acompanhadas com espanto por todos, a ponta do arco conseguiu puxar a dentadura escandalosa. Ela foi inicialmente arrastada pelo chão da sala, e quando estava bem perto de sua cadeira, entre acordes e golpes de arco da vizinhança, foi fisgada pela ponta do arco. Rápido como quem rouba, Gato pegou a dentadura com a mão esquerda (o violino ficara no colo) e colocou sem cerimônia em seu lugar de origem.

Foi uma mistura de escândalo e de alívio geral. A situação havia sido resolvida, deixando espaço para que músicos, maestro e ouvintes curtissem adequadamente o que sobrou das Bodas de Figaro. Salvo enganos e ‘meras coincidências’, tudo isso aconteceu de verdade na Cidade da Bahia, aí por meados do século passado.

maio 20, 2011

Caminhos da análise musical II

O universo da teoria da música vem se expandindo nas últimas décadas. Onde vai parar? Acompanhe com Paulo Costa Lima nessa vídeo-conversa o mapeamento das principais áreas…



Creio que merece atenção especial o processo de diversificação um tanto vertiginosa dos enfoques — tipos de discurso — em teoria da música e análise musical.

De um passado relativamente recente, onde havia uma certa estabilidade e hierarquia, com poucos enfoques ocupando a cena principal, estamos migrando para um campo de grande diversificação, com aspectos e perspectivas inovadores agrupando pesquisadores em torno de si.

Para a formação em música (pós-graduação) essa situação traz desafios novos. Por exemplo: o impulso de especialização em geral exige um mergulho demorado num determinado contexto até que o estudante-pesquisador possa chegar ao lugar onde se está produzindo coisas novas. Esse impulso na direção do específico acaba se associando à dificuldade de acompanhar a proliferação de discursos e métodos. Produz um efeito de cegueira muito especial.

Ora, não acredito em especialização sem visão do todo. Acho que é engodo. Mas até quando será possível defender uma visão do todo? Por isso, me distraio colecionando essas ‘janelas’ ou ‘horizontes temáticos’ que são basicamente anotações para lembrar a mim e meus alunos direções importantes de seguir.

Um outro problema bem distinto também ocorre. Essa multiplicidade de soluções analíticas acaba gerando muitas vezes o aluno ou leitor-borboleta — quiça o professor-borboleta. Ele leu pequenos pedaços de muitas teorias, mas não consegue conceber nada em profundidade.

Não esperem o rigor ou abrangência das tradicionais referências bibliográficas. Optei por nomear cada ‘horizonte’, mencionar alguns dos conceitos envolvidos, e citar poucos autores (por exemplo… fulano). Embora esteja listando aí mais de cem pensadores, ficou muita gente boa de fora — afinal, é só um apontamento.

Os horizontes temáticos (ou janelas) não são estanques. Elas se tocam, se misturam e mesmo se interpenetram de diversas formas. A diversificação acaba aumentando essas áreas de contato. Vai ficando evidente que outras formas de classificar e apresentar o material poderiam ser desenvolvidas.

Há certamente algumas direções que ainda não estão registradas. Dentro em breve estarei publicando uma lista maior ainda — possivelmente. Mas há também uma tendência a cristalizar novos temas de síntese, que reúnem numa só direção contribuições de várias áreas.

Áreas que crescem muito, como é o caso das análises cognitivas, tendem a absorver uma série de conteúdos de áreas mais antigas. Um exemplo clássico é o de Fred Lerdahl e Jackendoff (GTTM) que reuniram num único esforço a teoria do ritmo, análise shenkeriana e árvores lingüísticas, tudo isso em prol de um enfoque cognitivo. Foi em 1983, muita água já passou embaixo da ponte.

Por que isso está acontecendo com o universo da teoria e análise musical? Essa é uma boa pergunta. Certamente nos fala de uma insatisfação com o ‘estado da arte’ anterior. Segue, portanto, o rumo da maré pós-moderna? Isso nos fala também da possibilidade de criar áreas e sub-áreas com relativa facilidade. Exagerando, podemos falar em modismos e ondas. Portanto, uma fluidez dos conceitos, critérios e valores? São os tempo líquidos de Baumann afetando a teoria da música?

E o que devemos esperar para os próximos anos? A expansão vai continuar ou vai haver uma reordenação capaz de restaurar um ambiente de estabilidade hierárquica direcionada?

Horizontes Temáticos:

1. Teoria e musicologia tradicionais (projetadas nos cursos de graduação)

tags: análise harmônica, forma, estilos, contraponto, etc…

por exemplo (em uso pedagógico): S. Kostka, D. Green, Grout, Fux etc…

2. Análise Schenkeriana

tags/conceitos: redução, prolongação e estrutura, Ursatz e Urlinie, Kopfton, etc…

por exemplo: Heinrich Schenker, F. Salzer, A. Forte, D. Beach, etc…

3. Análise Motívica (e Grundgestalt)

tags: motivo, basic shape, Grundgestalt, developing variation etc…

por exemplo: A. Schönberg, R. Reti, D. Epstein, Pearsall, Paulo Lima, Dudeque, etc…

4. Teoria pós-tonal (e enfoques ‘congêneres’  tais como GIS, contornos etc…)

tags: conjunto de classe de notas, operações, módulo 12, espaço etc…

por exemplo: M. Babbitt, A. Forte, D. Lewin, R. Morris, J. Rahn, J. Straus, Michael Friedmann. Marcos de Silva (contorno)

5. Teoria do ritmo (e temporalidade)

tags: hipermétrica, acento, grouping, proporções, temporalidade etc…

por exemplo: Leonard Meyer, Fred Lerdahl, J. Kramer, J. Lester, C. Hasty,  etc…

6. Teoria da composição (teorias sobre o processo do compor)

tags: o processo do compor, sistema-obra, problema composicional, limites, bottom-up vs top-down, ciclo composicional, etc…

por exemplo: Schönberg, Stravinsky, Babbitt, Cage, Wolpe, Brün, Laske, Reynolds, S. Blum, Widmer, Willy Oliveira, F. Cerqueira, J.Oliveira, W. Smetak, A. Cunha, R. Caesar

7. Análise musical e semiologia/semiótica, narratividade, semântica; música e texto; música e literatura; intertextualidade

tags: signo musical, narrativa, modelo tripartido, plot, dialogicidade etc…

por exemplo: Nattiez, Molino, Tarasti, Lewin, Karl, Kristeva, Agawu, Souza Correa etc…

8. Perspectivas analíticas trazidas pela ‘new musicology’, criticism, post-modernism, new historicism, post-colonialism, post-structuralism…

tags: feminismo, gênero, patriarcalismo, crítica dos cânones, ópera e desejo, protagonista da composição, música absoluta etc…

por exemplo: McClary, Lawrence Kramer, Kerman, Treitler, Agawu, Eagleton, Chua…

(aqui um verdadeiro saco de gatos de tendências diversificadas…)

9. Análise e Cognição

tags: ‘formal description of musical intuitions’, well-formedness and preference rules, formal Grammar, conceptual models, blending, categorization, paths, mental images,

por exemplo: Meyer, Narmour, Deutsch, Lerdahl e Jackendoff, Zbikowski, Brower etc..

10. Enfoques comparativos; estilo; tradições populares; música popular

tags: estilo, transcrição,  cantometrics, estatística, etc…

por exemplo: N. Cook, Kassler, Meyer, M. Herndon, Nettl,  A. Lomax, P. Escot, Middleton, A. Lühning, M. Ulloa etc…

11. Sociologia da música

tags: historicidade, dialética, música e sociedade,

por exemplo: Max Weber, Adorno, Howard Becker, Richard Peterson

12. Fenomenologia aplicada à música

tags: time, space, feeling, play, ‘excesso de teoria’, experiência, percepção

por exemplo: Merleau-Ponty, Dufrenne, Paul Clifton, Ferrara

13. Música e movimento; Energética

tags: musical forces, gravity,

por exemplo: Ernst Kurth, Lee Rothfarb

14. Análise e gesto

tags: musical thought is grounded in embodied experience, gravity, magnetism, inertia.

por exemplo: Hatten, Lidov, Larson, Anthony Gritten, Elaine King, Monelle, London

15. Análise neo-Riemanniana (arose in response to analytical problems posed by chromatic music that is triadic but not altogether tonally unified)

tags: ‘triadic post-tonality’, common tone maximization, parsimony relations, toggling,

por exemplo: Riemann, Lewin, Brian Hyer, Richard Cohn, Weitzmann, Klumpenhouwer, Pedro Augusto Dias.

16. Análise de música eletrônica

tags: sound sources, espectrogramas, espacialização, layers

por exemplo: Mary Simoni, Norman Adams, Laura Zattra, Michel Chion, Carole Gubernikoff, Silvio Ferraz

17. Análise do timbre; análise e acústica (inclui música espectral)

tags: análise e síntese de sons dos instrumentos musicais, análise do sinal musical, síntese aditiva, spectral envelopes

por exemplo: James Beauchamp, Judith Brown, John Hadja, Danuta Mirka, Tristan Murail, Gérard Grisey, José Augusto Mannis.

18. Análise e interpretação

tags: análise como performance e vice-versa, performance direcionada pela análise

por exemplo: Wallace Berry, Nicholas Cook, Diana Santiago

19. Música e psicanálise

tags: ‘objeto transicional’, sublimação, identificação, superego selvagem, pulsão invocante.

por exemplo: Freud, Sterba, Anzieu, Kohut, Didier Weil,

20. Análise musical e filosofia

tags: ‘música e platonismo’, ‘música e nominalismo’, ‘música e representação’

por exemplo: Lydia Goehr, Peter Kivy

21. Análise de música para filme (audiovisual)

tags: diegesis and non-diegesis, control precedence, situational meaning, apparent reality, change, closure

por exemplo: Cecil Austin, A. J. Cohen, G. Burt, F. Kaarlin, R. Prendergast, James Tobias

22. Neuromusicologia

tags: artificial neural networks, neural processing of complex sounds, musical imagery, neurobiology of harmony perception, music centers in the brain

por exemplo: Tramo, Isabelle Peretz, Robert Zatorre, John Brust, Eckart Altenmüller

23. Análise e computação (computational musicology)

tags: algoritmo, representações da partitura, creation of systems to assist the analyst, implementation of analytic system, repertoires in machine readable base.

por exemplo: Hiller, Bo Alphonse, Laske, D. Cope, Bent, Camilleri, Pedro Kroger, Baroni.

24. Teoria da textura; Orquestração

tags/conceitos: densidade, progression and recedssion, tipologia, ritmo textural

por exemplo: Wallace Berry, Leonard Ott, Richard DeLone, Wellington Gomes

25. Hibridações e novos emergentes

Há uma tendência crescente a desenvolver enfoques que se apóiam em mais de uma das áreas citadas, em busca de novas sínteses conceituais abrangentes;

tags: segmentação, motivo em Schenker,

26. Meta-análise

tags: ‘famílias analíticas’, análises poieticas, análises estésicas, método eclético, epistemologia da análise

por exemplo: Nattiez, Dahlhaus, Nicholas Cook, Ferrara.

maio 20, 2011

Caminhos da análise musical

Paulo Costa Lima acena para "a esperança de construção de um painel mundial de culturas musicais"

O leitor provavelmente pouco se dá conta do quanto já foi escrito e pensado sobre análise de música – ou seja, sobre as diversas maneiras de explicar o que está acontecendo quando se ouve música. Como funciona? Por que soa assim, ou assado? O que significa?

Todas essas questões (e muitas outras) aparecem quando o desafio é ampliar os horizontes do entendimento humano sobre esse fenômeno. Há textos complexos sobre o assunto desde a Grécia Antiga – pelo lado do Ocidente.

Aristóxeno, aluno de Aristóteles, nos deixou um belíssimo tratado sobre o ritmo: Como entender o ritmo? Quais os seus principais componentes? Como analisar algo que não permanece quieto num lugar, vai passando e levando nossa atenção junto com ele? Como dividi-lo em vertentes de estudo? – são questões sobre as quais ainda não há consenso.

Mas foi só a partir dos últimos duzentos anos que o discurso ancestral da teoria da música – que enfocava explicações do tecido musical de forma mais genérica, sem se deter sobre obras individuais – foi se diversificando em abordagens analíticas específicas.

A teoria da música cultivava abordagens amplas – regras de contraponto, encadeamento de acordes, ornamentação etc. A análise musical surgiu para fazer jus à individualidade da obra. Na verdade, só pôde surgir a partir do momento em que a própria noção de obra de arte passou a ser prioridade – evidentemente coisa da modernidade. Como entender a 3ª Sinfonia de Beethoven, chamada de “heróica”? Como Beethoven construiu sua unidade interna?

Pois é, a partir do final do século XIX foi ganhando força a idéia de que as chaves de explicação da música estavam dentro dela mesma, e não do lado de fora, em algum programa ou força extra-musical. O líder dessa corrente foi Hanslick, e sua pregação meio que hipnotizou o século XX.

No século XX os melhores esforços foram dedicados ao desenvolvimento da idéia de estrutura em música. As estruturas da música seriam portanto entidades analíticas deduzidas do próprio texto musical: estruturas harmônicas, por exemplo, ou reduções revelando entidades capazes de sintetizar o percurso realizado.

Uma outra noção muito potente vem reforçar esse campo de estudo e de invenção – a ideia de que há células musicais, pequenos motivos ou formas básicas que se diversificam ao longo do texto musical, garantindo unidade, coerência, economia de meios – tudo de bom no ideário do analista moderno.

Mas eis que a partir dos últimos vinte anos, vai surgindo uma tendência contrária a essa lógica estrutural e organicista (ou seja, oriunda do desenvolvimento de células e motivos). O que vemos hoje é uma diversificação quase que espetacular dos discursos analíticos sobre música.

A primeira transformação a merecer registro é a repotencialização do contexto como fonte de insights e mesmo de modelos preciosos para o entendimento da música.

Se o analista moderno típico buscava entender a ordem e unidade internas da Sinfonia “Heróica”, o analista de agora pretende conectar essa visão estrutural ao melhor entendimento possível das representações sobre heroísmo na época da criação da Sinfonia.

Um breve levantamento de áreas de construção teórica, na direção de novos modelos analíticos apontaria o seguinte:

a) a esperança renovada de que modelos de análise da linguagem possam ser transpostos para o entendimento de música; comparecem aí os enfoques da narratividade, do desenvolvimento de uma semiótica da música, a revisão apurada das relações entre texto e música, intertextualidade, etc…

b) a esperança de que modelos cognitivos, ou seja, modelos que tentam entender como o cérebro humano processa o sinal música, possam contribuir de maneira diferenciada para o entendimento da música; por exemplo, através do uso de tecnologias recentes, tais como ressonância magnética, e mapeamento do cérebro que ouve…

c) a esperança de construção de um painel mundial de culturas musicais, capaz de promover uma visão abrangente da criação, dos estilos e gêneros;

d) a esperança renovada de que novos modelos matemáticos e computacionais possam aprofundar o entendimento do fenômeno;

e) a esperança de suspensão dos enfoques teóricos tradicionais em prol de uma priorização da experiência musical; ou seja, a busca de ferramentas da fenomenologia, para tratar dos aspectos mais diretos da vivência sonora/musical – tempo, espaço, sentimento e jogo;

f) a esperança de produção de novos modelos a partir de diversas conexões interdisciplinares;

g) a esperança de construção de um meta-discurso sobre análise, capaz de classificar todos os discursos analíticos…

Entrei por uma porta, e saí pela outra…

Confira a Vídeo – Crônica “Notas entre popular e erudito” em que Paulo Costa Lima faz uma abordagem aprofundada sobre a música popular e erudita na cultura brasileira.

O campo de interação entre música e literatura vem se expandindo nos últimos anos. Entre nós, músicos, isso é visto como parte de uma tendência de diversificação dos enfoques analíticos do século passado, cuja ênfase e quase fetiche foi a busca de um discurso capaz de revelar (e sistematizar) as relações estruturais da música.

Durante o século XX, três avenidas principais dominaram a elaboração e o desenvolvimento disso que, às vezes, chamamos de paradigma estrutural e organicista: o uso de reduções por Schenker, o conceito de motivo (Schönberg, Reti) e a aplicação do conceito de conjunto à música (Babbitt e Forte).

Com a visualização da necessidade de flexibilização desse paradigma, a partir de meados da década de 80 – marcos distintivos sendo Joseph Kerman e Susan McClary (“new musicology”) – o caminho ficou aberto para uma série de experimentos analíticos, todos eles promissores, pois descortinavam novos horizontes, mas relativamente frágeis quando comparadas com o poder explicativo das teorias ‘tradicionais’. Estão fermentando.

Creio que foi nesse ambiente que os laços entre música e literatura (literatura e música) foram se estreitando, a ponto de hoje constituir um universo bastante diversificado de estudos e de novas possibilidades analíticas.

Gostaria de registrar a atuação marcante de um grupo de pesquisa da Open University de Londres, liderado por Delia de Sousa Correa, cujo tema é justamente essa confluência. Observam que as atividades de crítica tanto em música como em literatura têm conduzido a enfoques comparativos e interdisciplinares. Desejam mapear as influências mútuas e as raízes históricas comuns. Estabelecem uma ligação estreita entre o movimento atual de crítica literária e os novos enfoques analíticos em música.

Até meados da década de 80 abordagens que uniam música e literatura, ao invés de literatura e artes visuais, eram pouco comuns. Desde então, uma atenção crescente tem sido dedicada às interações estéticas e culturais entre literatura e música. Na medida em que o campo dos estudos literários abraça cada vez mais a interdisciplinaridade, também floresce o interesse pelo papel da música no âmbito da cultura literária.

O entendimento da música em termos literários e o da literatura em termos musicais tem sido fundamental para o esforço de apreender as qualidades distintivas de cada arte.

Mas como visualizar esse campo de interação que vem crescendo entre as duas artes e suas teorias? Não há como negar que a ignição dessa troca de olhares gera uma série de novos temas, de questões de natureza teórica, que tomam como ponto de partida uma relação mais abrangente ainda: entre música e linguagem.

Se considerarmos isso aí como um primeiro escaninho – as questões teóricas que surgem da interface -, teríamos, num segundo nível, a observação e análise de uma série de “alianças genéricas” (para usar o termo empregado pela Open University), entre criadores dos dois campos. Nesse sub-campo vamos encontrar alusões à música no âmbito de textos literários, e alusões à literatura no âmbito de obras musicais. Por exemplo: a força da música na escrita de Derrida ou a força da narrativa em obras de Beethoven e Rossini. E por aí vai…

Um terceiro eixo, mais raro de alimentar, seria já o reduto de uma decantação dessas idéias preliminares, gerando uma nova visão de “modos narrativos”, ou mesmo de enfoques analíticos comuns. A ambição desse terceiro nível seria a conexão entre música e literatura de forma a abolir a tradicional divisão entre música programática e música absoluta, valorizando a riqueza das referências intermediárias. Exemplo: contraponto em Dostoevsky (os Irmãos Karamazov).

Ou então, a riqueza sistemática de criar novas formas de abordagem de música e literatura. Especialmente quando acontecem juntas. Nesse caso, pergunta Daniel Albright (professor de literatura de Harvard e membro do grupo citado): quando música e palavras são combinadas, estamos tratando da confluência de dois sistemas lingüísticos? Ou trata-se de apenas um sistema lingüístico empurrado ao lado de outro sistema sonoro, não-linguístico? Dolorosa interrogação.

O fato é que para interpretar a linguagem recorremos à própria linguagem. E para interpretar a música, também recorremos à linguagem (com honrosas exceções). Essa assimetria sempre será fonte de intraduzibilidade. Muitas vezes uma coisa simplesmente não cabe na outra.

Não posso acabar esse texto sem mencionar a posição privilegiada do Brasil e de seus pesquisadores, pelo fato de terem um dos mais ricos laboratórios do mundo de construção de amálgamas entre música e linguagem: nossa chamada música popular. Há consciência disso e diversos pesquisadores e grupos de pesquisa estão dando importantes passos nessa direção.

(a ser continuada)

maio 17, 2011

Paulo agora é Multi!

Paulo marcando presença no Multicultura

Agora você pode ouvir Paulo Costa Lima toda terça-feira, às 12:45h (meio dia e quarenta e cinco), no programa Multicultura, da Rádio Educadora.

Basta sintonizar em 107.5 e ouvir conversas soltas e bem humoradas sobre diversos assuntos, mas sempre priorizando a música e o seu papel em nossa cultura.

Ouvindo o Multi

Para ouvir o programa, basta clicar na foto de Paulo, no lado direito de nosso blog, numa dessas idas dele ao Irdeb.

Lembrando que o Multicultura vai ao ar todos os dias, de meio dia às 13h. Não deixe de conferir!

maio 10, 2011

Adeus Macho Contumaz


meu filho se aquiete, olhe… uma vez smetak me disse, aos setenta anos, “agora enfim descobri o prazer de não fazer nada” era tarde, havia inventado mais de cem instrumentos.

diga-me agora macho contumaz:
os bagos ou a memória de uma glória qualquer?

conte-me rápido rápido porque lampejou na história,
mesmo que seja a do bairro; do clã; do hospício;
na pata da pátria, nas fímbrias do peloponeso,
nas artes ou nos desastres…

você napoleão dormido
nordestino cabra da peste,
capitão de indústria

inventou o direito autoral
patenteou a aspirina e o urubu?
organizou o carnaval em lisboa?
a lavagem de hong-kong?

desesperado pelo sentido que porventura alcance
do outro lado da folha, do cabo, da vida

e deixe que no divã digam que isso é “desejo”
– ora, esse é o nome que lhe deu sigismunda

de que adianta protestar contra a testosterona? ou contra a metafísica?
para aristóteles a definição de homem é conhecimento…

e mesmo deus assim o fez com as escrituras
(mostrando que também é macho)
e as quer ressoando pelo tempo adentro e afora

tudo isso vem da inveja ou perplexidade de não conseguir parir?
deves desafiar o pai e tecer os fios de sua baboseira heróica?
olhe aqui pai: vinte e cinco séculos o contemplam!

vocês girafas que batem o pescoço
bodes que batem cabeças
pavões de rabo enfunado

principalmente quando se sabem néscio, reles, mediano?
você vendedorzinho de meia tigela, conta-nos suas vitórias comerciais…

tio milton, quando bebia, virava proprietário em nova iorque;
o vizinho, pra não ficar atrás, elogiava o carnaval de caruaru – “o confete
bate na altura do joelho” – “fora daqui, seu mentiroso”…

você alucinado presidente schreber de algum senado alemão,
modelo para tudo que se sabe da paranóia,
transando com deus para gerar uma nova raça…
e assim denunciando o modelo-limite da masculinidade heróica

glórias e tresglórias infectando o planeta
com narrativas e contabilidades
com o dinheiro que mede o clamor das vitórias alegadas

os exércitos, os territórios, as leis
as revoluções, os golpes, o projeto e o projétil…

os uivos e silvos no esporte popular
a invenção do motor a diesel, o vapor, a eletricidade
a ideia de matar deus (denunciá-lo morto),
limpar a raça,
exterminar as bactérias
ganhar as maratonas e povoar a lua
caçar as baleias
empalhar os tigres
domesticar os mestiços
e pacificar o mundo!

e ainda, ó cultura, a pujança das idéias e os pilares dos gênios
ó joana sebastiana porque inventaste a fuga?
emanuelle, isaca, luisa, carla e karlinha;
karlinha querida, de onde tiraste a “falsa consciência”?
alberta e a relatividade das coisas

e mesmo as pugnas da justiça e da igualidade
servindo de assunto para bagos e favos inesquecíveis
definir o estado – o estado sou eu!
cortar a cabeça do rei
cortar a cabeça de todos os opositores

expandir os impérios
matar o che (mataram o sonho americano?)
matar um beattle

e mesmo a dramaticidade meio biruta que invade esse texto,
como se glória não houvesse em desnudar as mitologias
e pedir reparação já! – reinventar o feminismo, “de dentro” da horda

tudo isso parou – acabou, vai acabar, está declinando com o Pai…
pra onde irá toda essa energia?
e o que será da ordem cosmológica, e do relógio do Big Ben?