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março 16, 2009

O resto é mar: o tom de Jobim

Paulo Costa Lima
De Salvador (BA)

A canção é toda cheia de onda, e o seu autor-personagem não deixa por menos. Na versão em inglês adverte(2): Don’t try to fight the rising sea (não tente lutar contra o mar que se ergue). Está aí, de próprio punho, uma declaração sobre o umbigo temático da obra, que, não por acaso, leva o nome de Wave (onda) – uma das canções brasileiras mais cantadas em todo o mundo.

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A figura acima mostra o primeiro gesto. A marolinha do ‘vou te contar’ e a onda inexorável, se erguendo logo após. Basta cantar esse início para perceber que, na canção, o gesto de onda é tão fundamental quanto o amor. Ou melhor, que o amor, a onda, o mar, brisa, cais, noite, estrelas, cidade, eternidade, indizível, tudo isso se mistura e se aproxima nesse verdadeiro hino… Pois é, essa é palavra que me ocorre – hino. Mas que espécie de hino seria Wave?

Não resta dúvida que é uma canção emblemática, mas como gênero é o avesso dos hinos. A distância heráldica, heróica, histórica que o hino constrói, aqui de nada serve. A canção-onda trata de proximidade, de envolvimento, e de mansinho, como a brisa que diz – ‘é impossível ser feliz sozinho’ (sic).

Veja, por exemplo, a marolinha do início – ‘vou te contar’. Gesto mínimo de significação máxima. Cria um laço todo especial com quem ouve. Só se fala isso na intimidade de uma roda, que é também a intimidade de uma comunidade lingüística – carioca, brasileira. Bem ao gosto da bossa-nova, a canção nos define a partir de uma perspectiva anti-heráldica, coloquial, como se a roda de amigos fosse o próprio País. A força do seu vínculo. E não é?

E vejam que sutileza bacana: as palavras do verso veiculam um ritmo de samba, que tem a ver com a alternância entre as consoantes (t,k,t), como se aí entrasse um chocalho ou coisa parecida – aliás, do mesmo jeito que o famoso ancestral ‘qual é o pente que te penteia’, esse aí, já uma verdadeira batucada.

Como técnica de composição, esse Jobim maduro nos coloca diante de um amálgama – gestos textuais e outros gestos sonoros, idéias de texto e idéias de som que se interpenetram para configurar o todo-onda que deságua sobre a gente. Tudo isso num ambiente de miniatura, onde muitas vezes a sugestão da idéia é bem mais eficaz do que sua explicitação.

Aliás, na arte de fazer letra, o não dizer é tão importante quanto o dizer – às vezes, mais. De repente prevalece a imagem. Por exemplo, quem é que não se pega contemplando o céu noturno quando a canção fala em ‘estrelas que esquecemos de contar’? Ou visualizando um cais, a onda que se ergueu no mar, e até mesmo a eternidade, que obviamente é impossível de visualizar, mas a canção tenta(3) – faz parte do seu charme…

Então voltando, os três primeiros segundos da canção (‘vou te contar’) trazem em si as sementes de todo o resto – algo que é um princípio de coerência do compor, e reúne: o formato de onda, a proximidade que envolve, a malemolência de seu gingado rítmico, a imbricação dos textos musical e poético, e uma harmonia que flutua (Ré Maior com sétima maior e nona), que paira suspensa – da qual trataremos logo adiante.

Existem vários exemplos na literatura de canções que transformam o mar em metáfora. Caymmi deixou pelo menos duas pérolas desse tipo – ‘O Mar’ e ‘É doce morrer no mar’. Ambas trabalham com gestos musicais que absorvem características de onda, e cada uma apresenta soluções fascinantes. Há também canções folclóricas como ‘Ondina’: IaIá olha a onda, na ponta de areia(4)

Digo tudo isso para lembrar que Jobim não inventou a roda ou a onda, como metáfora musical. Mas suas escolhas compõem um cenário diverso, todo seu. O mar de Jobim é um mar urbano, bossa-novista, cheio de matizes e de imagens, meio impressionista, lírico, zen, e claramente carioca. Não se apóia, como o de Caymmi, no olhar arquetípico de uma comunidade de pescadores.

Aí está, no exemplo abaixo, uma visão do todo da onda que se fez canção: de ‘vou te contar’ até ‘impossível ser feliz sozinho’.

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Depois da marola e da subida da onda chegamos ao grupo (3). É um gesto que se equilibra lá em cima da onda, certamente aquelas espumas que a gente sempre vê: ‘coisas que só o coração pode entender’. O grupo (4) começa o processo de descida e de focalização harmônica para o final: ‘fundamental é mesmo o amor’. O acorde de Mi maior faz a diferença, prepara a Dominante. O arremate cabe ao grupo (5) e sua impressionante blue note: ‘é impossível ser feliz sozinho’. A resolução final é um exemplo portentoso de mistura de modos. Já não existe maior e menor, os dois se entrecruzam. O acorde aumentado de Dominante (Lá) antecipa a terça do ré menor.

Por mais impressionante que seja o traçado melódico da canção, vale lembrar que toda a cor de Wave vem do trabalho harmônico. Jobim vive num mundo harmônico que já não é o da tonalidade tradicional. A musicologia cunhou um termo para técnicas semelhantes às que ele usa, e que foram desenvolvidas no final do romantismo europeu: tonalidade ‘suspensa’.

O Ré maior/menor de Wave convence quando chega, sempre no final dessa seqüência. Mas durante a canção parece difícil afirmar que este seja o centro tonal. O autor faz um monte de peripécias harmônicas ameaçando tonicalizar outros acordes – Sol e Si maior – mas logo-logo desliza em seqüências harmônicas sem permitir que estes se afirmem.

Tudo temperado com muitas dissonâncias acrescentadas aos acordes, cromatismo, suspensões, acordes aumentados e por aí vai. Ao sobrepor terças aos acordes mais simples cria-se um estado harmônico mais fluido, com muitas implicações. Essa flutuação harmônica expressiva sustenta o ciclo melódico da onda.

O gráfico acima mostra as duas seqüências internas para Sol e Si (ii V I). E na última linha, mostra que apesar de toda essa complexidade harmônica há uma seqüência de base, que é a mais tradicional de todas – a progressão fundamental. Ou seja, sustentando toda a pseudo-anarquia harmônica o que temos é a tradicional rota de baixos fundamentais visualizada por Rameau em 1726.

O jogo harmônico é parte integral da beleza de Wave e de seus processos de significação. Ele matiza a relação polivalente com o amor e com o existir: estar de olhos fechados, entender o indizível, coisas lindas prá te dar, as estrelas, impossível ser feliz sozinho, a noite que nos envolve.

Reúne num mesmo anseio a intensidade de amar e a intensidade de ser – especialmente do ponto de vista de sua finitude, a sensação de perda no infinito que o amor e o mar proporcionam. Esse é o tom, esse é o hino, ou anti-hino – que não exalta, porém envolve – ‘We know the wave is on its way’.

Muito mais haveria pra dizer, porém fiquemos por aqui: a riqueza do artesanato de compor canções; a possibilidade de diálogo entre visões analíticas formais e semânticas; o estilo sutil de construir pertencimento; um afastamento importante da fórmula analítica do ‘amor, do sorriso e da flor’, usado à exaustão para falar de bossa nova; e a curiosa proximidade entre erudito e popular. O resto é mar.

1. Esse artigo contou com a leitura e comentários de Tuzé de Abreu
2. A versão em inglês é de autoria do próprio Jobim.
3. Em inglês o autor manda fechar os olhos: ‘So close your eyes, for that’s a lovely way to be’.
4. Essa bela canção levou Ernst Widmer a construir uma obra para piano solo de rara sofisticação, as Variações em forma de onda.

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