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maio 15, 2009

O Resto é ruído – Ouvindo o Século XX?

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O crítico musical Alex Ross dedica parcas e equivocadas linhas sobre o brasileiro Villa-Lobos, avalia Paulo Costa Lima

Paulo Costa Lima

Tenho em mãos o livro O Resto é ruído – escutando o século XX, escrito por Alex Ross, que é crítico musical da revista New Yorker, lançado no Brasil pela Companhia das Letras com fogos de artifício, tradução e revisão técnica impecáveis, e presença garantida na Flip deste ano.

É um caso editorial curioso – mergulha numa tradição musical geralmente considerada hermética, vanguardista -, e ao fazer isso de forma atrativa, cumpre um importante serviço. Ao mesmo tempo, apesar da indicação para o Pullitzer, devemos observar que se fosse maço de cigarros, precisaria trazer uma inscrição de alerta – “A cultura adverte: prejudicial à imagem do seu País”.

Em 568 páginas com linguagem moderna e florida, seguindo o percurso de várias dezenas de compositores e algumas centenas de obras, dando origem a um laborioso painel, somos informados de escapadelas da mulher de Mahler, sexualidade de Copland e Partch, tentativas suicidas de Schönberg, ciúmes e invejas de muitos…; mas há apenas duas frases sobre Villa-Lobos, que entra na história apenas como penduricalho da trajetória de Milhaud (e nada mais sobre outros criadores brasileiros):

Na mesma época, o jovem compositor brasileiro Heitor Villa-Lobos combinava idéias rítmicas extraídas de Stravínski a padrões complexos percebidos na música afro-brasileira. Em obras neoprimitivistas como Amazonas e Uirapuru, Villa-Lobos compôs seções percussivas de tumultuosa intensidade. (p. 116)

Duas páginas depois, e ainda no mesmo contexto:

É possível também que ele tenha ouvido as especulações de Villa-Lobos acerca do solo comum entre a música folclórica brasileira e o cânone clássico – tema desenvolvido nas Bachianas brasileiras. (no original: great Bachianas , pelo menos esse louvourzinho)

Representar toda a música brasileira com duas frases é uma vergonha. E o que dizer das implicações derrogatórias contidas nessas poucas frases: idéias extraídas de Stravinski, neoprimitivista, tumultuosa intensidade, especulações…?

Poucos autores conseguiriam comprometer de forma tão completa, concisa e diversificada e aparentemente sem intenção, a inteligência de Villa: as idéias são copiadas, a música tumultuosa, a identidade cultural falsa (neoprimitivista) e a visão teórica especulativa.

O autor do Choros n. 8 não se enquadra nessa camisa de força. Sobre ele, o livro parece nada ter entendido. E olhe que a Semana de 22 estava logo ali para ser comentada. Uma rara oportunidade de abordar uma nova consciência, com repercussões inegáveis sobre o processo cultural brasileiro do século XX, inclusive a música popular. A propósito, neste século XX do livro, o jazz existe, a bossa nova não.

Mas, apesar de termos boas razões para um acesso de furor nacionalista, não é por aí que uma visão crítica do livro deve caminhar – até porque a tal cegueira atinge muitos outros países e regiões -, e sim pela consciência de estarmos diante de um modelo de história ultrapassado. É que o livro não escuta do século XX a crítica sistemática à estreiteza da visão eurocêntrica, canônica – uma de suas conquistas mais impressionantes. Não se dá conta que o mundo mudou e que já não precisamos do ranço dessas histórias centradas num mesmo cenário.

Outras partes do planeta quando merecem alguma atenção, apenas pipocam em feitos bem específicos e situações aligeiradas, que embora prometam outra abordagem, acabam sendo absorvidas pela estrutura central de gênios e obras primas europeus e americanos.

Toda a estratégia de imagem do livro, seu apelo emocional e editorial, se apóia justamente na esperança de transpor para o século XX a aura do século XIX – erotização das figuras heróicas da música. Cavaleiros da revolução musical brigando pela primazia das inovações – Schönberg e Stravinski, Boulez versus Cage.

Quais são as verdadeiras linhas de força da criação musical no Século XX? Como definir realmente essa força crítica e criativa da modernidade que se encarnou como vanguarda e como revolução musical? São apenas pororocas estilísticas e competição em torno de uma radicalidade mal definida? Ora, a contribuição do século XX só poderia ser escutada a partir de grandes recortes temáticos inclusivos, que reconhecessem o direito fundamental de todos criarem história e cultura. Será que isso é tão difícil?! Vejo que o livro recente do Nicholas Cook sobre o Século XX (na série de Cambridge) caminha nessa direção.

Ocorre que essa visão estreita do século não é exclusividade do autor. A literatura musicológica tem vários outros exemplos. Mas, neste caso, trata-se de um lançamento no Brasil, não há como ignorar. É preciso expor o problema, e até espanta que a editora tenha engolido silenciosamente mosca tão conspícua – a celebração dessa narrativa confundindo-se com a afirmação quase explícita de que a cultura brasileira foi irrelevante para a música do século XX. Uma sugestão inocente. Bastava mudar o sub-título – escutando uma parte do século XX…

O que se pode considerar como qualidade do livro é a disposição em construir um rico painel de informações (contextos e obras) em torno de meia centena de compositores representativos do Século. Demandou uma laboriosa pesquisa documental e um trabalho considerável de montagem de todas as informações recolhidas. E nesse sentido é um feito diferenciado.

A trajetória narrativa vai conectando a vida dos compositores com os grandes movimentos políticos e artísticos de suas épocas, e recheando o todo com informações de bastidores e descrições abreviadas das obras – mais ao estilo dos críticos do que da ¿new musicology¿. A linguagem descritiva e as informações de bastidores são parte imprescindível da estratégia de vinculação do leitor ao texto e ao tema. Mas, o que dizer de sua acuidade?

Em alguns casos, os problemas ficam evidentes. Sobre a última das Três peças para piano op. 11 de Schönberg o autor diz:

O teclado se transforma numa espécie de instrumento de percussão, um campo de batalha de fortes triplos e quádruplos.

Para quem conhece a natureza complexa dessas peças, o trabalho artesanal sofisticado, a estrutura planejada ao extremo, objeto de dezenas de artigos mobilizando gente como Forte, Wittlich, Perle, entre outros, os quais apenas vislumbram o que estava sendo feito de fato… esse tipo de comentário soa bastante vazio, fora de propósito. Ou ainda o que é dito sobre Premonições, primeira das Cinco Peças para Orquestra de Schönberg:

…figuras rápidas e agitadas unidas a vibratos, figuras de tons inteiros em giros hipnóticos, madeiras estrilando em seu registro mais alto, padrões de duas notas gotejando como sangue sobre mármore, um quinteto de trombones e tubas cospem e rosnam…

Gotas de sangue sobre mármore? Trombones que cospem e rosnam? Que musicologia estranha! São mensagens fortes para a imaginação visual do leitor leigo, mas apenas isso. A conexão com os processos musicais é débil.

É o mesmo que acontece quando descreve a 5ª Sinfonia de Mahler, nos seguintes termos:

É um drama interior desprovido de qualquer indicação programática, que atravessa uma luta heróica, uma marcha fúnebre delirante, um scherzo selvagem e derramado e um adagietto de lirismo sonhador, chegando ao coral radiante do final.

Novamente, é uma descrição bastante superficial de um objeto tão mais complexo. Se essa redução é a façanha prometida, e esse é o preço a pagar para projetar o século XX – será que vale mesmo a pena?

Algumas referências que apontam para uma outra narrativa do século XX:

Sociedade Internacional de Música Contemporânea – ISCM

Dicionário Online de Compositores Africanos

Liga de Compositores Asiáticos

Centro Latino-Americano de Música da Universidade de Indiana

Centro de Documentação de Música Contemporânea da UNICAMP

Entre muitos e muitos endereços…

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