Archive for agosto, 2009

agosto 22, 2009

Conserte-se

conserte-se

O que é o Conserte-se? Trata-se da gravação de cinco peças, compostas por compositores baianos, para distribuição via internet. Os compositores são os fundadores do grupo de música contemporânea OCA – Oficina de Composição. Agora, Alex Pochat, Joélio Santos, Paulo Costa Lima, Paulo Rios Filho e Túlio Augusto, grupo transformado em pessoa jurídica homônima, a Associação Civil Oficina de Composição Agora, gerida por três destes compositores, desde 2006.

Ouça aqui a canção Yêlelá Twendê (Paulo Costa Lima).

O projeto – que foi contemplado pelo Edital de Criação de Conteúdo Digital em Música 2008, da FUNCEB – Fundação Cultural do Estado da Bahia, sendo assim patrocinado pela Secretaria de Cultura do Estado, através do Fundo de Cultura da Bahia -, conta com a participação de quase trinta músicos, sendo seis convidados de outros estados (como São Paulo e Goiás), e tem a regência do Maestro Paulo Novais.

Comentário de Jack Fortner sobre o projeto Conserte-se!:

“Paulo Filho Rios emailed me about the composers’ website and the virtual album “Conserte-se” and his piece that is included.  I also listened to your piece “Yelelá Twendé” and was very impressed!!  It is a piece I would like to do someday, if I ever have the opportunity.  Congratulations on a beautiful creation!!! I loved the vocal parts.”

Instituições que apóiam o “Conserte-se!”: Escola de Música da UFBA, Associação Civil Oficina de Composição Agora, Museu de Arte Sacra e Pousada Âmbar.

agosto 15, 2009

Onde está o centro do mundo?

Terra (foto)

Paulo Costa Lima

Queremos informar a todos vocês que tudo anda sobre controle e por que não dizer que tudo vai no mais perfeito e harmonioso equilíbrio e o centro de atenções que está prestes a perder as forças não deixa de ser uma baboseira geral e não vai além do espaço físico entre o homem e o picolé…

Texto de abertura do espetáculo Falamassa (década de 70)

A pergunta não deveria ser levada tão a sério. O centro do mundo se desloca com a gente. Afinal, só conseguimos perceber as coisas a partir de nossas próprias coordenadas.

Todavia, a idéia de que há centros e periferias nunca foi tão forte e operante. A grande maioria das pessoas do planeta compartilha essa visão e distribui sua atenção de acordo com uma escala de valores orientada a partir daquilo que é visto como centro.

Obviamente, o grande tema da centricidade é a distribuição ou concentração de poder. O fenômeno afeta todo mundo e incide sobre inúmeras áreas da vida. Mesmo assim não parece ser muito discutido.

As informações tendem a circular desses centros focais para os pontos periféricos, e quase nunca ao contrário. O capitalismo de hoje é basicamente um capitalismo de controle da atenção. O direcionamento da atenção precede e determina a formação de mercados.

As comunidades minúsculas olham para as pequenas como referência, e estas para as cidades, que miram nas metrópoles, que por sua vez se encantam com os grandes pólos da economia mundial. Tudo encadeado e firme. Tudo embalado pela agenda da mídia global.

O jogo se repete de rua em rua e de bairro em bairro, os menores desembocando nos maiores, e as pessoas buscando com tenacidade os melhores lugares no espetáculo da centricidade.

No Brasil o problema tem proporções consideráveis. Sabemos muito pouco da realidade uns dos outros – apesar de vários programas dedicados ao tema -, com a diferença de que Rio e São Paulo expressam livremente essa ignorância através da mídia nacional.

O mesmo acontece no nível das capitais de estado: tendem a ignorar ou simplesmente não prestar atenção aos municípios vizinhos ou distantes. Seus jornais falam apenas dos acontecimentos da metrópole, a não ser quando o assunto é ‘folclore’ ou ‘autenticidade’…

Houve uma atriz baiana atuando em novela de projeção nacional, que passou pela dura experiência de ter que aprender a imitar o sotaque padrão utilizado para representar a Bahia e os baianos.

O que seria da moda, das celebridades, do sucesso em geral, do marketing, do cinema, e até mesmo da excelência acadêmica – as universidades tendendo a grifes e cada teoria com seu guru e Meca -, o que seria disso tudo sem o charme da polarização em direção a lugares do mundo e pessoas que são considerados os paradigmas de cada um desses segmentos?

Ora, não se sabe ao certo quantos graus de charme ou centricidade haveria no mundo. A coisa varia, depende do assunto.

Se a questão é ‘ser um lugar adiantado’ podemos imaginar que o pessoal de Tanquinho de Feira olha para Feira de Santana (aquela cidade sempre citada por Jô, que realmente fica perto de tudo embora ele não acredite). Daí para Salvador. De Salvador para São Paulo, e de São Paulo para New York. Neste caso a escala de valores tem aproximadamente 5 graus.

É claro que esses níveis são desdobrados em dezenas de outros, a partir das sutilezas de cada posicionamento na escala – Tanquinho de Feira tem lá dentro vários graus de centricidade, só é uniforme quando comparado com algo externo.

Se o assunto fosse ‘finesse’, bem sabemos que o povo de New York olharia para Paris, aumentando a escala para 6 níveis. Não custa lembrar que a China está vindo aí com toda força, na esperança de alterar essas rotas de atenção.

E não apenas os lugares, mas também as pessoas se avaliam em termos de escalas semelhantes, algo que afeta diretamente suas vidas, moldando percepção e auto-estima.

O sistema trabalha para disseminar o desejo de que todos busquem uma melhor posição no jogo, se aproximando das celebridades e dos pontos focais. O sucesso da motivação coletiva é o sucesso do próprio modelo.

Não parece viável investir num discurso de ‘esquerda’ – leia-se transformação do mundo – que não envolva o componente de crítica ao centrismo. Muitos discursos pseudo-transformadores se apóiam totalmente no status da centricidade, na força do modelo. O consenso da valoração da centricidade às vezes parece tão natural que assume ares de realidade.

Mas afinal, quais seriam as alternativas para quem não quer jogar esse jogo?

Ir morar na Chapada Diamantina? Desmascarar continuamente o discurso contaminado pela centricidade? Brigar por uma nova sensibilidade? Trabalhar pela exaltação de outros centros? Trabalhar pela criação de micro-comunidades dispostas a experimentar com a construção de autonomia e libertação dessa paçoca?

A tarefa não é nada simples, para complicar as coisas, muitas vezes, aquilo que detém o status de centro é realmente melhor, exibe qualidade. De nada adiantaria simplesmente inverter tudo.

Há de se reconhecer que os próprios paradigmas de eficácia e de excelência estão no centro da questão. O que os indígenas vêm fazendo há séculos só agora pode ser reconhecido como fruto de uma consciência ecológica imprescindível para o planeta.

Bem faz o povo simples, que apelidou uma parte nada cosmopolita do corpo humano de ‘centro do mundo’, colocando o nosso tema de cabeça para baixo, gozando com a nossa própria sensibilidade e vulnerabilidade.