Posts tagged ‘Crônica’

julho 22, 2009

Chico, Mané e Beiçola – todos três na corriola

Paulo Costa Lima

Chico é o leitor, mané o editor, e beiçola é quem escreve. No jargão de hoje, produtor de conteúdos. Não, não. Melhor mesmo é colocar o beiçola como leitor. Consumidor tem ou não tem cara de beiçola?

Pode até ser engraçado, mas quem vai ler insulto? Deixa o criador ser beiçola, fica mais fofo.

Só tem esses dois jeitos, porque o editor tem que ser o mané. Ele tá no meio, e não tem nada a ver com a ingrisilha. Como não? Ele não é amigo do gandola?

Mas o gandola não faz parte desse jogo – só virou folclore depois do Jô.

Nesse jogo da corriola o mestre vai impondo a cada pessoa uma sentença, e ninguém deixa a roda sem cumprir a lei: “cantar como galo, grunhir como porco, cacarejar de galinha, mugir de vaca, rezar uma oração, abraçar alguém…” (Danças e Ritos populares de Taubaté, p.39).

Você quer dar ares de semiose digital pra Chico, Mané e Beiçola – só porque a expressão não existia em nenhuma máquina de busca – mas combinou com o pessoal dapuc (?), vai dar rolo -, e no Aurélio o que aparece é outra coisa: arruaça e motim de rua…

Não tire atenção da beleza da imagem. Muito mais intensa que galos tecendo uma manhã. Temos aqui também porcos, galinhas, vacas e abraços, tecendo manhã, tarde e noite, nessa rede global de teúdos e conteúdos.

Escafedeu-se a obra prima, perdeu a forma. 240 canções do robierto (deixa assim mané!) num único suporte, meu amigo comprou. Pra onde vai a obra ora a obra não vai pra onde ia?

socorram-me, subi no … ônibus, em Marrocos
Acaba a ex-clusividade da obra? Os fãs, esses beiçolas empedernidos querem virar Chico – ou vice-versa. Os beiçolas querem ser gente. Produzem suas obras-b com grande entusiasmo: “posso divulgar o meu blog?”

Uma galinha grunhiu na Austrália.

obra-b, c, d, obra-r, rabo brabo de obra: abób-obra. Os beiçolas e o fim de repertórios canônicos. Beiçolas do mundo, uni-vos! E assim transito da semiose para o valor da rebeldia. Inventem uma geringonça diferente que a gente possa chamar de mundo. Já!

E talvez, o que um dia foi arruaça, num lugar desigual e violento como a bahia do século XIX/XXI tão bem pintada por João José Reis* e seu relato da vida do liberto Domingos Sodré, possa mudar…

Foi certamente um ambiente desse tipo que cravou na expressão seu viés de censura – entre brincadeira e motim, os três são denunciados. E cabe ao não nominado o maior peso nessa história.

A culpa é do beiçola? – uma marca de preconceito contra esse personagem sem nome que ameaça intervir no jogo? Afinal, ele é o único que rima com ‘curriola’ (fala-se assim), e vem no final da denúncia, recebendo todo o peso rítmico e métrico…

(Quantas mortes violentas já ocorreram no brasil em 2009 em função de curriolas do mal? 450 em Salvador)

A minha obra-b está pronta. Agora pensem em outras crônicas que tratariam de novas possibilidades:

eleitor, mídia e políticos (Chico, Mane e Beiçola);
os três macaquinhos;
o antes, o agora, e o depois (que beiçola terrível seria o depois)
o espírito, a alma e a mente (obrigado Pedro!)
a tese, a antítese e a síntese (êta beiçola danado!)
a trindade, o ego, o super-ego e o id (um beiçola intratável…)
Entro por uma porta e saio pela outra…

* Imperdível o livro do grande historiador baiano, com as teias de resistência e vida traçadas na bahia do século XIX, Companhia das Letras.

junho 4, 2009

Gago Apaixonado

Paulo Costa Lima

Devo, não nego, uma crônica dedicada a Noel Rosa. Sua presença constante no cenário da música popular reafirma uma condição ímpar. A trajetória de vida não fica atrás: produziu mais de duas centenas de canções num período de sete anos, morrendo antes de completar 27 (1910-1937)— um verdadeiro vulcão. Chico Buarque reconhece que vem de sua lavra uma primeira formatação da canção popular no Brasil.

No entanto, pensar em Noel como patriarca fundador é um tanto estranho porque ele constrói um personagem tão malemolente, irônico, gozador, anárquico — dizem que gostava de escrever versões pornográficas do Hino Nacional — que espécie de pai seria?

É claro que no Brasil a figura do pai anárquico ocupa um lugar importante no imaginário[1]. A falta de coesão social resultou num grande vazio de força simbólica unificadora — fomos Colônia por vários séculos, e reunimos num mesmo território gente de culturas muito distintas. Xangô e Descartes nem sempre se entendem! Então, muitas vezes a liderança precisou ser exercida ao contrário, ao arrepio da sisudez e dos ‘bons costumes’. No contrapelo dos limites.

É o que anuncia há mais de trezentos anos a figura de Gregório de Mattos, em sua recusa de ser porta-voz da oficialidade cultural, religiosa ou política. Traços semelhantes reaparecem em personagens e situações diversas a exemplo de Vadinho de Dona Flor, Macunaíma (herói sem caráter), ou na centralidade do carnaval (festa de alegria e de anarquia), e ainda na figura do malandro.

Ora, Noel está muito ligado ao mundo da boemia e da malandragem carioca do início do século XX. E exerceu sim, diversas vezes, o papel de reverberação de contra-discursos. Um dos mais densos e candentes é o que segue:

Quanto a você / Da aristocracia / Que tem dinheiro / Mas não compra alegria

Há de viver eternamente / Sendo escravo dessa gente / Que cultiva hipocrisia

Gosto de entender a canção ‘Gago Apaixonado’, uma de suas criações mais interessantes, como parte desse cenário. Imperdível conferir a gravação original, feita em 1931. Quase 80 anos depois e ninguém conseguiu chegar perto do frescor de sua originalidade — é samba, chorinho, modinha lírica, e não dispensa trejeitos de New Orleans, tudo no melhor estilo. Mas, sobretudo, lá está a voz e a presença irradiante de Noel.

A inteligência composicional da canção coloca em primeiro plano a situação hilária de um gago, extravasando sua decepção amorosa[2], e olha que os gagos geralmente cantam sem tropeçar. Mas há outras leituras relevantes.

Trata-se de um gago paradigmático. Quem é que alguma vez não se engasgou com a paixão? A paixão faz engasgar, gaguejar, praguejar – e eis que o nosso personagem acaba afirmando que sua ‘amada’ vai ficar corcunda. Nesse sentido, rir do gago é rir da própria condição humana.

Um detalhe importante: a amada não recebe nome. A canção mudaria de perfil se fosse dirigida a uma mulher específica (Rosa, Marina, Rita…) como é tão comum no repertório romântico. Noel deixa o objeto da paixão no seu nível mínimo de personalização: mu–mu–mulher. Prevalece o lado passional, do qual a gagueira faz parte.

A série de rimas que acompanha esse processo é bastante sugestiva: estrago / gago / afago. A palavra ‘estrago’ é um capítulo em si mesmo[3]. O gago fica espremido entre o estrago e o afago. Não espanta que sua voz falhe. Ouve-se na gravação que Noel dá uma entonação toda especial à palavra afago, quase um arrepio, fazendo ainda por cima uma pequena cesura.

Outras séries de sonoridades significativas ampliam o processo. Na série ‘crueldade/da saudade/que maldade’, a repetição gaguejante acentua o ridículo e quase intoxica. Em outra direção surgem sonoridades mais pesadas, quase grosseiras (o estrago está feito): ‘moribundo/vagabundo’ até ‘tu vais ficar corcunda’. Tudo isso torna a palavra ‘afago’ a única recordação doce (embora chorosa) de todo o episódio.

A segunda direção de leitura pode ser vislumbrada a partir de um insight inesperado. As situações constrangedoras para o gago vão se acumulando. A mais pungente é, sem dúvida alguma, o gesto final, onde o pronome ‘tu’ dá origem a uma bravata melódica: tu, tu, tu ,tu, tu ,tu ,tu ,tu, tu tens….

partitura_gago

Qual não é a surpresa quando nos damos conta que esse gesto finalizante evoca uma cadenza de ária de ópera[4]. Ele navega pelos extremos da nota da Dominante (ré4 – ré3), e depois dos cromatismos de praxe, encerra com uma fórmula consagrada para arrancar aplausos das platéias: fi-fi-fin-gi-do.

Uma ária de bravura. O gago está bravo que nem só. Mas, ao mesmo tempo, é um gesto de samba. Sua rítmica chega a lembrar o samba de breque. Estamos em plena interface antropofágica?

Rindo do gago, estamos rindo também do cenário lingüístico onde ele trafega — um romantismo de gosto duvidoso e soluções piegas. Vale lembrar que o personagem de ‘Conversa de botequim’ não precisa de nenhuma moldura parnasiana. Fala em ‘manteiga à beça’, em ‘média requentada’, ou seja, é a linguagem do cotidiano, da vida — aliás, uma bandeira de Noel.

Mas o gago deriva parte de seu humor justamente desse absurdo. Alguém em sua condição, ainda ter que lidar com ‘tu tens’, ‘teu coração me entregaste’, ‘depois de mim tu tomaste’ — é demais para um pobre mortal. O gago acaba ridicularizando essa representação lírica que oblitera a realidade social em favor de ‘uma hipocrisia que escraviza’. Que bálsamo ouvir o gago estropiar a sentimentalidade do ‘co-co-ração’. Nesse sentido, a voz de Noel é modernista.

Por isso, os ritmos que desorganiza para criar o efeito da gagueira podem ser considerados como um experimento de crítica da representação. Como algo ‘original’, que nem os vizinhos ou papagaios conseguiriam reproduzir — tal como disse orgulhoso o próprio Noel a um jornalista.

Seriam, dessa forma, frestas de criação musical. E assim como a crítica da retórica vazia e a defesa da linguagem cotidiana prenunciam a bossa nova, esses ritmos tortos de gago, prenunciam essa incrível mania transformada em excelência e arte por João Gilberto, de imaginar que qualquer coisa pode ser tempo forte.


[1] Sendo a figura do tirano seu contraponto necessário.

[2] Vale lembrar que o compositor checo Bedrich Smetana, coloca no palco um personagem gago, na famosa ‘The Bartered Bride’. Essa ópera foi muito badalada pelo mundo afora, inclusive no Rio de Janeiro.

[3] Lembro aqui de Mariana, nascida no interior da Bahia (Itiuba) e uma grande amiga da minha família. Ela usava essa expressão para fazer referência à ameaça feita por alguma mulher de capar um macho. Eis aí o pano de fundo da palavra ‘estrago’.

[4] Também aparentadas com as cadências da forma Concerto.

abril 26, 2009

Pimentão alucinógeno

Paulo Costa Lima

O pimentão ficou famoso. Entre temperos e destemperos estreou nesta semana como campeão da contaminação nacional – dos 101 coletados em todo o país, 64 estavam envenenados.

Não ficou bem para o rosto público dessa celebridade vegetal, sempre citada como agente antioxidante.

Com toda essa tensão entre ‘eu’ público e privado, o pimentão vai experimentar um pouco do seu próprio veneno. Não existe celebridade sem a montagem de um rosto público imaginário, captador e indexador da fantasia e do desejo das pessoas.

Já existe um nome para os famosos por 15 minutos – celetóides. Parece ser o caso. Tudo vai depender da quantidade de veneno que colocarem no ano que vem. Por favor, chega de metamidofós – além de proibido em todo mundo o nome já humilha.

Ainda bem que a Anvisa anvisou, mas é só isso que temos como defesa civil, executivo, legislativo e judiciário? Aliás, todos dizem que as leis são boas, mas e a aplicação delas? Ninguém é citado ou responsabilizado por atentar contra a vida de todos os consumidores? Não li nada sobre isso.

Devemos assimilar o discurso de que a contaminação é um mal necessário? Que sem agrotóxico não se alimenta o mundo? E onde fica o direito de ser informado sobre as drogas colocadas em cada produto?

Madona! Para onde vai uma crônica que pretende mostrar uma tendência muito mais ampla à contaminação da sociedade – poluição, radiação, medicalização, alienação – unindo cultura e agricultura, pimentão e celebridades?

Vale lembrar que as celebridades são mercadoria, no sentido de que os consumidores desejam possuí-las. E certamente surgiram na esteira da democratização das sociedades ocidentais – nesse sentido, são um verdadeiro progresso.

Receberam a energia que antes era colocada na crença de que os reis tinham direitos divinos. Também cresceram em cima do declínio da religião organizada.

No caso da vida cultural, ainda não existem testes tão precisos sobre contaminação e envenenamento – mas que as bruxas existem, existem.

Parece então que a tentativa é deixar que o mercado vá regulando anualmente o consumo dos venenosos, punindo seus produtores com a baixa de consumo – divulga-se que o ministro tirou o pimentão da dieta. A banana já esteve muito mal, e agora melhorou bastante, está na casa dos 2%.

Trata-se de uma estratégia reguladora neo-liberal (??) bastante deslocada nessa época de crise! Como permitir que os consumidores indefesos das periferias do mundo escolham seus pimentões e artistas com a acuidade necessária?

E veja bem a diferença entre periferia e centros do mundo. Temos que aturar/venerar as nossas celebridades e as deles. Eles raramente ouvem falar das nossas. Não sabem o que estão perdendo…

O desejo de possuir uma celebridade – ou de ser objeto desse impulso – é um dos exemplos mais representativos dessa tal sexualidade moderna. Lembram daquele trocadilho entre Elvis e Pélvis?

Herdeiro do desencantamento com a nobreza e reis, esse desejo vibra intensamente com casos que representam justamente a ascensão de alguém (com quem me identifico) ao Olimpo.

Quem não vibrou com a história de Lady Di – quem não amargou seu final trágico?

No varejo: o príncipe e o mendigo, a prostituta e o ricaço (Julia Roberts e Richard Gere), a variante do Notting Hill, o diabo veste Prada, etc, etc…

Será que toda a tensão gerada pelo caso Lewinski era simplesmente alimentada pela irresistível narrativa de uma jovem plebéia se aproximando perigosamente de um dos homens mais poderosos do planeta?

Pimentões e celebridades estão aí em nossa realidade. Não há como ignorá-los. Mas bem que poderiam ser mais saudáveis.

Enquanto não damos jeito no futuro do planeta ou do capitalismo, talvez fosse o caso de desenvolvermos um indicador para a contaminação cultural…

abril 10, 2009

O incrível desafio entre Hulk e Obama

"De certa forma, as nossas ruas estão cheias de hulkies".

"De certa forma, as nossas ruas estão cheias de hulkies".

Paulo Costa Lima


Vez por outra deparo com antigos episódios do Incrível Hulk. Fico cada vez mais convencido de que aquele sujeito verde que explode de repente e sai correndo com as bermudas em frangalhos estava prenunciando uma série de coisas com relação ao imaginário dos anos 80.

De forma mais direta existe a conexão com o corpo. O herói-monstro apregoa uma estética de músculos e malhação, pouco celebrada anteriormente.

Só para citar um caso: o que em 1983 era apenas uma academia na Califórnia, hoje se transformou em rede mundial, com receita na casa dos bilhões. De certa forma, as nossas ruas estão cheias de hulkies. Foi uma fantasia eficaz…

Mas o que mais intriga é o caráter reativo do herói. Movido a raiva e stress, só aparece quando confrontado. Muda radicalmente o modelo consagrado de fantasia heróica.

Heróis de outras décadas queriam salvar o mundo — Super Homem, Mulher Maravilha —, fazer coisas heróicas na floresta (Tarzan, Caveira), ou mesmo proteger Gotham City. Mas o Hulk vive perdido por aí, perambulando de capítulo em capítulo até sua transfiguração apoplética. Toda a ênfase recai sobre a transfiguração em si.

Acho que é o único super-herói imbecilizado, menos sabido que sua forma original. Se fosse possível entende-lo como canalização de uma necessidade coletiva, como pára-raios de uma raiva espalhada na sociedade, que de repente se expurga através do personagem, essa crônica ficaria bem mais interessante.

Talvez expurgue a perda do paraíso da liberdade sexual e a perda da utopia. A agressividade que antes estava voltada contra os centros de poder locais e globais (da família ao capitalismo), agora flutua ‘livremente’ e incomoda.

Enquanto a narrativa dos outros heróis envolve uma relação amorosa — difícil mas potencializada pelos ‘poderes’ do personagem —, o Hulk sempre aparece para atrapalhar alguma ligação que o personagem cientista estava prestes a realizar. Pois é. Quem vai querer transar com aquela coisa — teria uma genitália verde?

E aí temos um ruidoso paradoxo: toda a ênfase colocada sobre o corpo sarado e potente convive com um ambiente de dessexualização. Estaria a série ensinando à nova geração o caminho de um narcisismo exacerbado, onde a energia sexual ficaria direcionada para o corpo modelar? O fato é que ela aprendeu.

Seria, dessa forma, o prenúncio de uma época que precisou dizer a si mesma que ‘o sonho tinha acabado’ ? Começa o pesadelo? Pois não foi a década de 80 que matou logo cedo o maior arauto do ‘faça o amor e não faça a guerra’— Lennon ? Voltam à cena com toda força temas como nacionalismo, materialismo e religião.

Não seria essa tendência à transfiguração uma marca claramente estabelecida pela década de 80? Sai Lennon entra MJ com seu thriller e dança lunática — sou mau, sou mau. Mau como um pica-pau. Não estamos no clima do Hulk? Os jeans agora são rasgados (relendo um ícone central ao período anterior), os passos ariscos, o corpo exposto como centralidade de uma sexualidade e etnia incertas.

Num certo sentido, o ET é uma espécie de Hulk. Só que encantado. Essa outra solução imaginária coloca o sonho num nível celeste e existencial. Mas o ET é um monstro, que quando encurralado faz coisas prodigiosas. Nesse caso os humanos adultos é que são os imbecis — criaturas das décadas de 60 e 70 —, incapazes de entender a vida e os sentimentos…

O re-encantamento é feito pela relação entre a criança e o monstro-sábio, que talvez tenha um tom cinza-esverdeado… A propósito, não tem sexualidade. Seria macho ou fêmea?

Daí para Reagan e Thatcher seria apenas um passo — lideranças capazes de controlar essa degenerescência do sonho. Ou seja: capazes de operar uma transfiguração política, permitindo o florescimento de um sistema global de negócios, reprimindo tudo que estivesse em seu caminho — e inaugurando uma era que apenas agora, com a crise, encontra o seu limite histórico.

Nesse sentido, o Hulk é bastante atual e incita a imaginação sobre os novos modelos de fantasia, sobre a difícil retomada de um projeto de participação coletiva, cuja estabilidade surge, dessa vez, patrocinada pelas evidências de destruição planetária (simbólica e real).

Sendo assim, e levando em conta a necessidade retórica de um final retumbante, diria que o Hulk é o verdadeiro oponente de Lula e Obama — personagens bastante reais dessa nova quadra.

abril 2, 2009

A música e o espelho

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Paulo Costa Lima
De Salvador (BA)

A música não diz tudo de vez. Se dissesse, não haveria porque ouvi-la de novo.

Ela parece existir dentro de uma perpétua contradição entre ser o sinal da inteireza de um determinado paraíso, e ao mesmo tempo, a evidência viva de sua incompletude.

No último sábado, no show da banda Cof Damu aqui em Salvador, fiquei junto de uma jovem que ao ouvir sua música preferida, pulava o mais alto possível, numa pungente agonia gozosa.

Seu corpo robusto – era pesada sem ser gorda – parecia querer flutuar nesses saltos expressivos – sempre alternados com gestos de quem estava tocando guitarra, logo depois bateria, e mais uma vez, saltos.

Aquele corpo parecia querer tornar-se música, e isso envolvia toda uma coreografia saltitante. Almejava flutuar. Lembro já ter sentido sensações semelhantes. Lembro por exemplo, de uma coreografia magistral feita por Graciela Figueiroa para as Quatro Estações de Vivaldi. Inesquecível!

Talvez a música não diga tudo justamente porque na realidade se constitui como uma espécie de espelho, um espelho sonoro. Para Didieu Anzieu, esse espelho sonoro marca o próprio nascedouro do sujeito, embalado pela voz materna.

Ora, esse espelho de som antecede em vários meses o estádio do espelho lacaniano, quando, através da imagem, o infante reconhece a si mesmo pela primeira vez – e sorri.

Muito já foi escrito sobre esse duplo de imagem que acompanha o nascimento do sujeito, e que paradoxalmente vem de fora – permitindo associar esse jogo de imagens com a fonte do conhecimento, da descoberta do mundo, e também, surpreendentemente, com a paranóia – o medo desse duplo que sabe sobre mim.

Anzieu, portanto, defende que esse jogo de identidade começa bem mais cedo, e não no plano visual. A identidade começa com choro, gritos, vocalizações de prazer, e tudo que a isso responde. O entusiasmo da música teria essa cena como ponto primordial.

Mas há um detalhe fundamental: se a música é espelho, é um espelho de tempo. Os jogos de identidade, do tornar-se e do destornar-se, da imersão em um campo sonoro, da aproximação ou afastamento de um centro tonal – todos tão caros à música, acontecem e desacontecem no tempo.

Ora, essas estruturas de identificação e reconhecimento transcendem o indivíduo. São matrizes utilizadas pelas coletividades para registrarem seus traços, seus ciclos e feitos.

Por isso, além de estar nesse curioso entrelugar de sujeito e objeto, a música também ocupa um lugar intermediário entre o indivíduo e o coletivo – sua comunidade mais imediata, ou a sociedade mais ampla.

Com sua realidade fugidia, a música nos embala e nos adia. Oxalá nunca termine, levando nossas almas, digo nossos corpos, pelo incrível espaço da música das esferas…

março 30, 2009

Meu caro amigo: uma homenagem a Chico e Hime

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Paulo Costa Lima
De Salvador (BA)

O que há de tão especial nessa canção?

De um lado o tom da delicadeza – existe algo mais carinhoso do que um “meu caro amigo”? E que vai adiante: me perdoe por favor, se não lhe faço uma visita… É uma linguagem bálsamo que a entonação quase jocosa de Chico realça e projeta (Confira no Youtube).

De outro, o tom do desabafo, um painel de durezas elencadas em carritilha logo após “a coisa aqui ta preta”, registrando muita mutreta pra levar a situação, e nessa mesma linha: careta, pirueta, sarro, sapo, cachaça… O desenlace é inevitável: “ninguém segura esse rojão”.

Quem viveu a década de 70 no Brasil sabe como foi intolerável o massacre de mídia do bordão “ninguém segura esse país” – a ditadura insistia em ser coisa nossa. A canção dá o troco, com uma dose vingativa e terapêutica de ironia e de pirraça: não é um país, e sim um rojão. O verso talvez tenha sido profético, basta lembrar o rojão que estourou no Rio Centro alguns anos depois.

Portanto, lá vai a canção, florescendo sobre uma polaridade – cruel e meiga. Não que soe partida ou desinteira. Nada disso, desce redonda pelo ouvido até o peito, e aí está um de seus grandes feitos. Sua emoção costura uma série de valores e de posições, tudo a partir de dois princípios estruturantes: a convocação do chorinho e o discurso intimista da carta.

Ambos elegem como objetivo maior a inclusão do ouvinte como membro da comunidade auditiva e pensante estabelecida pela canção, uma comunhão sonora. O bom ouvinte também é um dos destinatários da carta, pertence a seu mundo de sentido, com o qual se identifica, um caro amigo.

Neste manifesto simultaneamente sutil e destemperado, Chico e Francis colocam a melhor herança da música brasileira, e todos que com ela se identificam, em rota de colisão crítica com o antigo regime, que graças aos céus e a muitos espinhos e pingos de suor e sangue ávidos por uma outra realidade, foi-se. Ficou a pérola.

Mas de onde vem a força do chorinho? O chorinho foi um dos primeiros exercícios de abrasileiramento que a nossa música precisou desenvolver (a partir do final do século XIX). Recebe gestos da tradição “urbana” ocidental de polcas e xótis (originalmente vindos do mundo camponês) e os reconfigura.

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O que vemos no primeiro gesto da canção é algo claramente derivado da tradição de um Pixinguinha (confira o solo de flauta da introdução). O gesto melódico é forjado com a malícia e a malandragem desses volteios que sobem e descem. E embutidos nos volteios uma rítmica claramente influenciada pela mentalidade africana – por exemplo, a acentuação “contra-hegemônica” da última semicolcheia de cada grupo – dó-si; si-lá; lá-sol – (também no pandeiro), e a formação de um jogo complexo de acentos rítmicos versus acentos métricos (3 contra 4), que mesmo sem querer mexe com o corpo.

Esse gesto instrumental funciona como uma matriz que vai dar origem a todos os outros da canção, e se encaixa na voz de Chico com uma naturalidade impressionante (sem o fá#?), como se fosse mesmo uma conversa entre amigos. (Entregue a uma soprano lírica seria um transtorno).

É claro que o gesto imita a entonação da fala carinhosa e jocosa (sobe – desce – sobe de novo – repousa), mas estica essa lógica quase ao absurdo, com subidas e descidas íngremes (oitavas e quintas) e inflexões cromáticas.

Um analista muito entusiasmado consigo mesmo diria que a proximidade (os semitons) e a distância (as oitavas e quintas) desse gesto matriz representam no tecido musical a tendência bipolar da obra – no caso, estar perto e longe – ressoando a delicadeza e o desabafo já assinalados.

A negociação entre volteios rebolativos e uma harmonia típica de choro (I- vio – ii7 – V4/2) produz um curioso efeito sonoro nessa canção, como se fosse uma espécie de “cama de gato” – complica e tensiona até resolver como se nada tivesse acontecido.

Mas não é apenas de proximidade e distância que a “cama de gato” melódico-harmônica está falando. O que inicia como simples delicadeza entre amigos, logo na esquina vai aparecer ligeiramente modulado para cumplicidade, e já beirando o desabafo: “eu ando aflito pra fazer você ficar, a par de tudo que se passa”.

Grifo a expressão “tudo que se passa” porque ela justamente promete muito. Ela afirma que há muito a contar, mas as curvas do discurso seguinte revelam paradoxalmente que “uns dias chove, noutros dias bate sol”. Ora, que grande novidade! “Tem muito samba, muito choro e roquenrol”.

Ou seja: promete-se muito e revela-se pouco. A não ser que a palavra “choro” do último verso seja tão arisca quanto o correio do qual se queixa o autor da carta. Poderia ser mais do que o gênero musical, na direção do horror do choro produzido pela tortura. Futebol rimando com roquenrol mais parece um espinho de alerta. O discurso aparentemente solto da informalidade entre amigos confunde-se com a confissão muda de um ambiente perverso, tudo isso levando a uma constatação sombria embora meio absurda: a coisa aqui tá preta.

Esses pequenos abismos do discurso encontram uma contraparte sonora nos choques melódicos apontados acima, nas subidas e descidas quase insanas, e na pouca presença da terça da tônica (o mi é guardado a sete chaves), tudo isso, porém, sempre envelopado pelo gestual harmônico e rítmico do choro. Tudo muito normal! O ouvinte desatento percebe apenas a beleza do choro e a letra “engraçada”. O ouvinte informado percebe o jogo sutil de denúncia embutido no humor e na ironia. O ouvinte escaldado vai descobrir como o tecido musical de sons e palavras trabalham em parceria constante.

Refaço o percurso das categorias: da delicadeza amiga para a cumplicidade – note-se que a última frase da canção reforça a idéia de um coletivo e não apenas de indivíduos (a todo pessoal, adeus…). Percebemos que a cumplicidade desemboca no desabafo e na denúncia crítica (seja da alienação esportiva e musical ou da tortura). Depois disso surge o painel de bizarrices já comentado anteriormente. Além de ampliar o desabafo, esse painel e a ironia que o finaliza (…rojão) nos fala de teimosia, de pirraça, de engolir sapo, ou seja, de resistência, que se manifesta também através da malandragem do humor e da ironia.

Todos esses valores estão firmemente plantados no solo da canção. Mas eles giram como se fossem um móbile, embalados por algo que os transcende, e que garante a redondeza do discurso: a sedução de pertencimento que envolve o ouvinte cúmplice. Daí para as “diretas já” foi quase um pulo.

Codetta:
Muito ainda haveria a dizer sobre a trama musical da peça. Por exemplo, o jogo sutil que se estabelece entre os saltos e o cromatismo (a proximidade e a distância). Fica o exemplo musical abaixo como aperitivo dessas análises musicais: trata-se da linha melódica da introdução, e os pequenos círculos colocados acima das notas mostra que apesar do volteio ascendente e descendente há uma lógica cromática subreptícia dando unidade ao tecido, tal como o segundo pentagrama registra, uma descida de oitava, de sol a sol:

Melodia da introdução e orientação cromática escondida

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Esse processo continua durante a canção e pode ser ilustrado em diversos pontos, mostrando que a polaridade entre estar próximo e distante é central para o discurso musical da canção. Outros processos: a diferenciação controlada do material motívico a partir da idéia inicial, o planejamento harmônico e formal, o mapa gestual da canção, etc. (fica para outra crônica)

*

¹A harmonia da música popular brasileira é filha direta de Rameau e de sua progressão fundamental.
²Muitos leitores talvez não se lembrem do que seja “cama de gato”, aquele jogo com cordões, que fazem e desfazem padrões (já apareceu numa novela antiga).

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