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março 16, 2009

Alguém pode querer me assassinar: poder e paranóia

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Paulo Costa Lima
De Salvador (BA)

Mamãe, não quero ser prefeito,
pode ser que eu seja eleito
e alguém pode querer me assassinar.
eu não preciso ler jornais,
mentir sozinho eu sou capaz,
não quero ir de encontro ao azar

O poder é um lugar de paranóia? Para Raul Seixas a conexão é bastante palpável. Uma breve inspeção dos significantes/personagens de sua canção “Cowboy fora da lei” nos leva diretamente ao contexto, e o título já nos fala das relações entre lei, heroísmo e transgressão.

Aquilo que parece ser apenas um balacobaco inofensivo com banjo e coisas do velho oeste oferece como ponto de partida um diálogo pra lá de delirante, envolvendo ninguém menos do que mamãe – “mamãe não quero ser prefeito”. Vamos e venhamos: combinar mamãe e velho oeste é uma raridade excêntrica.

Aliás, a canção reúne personagens improváveis: Durango Kid, Jesus, mamãe e papai, o cowboy fora da lei, um assassino aleatório, um prefeito recém-eleito, Deus!! Além de vários símbolos: o azar, a luz, a cruz, a lei, o heroísmo, a história, os jornais, o gibi, a pátria amada. Uma narrativa em forma de sarapatel que paradoxalmente flui sem maiores guinadas. Como consegue colocar tudo isso num mesmo saco?

Até que ponto, a canção de Raul deve ser pensada como alegoria do campo do poder? E que elementos traz para a análise do imaginário da convivência política, para o imaginário das eleições?

Ao escolher o velho oeste como ambiente da política, e dizendo que não é besta para ser herói crucificado, estaria Raul pintando um cenário onde não há solução política? Herdamos das ditaduras, ou melhor, da nossa tendência a ditaduras esse traço maléfico. Há quem diga que a canção se inspirou na tragédia que foi a morte de Tancredo Neves na década de 80 – uma época propícia para essa visão.

Não custa lembrar que o modelo da paranóia está presente em ninguém menos que Dom Quixote de la Mancha, e talvez seja uma abertura imprescindível para a modernidade.

Na canção a abertura é estranha e cômica. O círculo lógico e delirante de personagens se impõe: mamãe, ser eleito/ser prefeito, alguém. Quando o eu lírico diz a mamãe, com voz de bezerro desmamado que não quer ser eleito está soando na tecla do desamparo. Mas, porque o desamparo? Ora, só faz sentido se por baixo dele houver desejo de ser prefeito, herói e entrar para a história…

Desejo esse que pode atrair diretamente o ‘azar’ de um tal ‘alguém’. Alguém pode querer… olha que formulação maravilhosa! Quem pode negar uma coisa dessas? Alguém pode querer qualquer coisa. É uma frase ideal para o delirante justamente por não admitir contradição. Qualquer delírio consegue se justificar com essa tautologia.

A canção também registra esse incômodo com relação ao próprio cantar: “eu já servi à pátria amada e todo mundo cobra minha luz”. Raul se queixava de que havia uma expectativa das pessoas de que ele realizasse milagres do palco. Interessa-nos marcar esse paralelo entre a celebridade artística e a política. O reconhecimento da transcendência de ambas, conectando a expectativa geral à sensação difusa de perseguição.

Tanto na canção como na vida política, ser eleito significa trazer a si, ou melhor, incorporar uma narrativa que circula no âmbito coletivo. Convocar a atenção, ou mesmo usurpar a atenção que potencialmente poderia ser de qualquer um.

Nenhuma eleição no hemisfério sul pode fugir da expectativa de lidar com a extrema desigualdade de destinos. E como essa desigualdade não aconteceu por acaso, teve um script, sua desconstrução requer traços de herói e ao mesmo tempo de transgressor.

A frouxidão do laço social e a prevalência da lei de vantagem própria fazem da periferia do mundo um lugar de maior desconfiança com relação ao poder, onde a raiva do líder aflora com maior facilidade. A linha entre herói e bandoleiro fica bastante tênue. A síndrome emocional ligando comandados e poderosos, em torno da ocupação desse lugar central de decisão, apresenta peculiaridades e instabilidades próprias.

Esse sujeito que convoca o olhar, e que traz em si a promessa de avanço para uma situação melhor, também pode ser o mais novo sabidório de plantão, prestes a usar o poder em proveito próprio. O cinismo seria o avesso da paranóia?

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