Posts tagged ‘Música’

dezembro 23, 2011

Mensagem de Natal

Neste Natal     vou amar sete bilhões de pessoas

            e nem vou reclamar da loucura desse número.

                  pensarei na criança que nasce 

                             pensarei em todas as crianças 

e renderei homenagem à força misteriosa que em nós existe, 

                e que nos manda viver 

      no reflexo que me faz recolher o dedo de qualquer espinho 

                  e na atração pela rosa, que foi o que me levou até ele.

      louvarei sem cessar o impulso de proteger os mais fracos

  de cobrir com um manto quente aqueles que dormem nas ruas

                        a indignação dos que falam pelos que não têm voz

                        — não há espetáculo de estética mais apurada

            o fogo da crítica, a ternura dos rebeldes 

                           a dedicação dos que amam os animais

     e neles percebem traços muito mais humanos do que em nós

 a candura de todos os que têm filhos e neles pensam na calada da noite

                     o laço fraterno, a textura firme da amizade neste Natal.

 amarei os que emergem do silêncio dizendo: “estou preparada para tudo…”[1]

                porque eles têm uma noção privilegiada do jogo, do tudo

                        e vão além de nossa luta diária pela sobrevivência

    sabendo que viver e morrer são bem mais do que uma simples oposição.

neste Natal amarei a Terra Mãe, a Estrela Guia, as esferas cristalinas do universo,

            “o poema de alegria, escrito pela mão que se iludia”.

          amarei intensamente todas as formas de ilusão, de fantasia, 

                   todas as formas de consciência e de compromisso 

       e reverenciarei sem hesitar tudo que é diferença…

o movimento das nuvens e das marés, as espumas brancas que enfeitam os rochedos,

                        as conchas de brilho madrepérola inconfundível, 

   amarei sobretudo a capacidade de amar e a capacidade de ser além, 

                       além de si, além do céu, além do próprio Natal.


[1] Uma mulher e tanto disse isso.

Anúncios
Tags: , , ,
novembro 22, 2011

A influência da África nas músicas brasileiras


Heitor Villa-Lobos: “Os ciclos de repetição estão presentes em criações da música letrada vindas de Villa-Lobos”(Foto: Reprodução)

 

1. Mais do que um tema é um painel de coisas – um caleidoscópio de encontros e desencontros, de pequenas e grandes colisões – é como se, no plano do imaginário, víssemos duas, ou melhor, três galáxias se fundindo (européia, africana e indígena, essa última aí dando nome a todas as coisas do território, por exemplo as pedras, de Itaparica a Itatibaia…).

Portanto, três perspectivas, e nesse processo de fusão – que não é fusão no sentido de uma derreter na outra, e sim de administrar as tensões pela ocupação do mesmo espaço – a gradual emergência de algo distinto, talvez uma espécie de síntese que o discurso sobre o nacional busca captar de forma sistemática a partir do século XIX.

2.Acho importante colocar de saída essa visão das galáxias e o desafio de acomodação dos empuxos gravitacionais – Xangô, El Rei e caboclos disputando espaços e força simbólica, digamos assim – para desmistificar o discurso da ‘influência sobre’. Esse discurso só é legítimo quando se refere a um processo onde algo externo atua sobre um determinado objeto. Mas, como sabemos, a presença cultural africana nos constituiu como sociedade, não é algo externo.

3. Isso nos leva de imediato à questão do poder – que na imagem das galáxias, diga-se de passagem, fica um pouco escamoteado. Ora, uma das galáxias tinha o poder, era o poder – numa situação de escravização dos negros e mesmo eliminação das sociedades indígenas. Isso vai definir muita coisa.

Todo discurso de empoderamento, de atribuição de prestígio, de valoração cultural vai estar inicialmente (e até os nossos dias) impregnado das marcas do espetáculo civilizatório europeu. A história de nossa cultura letrada fornece profusão de exemplos.

4. Mas, por outro lado, todas as iniciativas de representação do coletivo, da construção de pertencimento no âmbito dessa sociedade vão necessariamente esbarrar com a galáxia africana – seu imaginário e construções simbólicas. A África civilizou o Brasil pela ética e pela estética, nos lembrava Gérard Béhague.

Ora, a organização desse lugar periférico chamado Brasil exigiu doses cavalares de poder absoluto. Ser periferia significou para nós uma incompletude radical, o desejo projetado para fora, focado na satisfação desse Outro europeu.

Paradoxalmente, esse estado de alienação também vai reforçar o pólo ético da lógica do coletivo – a percepção de que não poderia haver construção ética sem o somatório de interesses dos de baixo (esse ainda o grande tema da nossa vida política).

5. E é a partir dessa moldura, de todo esse contexto, que a herança musical africana precisa ser entendida. Tomemos, por exemplo, como ponto de partida, o traço da comunalidade. A comunalidade do passado mítico na África, mas também a comunalidade da resistência, dos modos de vida desenvolvidos no Brasil, em grotões, periferias, guetos e quilombos.

A comunalidade adquire muitos sentidos entre nós – mas obviamente queremos citar de saída a questão do ritmo.

6. Ritmo é algo muito mais abrangente do que batidas, toques, e padrões, envolve o todo da música. Envolve, na verdade, aquilo que passou a ser denominado de construção de temporalidade, como se as músicas fossem arquiteturas de tempo (que na verdade são).

As construções rítmicas de origem africana guardam o traço da comunalidade, especialmente através de estratégias de repetição. São músicas que tratam com grande refinamento a possibilidade de repetição. Isso significa acionar um mundo de possibilidades de acentuação, de simetria e de assimetria, de pergunta e de resposta (texturas, portanto), fazendo pouco daqueles que pensam apenas em tempos fortes e fracos, em semínimas e colcheias.

O grande pesquisador Nketia, quando esteve na Bahia, disse que ao chegar em Londres aos 18 anos de idade, teve uma decepção fortíssima ao deparar com uma civilização que batia palmas de forma tão ridícula cantando Happy Birthday to You. Na realidade comunal de onde vinha, a civilização rítmica era outra… a capacidade de compatilhar estruturas de tempo, de trabalhar de forma colaborativa

7. Ora, os ciclos de repetição estão presentes nos grandes gêneros afro-brasileiros – no samba e samba-de-roda, na música de capoeira, no frevo, no chorinho, maracatu, forró, bossa-nova, lambada, samba-reggae -, mas também em criações da música letrada vindas de Villa-Lobos, de Ernesto Nazareth, de José Siqueira, Radames Gnatalli, Guerra-Peixe, Lindembergue Cardoso, deste que aqui escreve (entre muitos outros).

8. A adoção dessa perspectiva – comunalidade e repetição – acaba favorecendo aquilo que pode ser chamado de não-linearidade rítmica. A linearidade implica em construções marcadas por objetivos que conduzem o discurso musical até determinados pontos. Aponta na direção da chegada naqueles pontos.

A não-linearidade, claramente demonstrável pela simples execução de um padrão do candomblé, faz com que a música flutue sem objetivos finalizantes claramente definidos. É possível ouvir esses padrões por longo espaço de tempo sem cansar, e sem necessidade de conclusão.

Ora, a música do Ocidente desenvolveu de forma obsessiva qualidades de temporalidade linear, especialmente através do uso da harmonia, direcionando a atenção para os pontos de chegada. Muitas músicas brasileiras cultivam, dessa forma, uma ambiguidade curiosa entre esses dois mundos.

9. Esse caminho de elaboração musical (comunalidade e repetição) tem uma série de outras consequências, por exemplo, a própria noção de coerência – de construção de coerência e de lógica musicais. A coerência gerada pelas músicas de repetição exige atenção diferenciada da parte de seus ouvintes, que passam a ser muito críticos com relação a qualquer leseira ou marasmo rítmicos. É de se imaginar que fiquem menos sensíveis e exigentes com relação a outros parâmetros (será?)

10. Há também consequências importantes para o raio de sentimentos e emoções incentivadas por tais estratégias de criação musical. Mais ainda: a convocação do corpo como parte integrante do espetáculo. Num palco italiano, incentiva-se uma separação bem mais radical entre quem assiste e quem protagoniza.

No âmbito da comunalidade há um convite amplo e irrestrito para o protagonismo, é como se todos estivessem envolvidos na feitura do produto, mesmo quando apenas ouvem, batem palmas ou sacolejam.

11. Isso desemboca em aspectos de celebração coletiva desencadeados pela comunalidade – e abre uma série de outros aspectos, mas fica para outra vez.

março 30, 2011

Notas entre popular e erudito

Confiram a crônica “Notas entre popular e erudito”, de Paulo Costa Lima, que faz uma abordagem sobre a música popular e erudita na cultura brasileira.

agosto 22, 2009

Conserte-se

conserte-se

O que é o Conserte-se? Trata-se da gravação de cinco peças, compostas por compositores baianos, para distribuição via internet. Os compositores são os fundadores do grupo de música contemporânea OCA – Oficina de Composição. Agora, Alex Pochat, Joélio Santos, Paulo Costa Lima, Paulo Rios Filho e Túlio Augusto, grupo transformado em pessoa jurídica homônima, a Associação Civil Oficina de Composição Agora, gerida por três destes compositores, desde 2006.

Ouça aqui a canção Yêlelá Twendê (Paulo Costa Lima).

O projeto – que foi contemplado pelo Edital de Criação de Conteúdo Digital em Música 2008, da FUNCEB – Fundação Cultural do Estado da Bahia, sendo assim patrocinado pela Secretaria de Cultura do Estado, através do Fundo de Cultura da Bahia -, conta com a participação de quase trinta músicos, sendo seis convidados de outros estados (como São Paulo e Goiás), e tem a regência do Maestro Paulo Novais.

Comentário de Jack Fortner sobre o projeto Conserte-se!:

“Paulo Filho Rios emailed me about the composers’ website and the virtual album “Conserte-se” and his piece that is included.  I also listened to your piece “Yelelá Twendé” and was very impressed!!  It is a piece I would like to do someday, if I ever have the opportunity.  Congratulations on a beautiful creation!!! I loved the vocal parts.”

Instituições que apóiam o “Conserte-se!”: Escola de Música da UFBA, Associação Civil Oficina de Composição Agora, Museu de Arte Sacra e Pousada Âmbar.

junho 2, 2009

Ponteio-Estudo para Piano Solo

eduardo_martins_foto

O Ponteio-Estudo foi escrito especialmente para o grande pianista brasileiro José Eduardo Martins, em 1992, e explora a percussividade do piano, a possibilidade de construção de fluxos rítmicos que através de gestos descendentes e ascendentes dão origem a um desenho formal – sempre investindo na lógica de figurações motívicas, e de ambientes sonoros constrastantes entre quintas perfeitas e sétimas maiores. O resto é só ouvir…

Clique aqui para ouvir

maio 15, 2009

O Resto é ruído – Ouvindo o Século XX?

1198513-0036-it2

O crítico musical Alex Ross dedica parcas e equivocadas linhas sobre o brasileiro Villa-Lobos, avalia Paulo Costa Lima

Paulo Costa Lima

Tenho em mãos o livro O Resto é ruído – escutando o século XX, escrito por Alex Ross, que é crítico musical da revista New Yorker, lançado no Brasil pela Companhia das Letras com fogos de artifício, tradução e revisão técnica impecáveis, e presença garantida na Flip deste ano.

É um caso editorial curioso – mergulha numa tradição musical geralmente considerada hermética, vanguardista -, e ao fazer isso de forma atrativa, cumpre um importante serviço. Ao mesmo tempo, apesar da indicação para o Pullitzer, devemos observar que se fosse maço de cigarros, precisaria trazer uma inscrição de alerta – “A cultura adverte: prejudicial à imagem do seu País”.

Em 568 páginas com linguagem moderna e florida, seguindo o percurso de várias dezenas de compositores e algumas centenas de obras, dando origem a um laborioso painel, somos informados de escapadelas da mulher de Mahler, sexualidade de Copland e Partch, tentativas suicidas de Schönberg, ciúmes e invejas de muitos…; mas há apenas duas frases sobre Villa-Lobos, que entra na história apenas como penduricalho da trajetória de Milhaud (e nada mais sobre outros criadores brasileiros):

Na mesma época, o jovem compositor brasileiro Heitor Villa-Lobos combinava idéias rítmicas extraídas de Stravínski a padrões complexos percebidos na música afro-brasileira. Em obras neoprimitivistas como Amazonas e Uirapuru, Villa-Lobos compôs seções percussivas de tumultuosa intensidade. (p. 116)

Duas páginas depois, e ainda no mesmo contexto:

É possível também que ele tenha ouvido as especulações de Villa-Lobos acerca do solo comum entre a música folclórica brasileira e o cânone clássico – tema desenvolvido nas Bachianas brasileiras. (no original: great Bachianas , pelo menos esse louvourzinho)

Representar toda a música brasileira com duas frases é uma vergonha. E o que dizer das implicações derrogatórias contidas nessas poucas frases: idéias extraídas de Stravinski, neoprimitivista, tumultuosa intensidade, especulações…?

Poucos autores conseguiriam comprometer de forma tão completa, concisa e diversificada e aparentemente sem intenção, a inteligência de Villa: as idéias são copiadas, a música tumultuosa, a identidade cultural falsa (neoprimitivista) e a visão teórica especulativa.

O autor do Choros n. 8 não se enquadra nessa camisa de força. Sobre ele, o livro parece nada ter entendido. E olhe que a Semana de 22 estava logo ali para ser comentada. Uma rara oportunidade de abordar uma nova consciência, com repercussões inegáveis sobre o processo cultural brasileiro do século XX, inclusive a música popular. A propósito, neste século XX do livro, o jazz existe, a bossa nova não.

Mas, apesar de termos boas razões para um acesso de furor nacionalista, não é por aí que uma visão crítica do livro deve caminhar – até porque a tal cegueira atinge muitos outros países e regiões -, e sim pela consciência de estarmos diante de um modelo de história ultrapassado. É que o livro não escuta do século XX a crítica sistemática à estreiteza da visão eurocêntrica, canônica – uma de suas conquistas mais impressionantes. Não se dá conta que o mundo mudou e que já não precisamos do ranço dessas histórias centradas num mesmo cenário.

Outras partes do planeta quando merecem alguma atenção, apenas pipocam em feitos bem específicos e situações aligeiradas, que embora prometam outra abordagem, acabam sendo absorvidas pela estrutura central de gênios e obras primas europeus e americanos.

Toda a estratégia de imagem do livro, seu apelo emocional e editorial, se apóia justamente na esperança de transpor para o século XX a aura do século XIX – erotização das figuras heróicas da música. Cavaleiros da revolução musical brigando pela primazia das inovações – Schönberg e Stravinski, Boulez versus Cage.

Quais são as verdadeiras linhas de força da criação musical no Século XX? Como definir realmente essa força crítica e criativa da modernidade que se encarnou como vanguarda e como revolução musical? São apenas pororocas estilísticas e competição em torno de uma radicalidade mal definida? Ora, a contribuição do século XX só poderia ser escutada a partir de grandes recortes temáticos inclusivos, que reconhecessem o direito fundamental de todos criarem história e cultura. Será que isso é tão difícil?! Vejo que o livro recente do Nicholas Cook sobre o Século XX (na série de Cambridge) caminha nessa direção.

Ocorre que essa visão estreita do século não é exclusividade do autor. A literatura musicológica tem vários outros exemplos. Mas, neste caso, trata-se de um lançamento no Brasil, não há como ignorar. É preciso expor o problema, e até espanta que a editora tenha engolido silenciosamente mosca tão conspícua – a celebração dessa narrativa confundindo-se com a afirmação quase explícita de que a cultura brasileira foi irrelevante para a música do século XX. Uma sugestão inocente. Bastava mudar o sub-título – escutando uma parte do século XX…

O que se pode considerar como qualidade do livro é a disposição em construir um rico painel de informações (contextos e obras) em torno de meia centena de compositores representativos do Século. Demandou uma laboriosa pesquisa documental e um trabalho considerável de montagem de todas as informações recolhidas. E nesse sentido é um feito diferenciado.

A trajetória narrativa vai conectando a vida dos compositores com os grandes movimentos políticos e artísticos de suas épocas, e recheando o todo com informações de bastidores e descrições abreviadas das obras – mais ao estilo dos críticos do que da ¿new musicology¿. A linguagem descritiva e as informações de bastidores são parte imprescindível da estratégia de vinculação do leitor ao texto e ao tema. Mas, o que dizer de sua acuidade?

Em alguns casos, os problemas ficam evidentes. Sobre a última das Três peças para piano op. 11 de Schönberg o autor diz:

O teclado se transforma numa espécie de instrumento de percussão, um campo de batalha de fortes triplos e quádruplos.

Para quem conhece a natureza complexa dessas peças, o trabalho artesanal sofisticado, a estrutura planejada ao extremo, objeto de dezenas de artigos mobilizando gente como Forte, Wittlich, Perle, entre outros, os quais apenas vislumbram o que estava sendo feito de fato… esse tipo de comentário soa bastante vazio, fora de propósito. Ou ainda o que é dito sobre Premonições, primeira das Cinco Peças para Orquestra de Schönberg:

…figuras rápidas e agitadas unidas a vibratos, figuras de tons inteiros em giros hipnóticos, madeiras estrilando em seu registro mais alto, padrões de duas notas gotejando como sangue sobre mármore, um quinteto de trombones e tubas cospem e rosnam…

Gotas de sangue sobre mármore? Trombones que cospem e rosnam? Que musicologia estranha! São mensagens fortes para a imaginação visual do leitor leigo, mas apenas isso. A conexão com os processos musicais é débil.

É o mesmo que acontece quando descreve a 5ª Sinfonia de Mahler, nos seguintes termos:

É um drama interior desprovido de qualquer indicação programática, que atravessa uma luta heróica, uma marcha fúnebre delirante, um scherzo selvagem e derramado e um adagietto de lirismo sonhador, chegando ao coral radiante do final.

Novamente, é uma descrição bastante superficial de um objeto tão mais complexo. Se essa redução é a façanha prometida, e esse é o preço a pagar para projetar o século XX – será que vale mesmo a pena?

Algumas referências que apontam para uma outra narrativa do século XX:

Sociedade Internacional de Música Contemporânea – ISCM

Dicionário Online de Compositores Africanos

Liga de Compositores Asiáticos

Centro Latino-Americano de Música da Universidade de Indiana

Centro de Documentação de Música Contemporânea da UNICAMP

Entre muitos e muitos endereços…

abril 8, 2009

Atotô do L’homme armé

cavalaria1

Por volta de 1300, a Europa originou uma das mais candentes canções anti-armamentistas existentes até hoje.Na letra desse hit medieval recomenda-se que é preciso “vigiar contra o homem armado; com um pedação de ferro”, ou seja, para vigiar contra o homem armado, todos se armam (o que havia de mais potente que um pedação de ferro?).

A ironia dessa canção, que se faz presente em sua fisionomia melódica é levada a interagir com o ritmo de Xangô, o alujá, construindo um passeio por universos de ligação entre os dois arquétipos. Essa obra quer ser uma apologia da diversidade e da habilidade de viver juntos no globo…

Já foi executada diversas vezes no Brasil (Salvador, Rio de Janeiro, Campos de Jordão) além de ter sido apresentada no Festival Sonidos de las Americas (Carnegie Hall 1996), no Lincoln Center (Juilliard Ensemble, 2003) e ainda pela Seattle Symphonic Orchestra (2004).

A versão disponibilizada foi gravada pelo Bahia Ensemble sob a regência de Piero Bastianelli.

CLIQUE AQUI – para escutar

abril 2, 2009

A música e o espelho

pianist

Paulo Costa Lima
De Salvador (BA)

A música não diz tudo de vez. Se dissesse, não haveria porque ouvi-la de novo.

Ela parece existir dentro de uma perpétua contradição entre ser o sinal da inteireza de um determinado paraíso, e ao mesmo tempo, a evidência viva de sua incompletude.

No último sábado, no show da banda Cof Damu aqui em Salvador, fiquei junto de uma jovem que ao ouvir sua música preferida, pulava o mais alto possível, numa pungente agonia gozosa.

Seu corpo robusto – era pesada sem ser gorda – parecia querer flutuar nesses saltos expressivos – sempre alternados com gestos de quem estava tocando guitarra, logo depois bateria, e mais uma vez, saltos.

Aquele corpo parecia querer tornar-se música, e isso envolvia toda uma coreografia saltitante. Almejava flutuar. Lembro já ter sentido sensações semelhantes. Lembro por exemplo, de uma coreografia magistral feita por Graciela Figueiroa para as Quatro Estações de Vivaldi. Inesquecível!

Talvez a música não diga tudo justamente porque na realidade se constitui como uma espécie de espelho, um espelho sonoro. Para Didieu Anzieu, esse espelho sonoro marca o próprio nascedouro do sujeito, embalado pela voz materna.

Ora, esse espelho de som antecede em vários meses o estádio do espelho lacaniano, quando, através da imagem, o infante reconhece a si mesmo pela primeira vez – e sorri.

Muito já foi escrito sobre esse duplo de imagem que acompanha o nascimento do sujeito, e que paradoxalmente vem de fora – permitindo associar esse jogo de imagens com a fonte do conhecimento, da descoberta do mundo, e também, surpreendentemente, com a paranóia – o medo desse duplo que sabe sobre mim.

Anzieu, portanto, defende que esse jogo de identidade começa bem mais cedo, e não no plano visual. A identidade começa com choro, gritos, vocalizações de prazer, e tudo que a isso responde. O entusiasmo da música teria essa cena como ponto primordial.

Mas há um detalhe fundamental: se a música é espelho, é um espelho de tempo. Os jogos de identidade, do tornar-se e do destornar-se, da imersão em um campo sonoro, da aproximação ou afastamento de um centro tonal – todos tão caros à música, acontecem e desacontecem no tempo.

Ora, essas estruturas de identificação e reconhecimento transcendem o indivíduo. São matrizes utilizadas pelas coletividades para registrarem seus traços, seus ciclos e feitos.

Por isso, além de estar nesse curioso entrelugar de sujeito e objeto, a música também ocupa um lugar intermediário entre o indivíduo e o coletivo – sua comunidade mais imediata, ou a sociedade mais ampla.

Com sua realidade fugidia, a música nos embala e nos adia. Oxalá nunca termine, levando nossas almas, digo nossos corpos, pelo incrível espaço da música das esferas…