Archive for setembro, 2009

setembro 25, 2009

Crônicas Musicais

Em 2010 este blog, do compositor e professor, Paulo Costa Lima, estava um pouco inativo devido a suas outras obrigações. Mas em 2011, Paulo irá contar com minha ajuda, Marcelo Issa, para a continuidade da divulgação de sua vasta obra literária e musical. Para começar, uma crônica sobre os 70 anos de Amélia, a mulher dita como “mulher de verdade”. Então, o quê estão esperando? Degustem…

70 anos de Amélia

Nunca vi fazer tanta exigência / Nem fazer o que você me faz
Você não sabe o que é consciência / Não vê que eu sou um pobre rapaz…

– Agora em 2011 vamos comemorar 70 anos de criação da canção ‘Ai que saudades da Amélia’, e não deixa de ser uma proeza sobreviver com tanta força no imaginário brasileiro, aí tem coisa…

– o encontro entre Ataulfo Alves e Mario Lago deu muito certo, chega a ser difícil pensar que primeiro um fez a letra e depois o outro colocou música, o resultado é tão orgânico, a canção vai fluindo com uma inteireza que dá gosto…

– talvez seja uma das primeiras oportunidades (em termos de cultura de massa) de discutir a mulher brasileira, e de lá pra cá foram 70 anos de grandes transformações…

– hoje nós estamos mais para ‘deixa a Dilma me levar’ que para ‘meu bem, o que se há de fazer?’, é isso, são milhões de mulheres exercendo liderança familiar e profissional…

– talvez justamente por isso a Amélia tenha permanecido como uma espécie de pano de fundo, oferecendo uma medida das transformações que iam ocorrendo;

– mas a personagem sempre aparece nas conversas como paradigma da passividade, ‘não pense que eu sou uma Amélia não, viu!’, é o que muitas mulheres dizem hoje (mesmo quando são)…

– lá em 1942, houve um concurso para escolha do melhor samba pro Carnaval, e foi dureza enfrentar a ‘Praça Onze’ de Herivelto e Grande Otelo. Mario Lago fez um discurso esgoelado louvando a Amélia como essência da mulher brasileira! Resultado: as duas canções ganharam o prêmio.

– sobre a tal inteireza da canção: veja que Ataulfo pega o verso de Mario Lago e retira dele um ritmo que já está lá dentro. A acentuação interna do verso parece que já traz o ritmo sincopado do início (observe as proporções de 1+2+2+1+2 )

– essa proporção aponta diretamente para o universo rítmico africano; pode ser entendida como a parte sincopada do ritmo ijexá; e como o tema se espalha pela canção unificando discurso e rebolado, já viu né!

– então Amélia dançava ijexá, pelas mãos de Ataulfo? Amélia era negra, branca, morena, mulata, era tudo isso?

– o que estou dizendo é que o gênero samba passou a ser um caldeirão de fervuras e refervuras de gestos rítmicos africanos no Brasil; quanto a Amélia, existiu mesmo, foi empregada de Aracy de Almeida. Ela e o irmão (Almeidinha) falavam tanto dela que Mario Lago acabou achando que aquilo daria samba…

– mas olha, todo mundo só concentra a discussão em torno da personagem Amélia, mas tem muito mais em jogo; quem está cantando é um macho-lírico, afinal tudo não passa de suas representações… lembra Bentinho e sua Capitu;

– sempre me interesso pela ‘Outra’, aquela que não tem nome e ocupa a maior parte do texto; em grande medida é ela que define a Amélia, por contraste…

– pois é, o macho-lírico está dolorido com essa turbinada que faz exigências… Ora, se faz exigências é porque sabe o valor da mercadoria, deve ser uma gostosona…

– ela é voraz (tudo que vê quer…), interesseira e superficial (só pensa em luxo e riqueza) e apronta (…o que você me faz); coitado do cara…

– e assim, do lado dele o que aparece é rancor, decepção, queixumes (mas o desejo está lá…) tudo isso abrindo o caminho para a saudade idílica da Amélia…

– o artesanato da canção se alimenta dessa dramaticidade, seja pela dinâmica dos contornos melódicos, pelo tratamento sequencial de várias Dominantes individuais (Lá, Mi e Ré, em Dó maior), ou pela proliferação de cromatismos…

– queixas e idílios das duas primeiras estrofes são encaixados nesses quatro gestos (todos tem um clímax e depois descem); a presença das notas dó#, fá#, sol# e o conectivo sib, estranhas a Dó Maior, gera uma série de inflexões interessantes e ‘chorosas’; conjuntos complexos são formados por essas inflexões.

– no plano conceitual, o que está em questão é mais do que a descrição de um tipo de mulher, é toda a dinâmica de gênero e de sexualidade; e isso fica bastante claro na análise da oposição entre as duas imagens (uma santa, a outra… ‘turbinada’)…

– e o ‘macho-lírico’ que as imagina, o qual exerce o poder de nomear uma ‘mulher de verdade’, confirma que na dialética da sexuação, só um outro pode dizer ‘Tu és mulher!’…

– mas diz isso na direção contrária ao desejo, celebrando uma mulher sem vaidade – um atributo ancestral da feminilidade e gatilho da própria masculinidade!

– o que seria do desejo masculino sem o jogo de esconder e revelar tão próprio da vaidade? A mulher sem vaidade não seria meio homem?

– ou Amélia seria a única solução para um macho manter o seu poder e autonomia? Será que a canção anuncia o ocaso desse macho brasileiro dos anos 40 e pretende se firmar como uma espécie de canto do cisne?

– não foi por acaso que inventaram outro final para a canção: ‘Amélia que era mulher de verdade, tirava a roupa e ficava à vontade!’ A paródia reúne para deleite do ouvinte os pólos do conflito – a abnegação e a sacanagem… – e assim o caso fica resolvido.

Gago Apaixonado

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Devo, não nego, uma crônica dedicada a Noel Rosa. Sua presença constante no cenário da música popular reafirma uma condição ímpar. A trajetória de vida não fica atrás: produziu mais de duas centenas de canções num período de sete anos, morrendo antes de completar 27 (1910-1937)— um verdadeiro vulcão. Chico Buarque reconhece que vem de sua lavra uma primeira formatação da canção popular no Brasil.

No entanto, pensar em Noel como patriarca fundador é um tanto estranho porque ele constrói um personagem tão malemolente, irônico, gozador, anárquico — dizem que gostava de escrever versões pornográficas do Hino Nacional — que espécie de pai seria? – Leia na íntegra

 

MJ e a fabricação de si mesmo

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Mais do que qualquer característica pontual — voz, repertório, gênero — a construção de MJ é o personagem. Seus clips provam isso. E que personagem seria esse? Por que exerce um tal magnetismo?

Podemos evocá-lo facilmente através do estilo de movimento, uma cinética toda especial, uma dança eletrizante mas aparentemente disforme, dança sem lei que faz o corpo andar para trás, amolecer que nem borracha, deslizar sem gravidade. As crianças piram: seria um Chaplin trans-figurado pela pós-modernidade? – Leia na íntegra

França—Brasil: Allons enfants da pátria amada

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Os textos não são coisas fechadas e autônomas como tantas vezes nos acostumamos a pensar. Eles dialogam entre si, e mesmo já nascem como respostas a outros textos — de antes e de depois! Pasmem! Isso acontece porque idéia não tem casca.

Os países também não. São textos — o que significa que são intertextos. O bode que deu vou te contar (você conhece esse verso?). O fato é que parece perfeitamente possível cantar o primeiro verso do hino francês seguindo com o segundo verso do hino brasileiro, sem tirar a beleza de nenhum dos dois, que lá isso eles têm de sobra… – Leia na íntegra

O Rei como personagem cultural

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Roberto oh Roberto, que estranha potência a vossa! Como te entender? e por que preciso?

lá na década de 80 Regina Casé tinha um curioso bordão no revolucionário grupo Asdrúbal trouxe o trombone: ‘Eu te amo Roberto Carlos’! Isso era dito de forma tão escancarada que ficava óbvia a caricatura da melosidade platitudinosa, a redundância da redundância transformada em atitude crítica e cômica – Leia na íntegra

 

O resto é mar: o tom de Jobim

Tom_jobimA canção é toda cheia de onda, e o seu autor-personagem não deixa por menos. Na versão em inglês adverte(2): Don’t try to fight the rising sea (não tente lutar contra o mar que se ergue). Está aí, de próprio punho, uma declaração sobre o umbigo temático da obra, que, não por acaso, leva o nome de Wave (onda) – uma das canções brasileiras mais cantadas em todo o mundo.

A marolinha do ‘vou te contar’ e a onda inexorável, se erguendo logo após. Basta cantar esse início para perceber que, na canção, o gesto de onda é tão fundamental quanto o amor. Ou melhor, que o amor, a onda, o mar, brisa, cais, noite, estrelas, cidade, eternidade, indizível, tudo isso se mistura e se aproxima nesse verdadeiro hino… Pois é, essa é palavra que me ocorre – hino. Mas que espécie de hino seria Wave? – Leia na íntegra

Quem é o autor?

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Parece uma pessoa, mas quem me garante que assim o seja? Não há em torno de si uma aura de mistério e de ilusionismo? Ele se confunde com a fonte de onde jorram os sentidos…
Tirem o chapéu de couro de Luis Gonzaga, permanecerá o mesmo?

Imaginem por um momento que não se trata do ‘rei do baião’ e sim de um cantor de fados.

Um cantor de tangos e fados na noite carioca… pois foi assim que ele viveu os anos 39 e 40 no Rio. –Leia na íntegra

Debaixo do barro de chão

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Silêncio. Há uma zabumba pensando. Pensando? O que porventura pensam as zabumbas entre uma batida e outra, entre um tempo e um contratempo? Tum…tum. Entre a afirmação de uma ordem hegemônica (de tempos) e sua imediata desautorização pelo ataque no finalzinho do período regulamentar, fazendo um contratempo desabusado, audacioso, que quase rouba para si o status de tempo forte, quando é mera dissonância rítmica. Será?

Não sei se o leitor entende de dissonâncias, acordes dissonantes etc. Aqui faço referência a dissonâncias rítmicas, como se fosse possível transpor o conceito do campo das alturas para o campo das durações. A mais curiosa das dissonâncias rítmicas seria a hemíola, uma ordem rítmica que surge como contravenção e ameaça se tornar dominante… – Leia na íntegra

 

Meu Caro Amigo: uma homenagem a Chico e Hime

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O que há de tão especial nessa canção?

De um lado o tom da delicadeza – existe algo mais carinhoso do que um “meu caro amigo”? E que vai adiante: me perdoe por favor, se não lhe faço uma visita… É uma linguagem bálsamo que a entonação quase jocosa de Chico realça e projeta (Confira no Youtube).

De outro, o tom do desabafo, um painel de durezas elencadas em carritilha logo após “a coisa aqui ta preta”, registrando muita mutreta pra levar a situação, e nessa mesma linha: careta, pirueta, sarro, sapo, cachaça… O desenlace é inevitável: “ninguém segura esse rojão”. – Leia na íntegra

 

Só louco

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Só louco / Amou como eu amei / Só louco / Quis o bem que eu quis Oh, insensato coração / Por que me fizeste sofrer? /Porque de amor para entender / É preciso amar / Porque / Só louco…

O que há nesta canção de Caymmi que a faz tão especial? Composta lá atrás, em 1955, como ‘samba-canção’, ganha performances marcantes com Nana, Gal e com o próprio Caymmi, e certamente anuncia o jeitão/jeitinho da bossa nova (confira no YouTube).

Constrói no coração-ouvido da gente uma certa sensação suspensiva. A gente fica suspenso junto com a música, pairando no espaço da canção, no espaço desse monólogo onde não há referência direta ao objeto amado – ‘quis o bem que eu quis’ e não ‘quis o bem que eu te quis’ como às vezes ouvimos por aí -, pairando, em suma, na turbulência estática da fricção entre o reconhecimento da loucura do amor (sua insensatez) e ao mesmo tempo de sua inevitabilidade (‘é preciso amar’). – Leia na íntegra

Alguém pode querer me assassinar: poder e paranóia

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Mamãe, não quero ser prefeito,
pode ser que eu seja eleito
e alguém pode querer me assassinar.
eu não preciso ler jornais,
mentir sozinho eu sou capaz,
não quero ir de encontro ao azar

O poder é um lugar de paranóia? Para Raul Seixas a conexão é bastante palpável. Uma breve inspeção dos significantes/personagens de sua canção “Cowboy fora da lei” nos leva diretamente ao contexto, e o título já nos fala das relações entre lei, heroísmo e transgressão.

Aquilo que parece ser apenas um balacobaco inofensivo com banjo e coisas do velho oeste oferece como ponto de partida um diálogo pra lá de delirante, envolvendo ninguém menos do que mamãe – “mamãe não quero ser prefeito”. Vamos e venhamos: combinar mamãe e velho oeste é uma raridade excêntrica. – Leia na íntegra

 

De Caju em Caju… até a Cajuína

cajuMeu sobrinho americano chegou com um livrinho feito especialmente para viajantes, trazendo palavras importantes em português e sua “explicação” em inglês. Qual não foi minha surpresa ao consultar o verbete do caju: fruta típica que tem o sabor entre a pêra e o limão, com um rim grudado encima…

Um rim? Quem no mundo poderia descrever um caju como algo meeiro entre pêra e limão, e ainda por cima achar que a castanha parece com um rim? Fiquei possesso. Mas agora, lendo o verbete “caju” do mestre Cascudo, descubro que a autoria dessa comparação esdrúxula (castanha com rim de ovelha) é de Georg Marcgrave¹ (1610-1648). – Leia na íntegra

Terra

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Não há cosmonauta, simplesmente porque não há cosmos.
O cosmos é uma noção do espírito
Jacques Lacan

Nós, do século XX, construímos o privilégio de vermos a Terra de longe, e de fora. E ao vê-la assim desgarrada, parece que somos invadidos por uma ternura toda especial, uma ternura azul e branca. Como se a terra fosse um espelho, e o que víssemos fosse ao mesmo tempo um berço e uma lembrança antiga. Uma divindade em órbita, e ao mesmo tempo, o mais recôndito umbigo.

É mesmo uma sensação radical de desgarramento, tal como aquela que nos aparece em sonhos, quando pairamos na beirada do teto, ou quando saltamos e percebemos com grande surpresa que estamos flutuando — tem gente que bate os braços como se fossem asas. Acordar desses sonhos é sempre difícil, ninguém quer… – Leia na íntegra

Acabou o papel!

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Quem foi que teve a “brilhante” idéia de rimar o título aí de cima com “jingle bells”? A resposta a essa pergunta abriria caminho para uma pequena história da esculhambação brasileira através da música. Que espécie de traço cultural seria a esculhambação?

Sobre a canção ando perguntando por aí, mas ninguém conseguiu me ajudar até o momento. Por exemplo: quando é que foi “composta” a versão mais brasileira das canções natalinas? Por quem? Se o leitor sabe, que me diga. – Leia na íntegra

 

 

Atirei o pau no gato

pau ao gatoQual a emoção veiculada por aquela tradicional canção infantil ‘atirei o pau no gato’? Podemos mesmo falar de uma emoção, ou seriam várias? Devemos aderir à antiga noção de que a cada música corresponde um determinado afeto?

Na verdade, música não tem emoção – nós humanos é que as temos, na presença de acontecimentos sonoros. O fenômeno é complexo, envolvendo uma negociação entre o repertório de referência de quem ouve e aquilo que está sendo ouvido. – Leia na íntegra

setembro 17, 2009

Quem é o Autor?

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Paulo Costa Lima

Parece uma pessoa, mas quem me garante que assim o seja? Não há em torno de si uma aura de mistério e de ilusionismo? Ele se confunde com a fonte de onde jorram os sentidos…
Tirem o chapéu de couro de Luis Gonzaga, permanecerá o mesmo?

Imaginem por um momento que não se trata do ‘rei do baião’ e sim de um cantor de fados.

Um cantor de tangos e fados na noite carioca… pois foi assim que ele viveu os anos 39 e 40 no Rio.

E só se aproximou da identidade autoral que tomamos por absolutamente legítima hoje, a partir de um peteleco incentivador de Ari Barroso na Rádio Nacional, cantando o chamego ‘Vira e mexe’.

Como confiar em autenticidades? Quem foi o autor da autenticidade?

Então há um dedo de Ari Barroso em nosso Luis. E há um dedo de Getúlio Vargas na decisão de Ari Barroso de encorajar personalidades regionais brasileiras. E por aí vai… Há um dedo de todos nós que acolhemos e certificamos autenticidade ao Rei do Baião… Somos seus autores.

Vargas inventou Luis? Não, dizer isso seria exagero e perjúrio.

Quem é o autor? Quem são os autores? De qual (ou de quais) texto(s)?

O autor é um fingidor? Fingindo que é sua a idéia que deveras teve, além das outras? A autoria não deixa de ser uma performance.

Mais do que uma pessoa (menos do que uma pessoa) talvez a autoria seja um lugar, um lugar a ser descoberto e construído, um lugar ficcional. Um lugar que me chama…

Mas aí acontece essa juntura tão fina, tão bem encaixada entre Luis e forró, entre Luis e a alma de tantos que ouvem, entre Luis e Luis…

Quem vai duvidar que Luis sempre foi Luis, que havia no interior da pedra uma estátua pronta, e o autor apenas se despiu das aparas…?

Se a autoria é um lugar, então é um lugar cheio de linhas que remetem a outros tantos lugares, como aqueles galos de Cabral que tecem uma manhã com raios invisíveis…

Um lugar vazio, pois o autor tanto funda o tempo narrativo como afunda nele e reverbera, como se fosse um-pai-de-lacan perdido e reinventado… um curioso travesti da sua lei.

Basta lembrar da vertiginosa confusão entre o autor defunto e o defunto autor em Machado de Assis, distribuindo piparotes irônicos a leitores desorientados.

O autor morto: Deus está morto? (Na escola chamam isso de ‘eu lírico’. Mas que lirismo trágico, sarcástico ou simplesmente hiper-realista é esse de Machado e Nietzsche?)

Pois saibam que Roberto Carlos começou a carreira artística imitando João Gilberto numa boate carioca… Pense!

Meu Deus – e se desse certo? Imaginem a confusão que seria gerada no plano divino, na ordem do tempo da música brasileira!

E se os fados e tangos de Luis Gonzaga tivessem dado certo? Teríamos um incrível fadista de chapéu de couro e sanfona de sete baixos? Luis respeita Januário, mas… como?

E se John Cage, o grande compositor da ‘chance music’, tivesse continuado aluno de Schönberg em busca de controle e de determinação total? E Tom Zé tivesse continuado nos Seminários de Música da UFBA escrevendo partituras?

E se os minuetos de Mozart não tivessem a graça e a elegância que têm? Se Beethoven não tivesse cortejado as representações do heróico, e Brahms não tivesse cortejado aquela melancolia eufórica que anima sua obra?

São encontros marcados ou taras?

Quem é o autor? Você pensa que é você, mas na verdade não é. A propósito quem inventou a verdade, quem assina esse outdoor? O autor seria justamente esse encontro com a mentira verdadeira da criação? Um administrador de sentidos?

As decisões vêm de muitos lugares e até Getúlio interfere nelas. Não existiriam decisões específicas, causas específicas, apenas intertextos, inter-autores, inter-causas…

Vivemos num mundo violento com relação à autoria. Um mundo que nos quer com a mesma desfaçatez autores individualizados e célebres nulidades sedentas, gerando a síndrome dos 15 minutos de visibilidade.

E certamente há nesse jogo de ser e de fingir ser, de não ser e de fingir não ser, uma gozância toda especial…

Contudo, se eu não sou eu, quem é você caro leitor autor eu e você caras pálidas?

setembro 3, 2009

TERRA

caetano_veloso

Não há cosmonauta, simplesmente porque não há cosmos.
O cosmos é uma noção do espírito
Jacques Lacan

Nós, do século XX, construímos o privilégio de vermos a Terra de longe, e de fora. E ao vê-la assim desgarrada, parece que somos invadidos por uma ternura toda especial, uma ternura azul e branca. Como se a terra fosse um espelho, e o que víssemos fosse ao mesmo tempo um berço e uma lembrança antiga. Uma divindade em órbita, e ao mesmo tempo, o mais recôndito umbigo.

É mesmo uma sensação radical de desgarramento, tal como aquela que nos aparece em sonhos, quando pairamos na beirada do teto, ou quando saltamos e percebemos com grande surpresa que estamos flutuando — tem gente que bate os braços como se fossem asas. Acordar desses sonhos é sempre difícil, ninguém quer…

* A tentativa de preenchê-los com percussão em uma das versões no YouTube, mostra que essa escolha sacrifica a fluidez do efeito planador.

Talvez por isso eles tenham entrado na agenda real das nossas narrativas, desde Ícaro. É preciso voar, dizemos a nós mesmos há séculos e séculos. É preciso ultrapassar essa força que nos prende e nos amarra ao chão. E, certamente um dia, será preciso navegar pelo espaço, abandonar o berçário terra, e reverter apenas ao pó das estrelas. Flutuar é preciso.

Pois, essa me parece a maior força musical da canção Terra, de Caetano Veloso. Mais do que diz, o refrão da canção flutua, ou seja, coloca o ouvinte num certo estado de flutuação melódica (cante aí para lembrar, ou veja no YouTube):

Terra, Terra,
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?

É muito mais fácil sentir que a canção flutua do que explicar como é que ela consegue isso. Na verdade, olhando mais de perto, verifica-se que a sensação não é apenas de flutuar, mas de planar, como se fôssemos descendo até encontrar o chão do último verso, na última sílaba da última palavra — (quem jamais, te esqueceria).

Esse, aliás, um tópico amplo e muito discutido atualmente. A capacidade da música de formar gestos e redes de significado a partir do movimento — ou melhor, das metáforas que esses movimentos oferecem. Um exemplo fácil de acessar na memória musical é o Danúbio Azul de J. Strauss que faz a nave flutuar e orbitar no espaço (no filme 2001…), mostrando que a valsa pode ter implicações siderais — e ninguém havia pensado nisso antes, até então ela servia apenas para rodopiar por aqui mesmo.

No caso de Terra, vários fatores contribuem para esse efeito planador. O mais fácil de mencionar é o tratamento da harmonia. Nessa canção, a Tônica (Dó maior) representa a chegada no chão (jamais esqueceria…), e é guardada a sete chaves, só aparecendo mesmo no final da linha.

A canção apresenta uma espécie de gangorra ao ouvinte. Primeiro uma subida íngreme (onde a harmonia estática utilizada é a Dominante, Sol). Vai recheada de espinhos melódicos (dó# em sol) provenientes da utilização do modo lídio (adiante percebe-se que é lídio-mixolídio). Começa na “cela de uma cadeia” e vai até a visão erótica de alguém que estava “coberta de nuvens”, e funciona como uma preparação e armazenamento da energia que vai ser dissipada logo após, no vôo suave do refrão.

Só depois de atingir o pico é que começa a descida melódica gradual em parceria com um movimento harmônico simples e singular — colocando a Dominante depois da Tônica, e não antes (o resultado é uma Tônica mais instável, que escapole facilmente para o retorno da estática anterior, na Dominante, a ponto do Songbook se confundir, registrando Sol como Tonalidade da peça):
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O efeito de planar também depende dos espaços vazios deixados na melodia. Observe como a palavra terra é tratada: a primeira sílaba curta e acentuada, a segunda longuíssima e fraca. Há sempre uma duração longa suavizando a descida (distante, errante, navegante, jamais, esqueceria).

Os movimentos melódicos ou são descendentes (como em terra), ou em forma de arco (por mais distante, o errante navegante), ou seja, apresentam uma subida e uma descida, e são vitais para o controle do movimento geral, que desce de forma gradual, dando idéia de vôo que plana.

Esse traçado composicional tem a complexidade das coisas simples. A idéia da peça extrapola a sonoridade da voz (embora a voz seja tudo) e mesmo a sintaxe dos acordes, para convocar a sonoridade da imagem e do sonho antigo. Mais do que a voz, é o sonho que soa.

Desaprisionado pelas nuvens, esse leão de fogo acede à alegria de ser gente, planando no chão do real não sem uma certa nostalgia, uma nostalgia de navegador português, de Fernando Pessoa, e de São Salvador.