Posts tagged ‘Dorival Caymmi’

março 19, 2011

‘Fiz uma viagem’ de Dorival Caymmi

Eu fiz uma viagem
a qual foi pequenininha
Eu saí dos Olhos d’Água
fui até Alagoinha…

A análise de uma canção nos leva a pensar na lógica de suas estruturas musicais e de como essas lógicas reverberam nos meandros de imaginário que a mesma desencadeia. A canção funciona como uma espécie de espelho de quem ouve. Observe como o protagonista convoca a atenção do colega (e também a nossa) para o desenrolar da narrativa:

Agora colega veja
como carregado eu vinha
Trazia a minha nega
e também minha filhinha
Trazia meu tatu-bola
filho do tatu-bolinha…

Poderia ser Ulisses voltando pra casa na Grécia Antiga, mas o percurso é reconhecidamente menor (dos Olhos d’Água até Alagoinha). Será uma referência inicial (lágrimas?) ao desando da sorte que virá em seguida? O caso é que há aí todo um jeitão de relato épico, e de orgulho másculo, e é isso que o colega precisa ver, esses atributos fantásticos do protagonista.

Na ordem das coisas vivas e queridas ele carrega sua nega, sua filhinha e ainda um incrível tatu-bola, filho de um outro, bolinha – até o tatu tem linhagem nessa estória, e é colocado na lista como membro da família! Logo depois vem o portentoso facão, com muito aço e vinte couros de boi manso, fonte inquestionável de poder e de masculinidade, e outros bens de grande valia: 400 galinhas, 20 sacos de feijão, 30 de farinha. São sete atributos de identidade…

A canção envolve um jogo constante entre três perspectivas que se cruzam:

a. A narrativa propriamente dita com seus eventos e des-eventos;
b. As marcas de identidade desse narrador-viajante tão peculiar, retratadas com bastante humor (a bainha do facão tem couro de vinte bois!!!);
c. As artimanhas compositivas de Caymmi que garantem a integridade do todo e o deslizamento orgânico das partes.

Vale observar que existe uma platéia interior à canção, que ouve o protagonista cantando sua saga a um ‘colega’. Nós somos uma segunda platéia, e recebemos o efeito dramático desse jogo de espelho.

Obviamente tudo isso remete diretamente ao ambiente das feiras populares no interior da Bahia (e em todo Nordeste) com seus repentes e cantorias. Mas não é “folclore” (mesmo se isso existisse), é Caymmi, montando um universo de representação.

Há toda uma economia de meios para garantir que a atenção fique concentrada na estória que vai sendo contada. A narrativa se divide em duas, a ida radiante do narrador e seu ‘carregamento’ e os desandos da sorte em Alagoinha. O discurso musical se apóia em dois gestos complementares que se repetem, cada um equivalendo a um verso, ilustrados abaixo em sua primeira aparição:

Ex. 1

A canção é construída por 16 unidades desse tipo, e apenas a última é alterada, como uma espécie de licença poética pra finalizar. Em termos de proporções, estamos diante de algo do tipo: (2+2) + (2+2) + (2+2) + (2+2)………..

Ou seja: uma regularidade exemplar, sempre versos de dois compassos (Eu fiz uma viagem) complementados por mais dois (a qual foi pequenininha), do início até o fim. A lógica musical da canção depende em grande medida dessa articulação binária, da capacidade de manter uma espécie de movimento pendular que vai desenrolando a narrativa.

Ex. 2

E a atratividade das duas metades pode ser atribuída a vários fatores. A harmonia, por exemplo, que é o mais óbvio: um sai da Tônica para a Dominante, o outro da Dominante para a Tônica. E só tem isso, dois acordes.

Mas também o contorno. O primeiro saltita como arpejo, o segundo desliza em grau conjunto. Há, entre o final do primeiro e o início do segundo, um espaço considerável (de sétima menor), que empresta ao segundo verso uma expressividade, uma eloqüência, típica dessas narrativas populares. E que justifica a descida por grau conjunto.

Esse movimento binário pode ser tomado como guia das coisas simétricas que são usadas na construção do todo. Além das já mencionadas divisões de tempo (no nível macro e micro da canção) surgem também outras ramificações.

Todos os objetos de amor e de orgulho que são listados na primeira parte da narrativa – nega, filhinha, tatu-bola, facão, capoeira, feijão e farinha – reaparecem na mesma ordem, na segunda. O tal ‘colega’, que é o destinatário direto do discurso, aparece abrindo e fechando a narrativa.

Mas a pulsão simétrica acaba transitando para uma bagaceira sem fim, gerando uma enorme assimetria de expectativa. Rompe-se impiedosamente com a aura radiante do início, levando cada ‘objeto’ a um destino particularmente infeliz. O orgulho incontido do narrador-viajante vai de encontro ao constrangimento do desando da sorte. Já pensou no drama da morte de 400 galinhas? Ou na morte do tatu-bola – reconhecido membro da família? Ou a bexiga que deu na nega (varíola?) Mas, o caso é que a desgraceira é ‘cênica’ – assume efeito de espetacularidade.

Esses dois extremos (simetria e bagaceira) se encontram na construção de outra coisa, algo que tem a ver com a capacidade de rir de si mesmo, dos altos e baixos da vida, da espantosa união entre graça e desgraça, orgulho e miséria – tudo isso com amplo respaldo na tradição popular e na experiência nordestinas.

Não se pode dizer que a canção é épica. A rigor seria uma tragédia, mas no esquema milenar da tragédia o herói deve ter alguma culpa, mesmo quando não sabe disso, como é o caso de Édipo. Ora, a única fonte plausível de culpa na canção seria o orgulho do narrador-viajante.

Talvez estejamos diante de uma fábula nordestina que reforça o sentimento coletivo de que não se deve ter nada como garantido, e muito menos se gabar das coisas… Será?

O gesto final muda o andamento de forma drástica e resolve de uma vez aquela distribuição de infelicidades. Surpresa e relativização de toda a ordem usada até então. O que era monótono se apressa.

Agora veja: a harmonia, que representava o movimento da viagem através do movimento pendular, recebe um acorde diferente, o Lá Maior (Subdominante), e essa pequena-grande mudança nos informa que aquela hipnose da narrativa acabou de acabar. Ou seja: quando a harmonia ‘anda’ é porque parou! É como se o protagonista dissesse: olha, tudo isso é representação, posso acabar com toda essa lenga-lenga em um segundo… e zás!

Ex. 3

Do ponto de vista musical há várias escolhas que provocam uma convivência íntima entre simetria e assimetria. As idéias musicais sempre começam fora do tempo, e produzem muitos desequilíbrios de síncope. São calcadas numa alternância fiel de proporções de ‘1’ e de ‘2’, estilo característico da rítmica africana transposta para os nossos gêneros musicais – veja tabela abaixo. Daí a quantidade daquilo que chamamos de ‘síncopes’.

Além disso, verifica-se com certo espanto que nenhum dos 16 gestos é igual a qualquer outro. Há sempre um pequeno detalhe de ritmo ou de escolha de nota, motivado pela prosódia, criando esse verdadeiro painel de coisas que parecem iguais, mas são diferentes. E isso é muito pouco comum:

Ex. 4

O Exemplo acima lista apenas 7 variantes do primeiro verso/gesto – de um total de 16 unidades. Mesmo sabendo que é apenas uma mostra parcial do verdadeiro painel de pequenas diferenças que se acumulam ao longo da canção, já dá pra ter a sensação das sutilezas musicais envolvidas no processo do compor. Se isso é preguiça, macacos me mordam!

Esse tecido musical super-diversificado oferece um contraste marcante com a regularidade exposta anteriormente e espanta qualquer monotonia. Vejam as proporções de cada gesto:

E mais uma vez: Viva Caymmi!
PS: Dois agradecimentos: a Tuzé de Abreu que me apresentou a canção, e ao Songbook de Chediak que registra com precisão as estripulias de Caymmi.

setembro 25, 2009

Crônicas Musicais

Em 2010 este blog, do compositor e professor, Paulo Costa Lima, estava um pouco inativo devido a suas outras obrigações. Mas em 2011, Paulo irá contar com minha ajuda, Marcelo Issa, para a continuidade da divulgação de sua vasta obra literária e musical. Para começar, uma crônica sobre os 70 anos de Amélia, a mulher dita como “mulher de verdade”. Então, o quê estão esperando? Degustem…

70 anos de Amélia

Nunca vi fazer tanta exigência / Nem fazer o que você me faz
Você não sabe o que é consciência / Não vê que eu sou um pobre rapaz…

– Agora em 2011 vamos comemorar 70 anos de criação da canção ‘Ai que saudades da Amélia’, e não deixa de ser uma proeza sobreviver com tanta força no imaginário brasileiro, aí tem coisa…

– o encontro entre Ataulfo Alves e Mario Lago deu muito certo, chega a ser difícil pensar que primeiro um fez a letra e depois o outro colocou música, o resultado é tão orgânico, a canção vai fluindo com uma inteireza que dá gosto…

– talvez seja uma das primeiras oportunidades (em termos de cultura de massa) de discutir a mulher brasileira, e de lá pra cá foram 70 anos de grandes transformações…

– hoje nós estamos mais para ‘deixa a Dilma me levar’ que para ‘meu bem, o que se há de fazer?’, é isso, são milhões de mulheres exercendo liderança familiar e profissional…

– talvez justamente por isso a Amélia tenha permanecido como uma espécie de pano de fundo, oferecendo uma medida das transformações que iam ocorrendo;

– mas a personagem sempre aparece nas conversas como paradigma da passividade, ‘não pense que eu sou uma Amélia não, viu!’, é o que muitas mulheres dizem hoje (mesmo quando são)…

– lá em 1942, houve um concurso para escolha do melhor samba pro Carnaval, e foi dureza enfrentar a ‘Praça Onze’ de Herivelto e Grande Otelo. Mario Lago fez um discurso esgoelado louvando a Amélia como essência da mulher brasileira! Resultado: as duas canções ganharam o prêmio.

– sobre a tal inteireza da canção: veja que Ataulfo pega o verso de Mario Lago e retira dele um ritmo que já está lá dentro. A acentuação interna do verso parece que já traz o ritmo sincopado do início (observe as proporções de 1+2+2+1+2 )

– essa proporção aponta diretamente para o universo rítmico africano; pode ser entendida como a parte sincopada do ritmo ijexá; e como o tema se espalha pela canção unificando discurso e rebolado, já viu né!

– então Amélia dançava ijexá, pelas mãos de Ataulfo? Amélia era negra, branca, morena, mulata, era tudo isso?

– o que estou dizendo é que o gênero samba passou a ser um caldeirão de fervuras e refervuras de gestos rítmicos africanos no Brasil; quanto a Amélia, existiu mesmo, foi empregada de Aracy de Almeida. Ela e o irmão (Almeidinha) falavam tanto dela que Mario Lago acabou achando que aquilo daria samba…

– mas olha, todo mundo só concentra a discussão em torno da personagem Amélia, mas tem muito mais em jogo; quem está cantando é um macho-lírico, afinal tudo não passa de suas representações… lembra Bentinho e sua Capitu;

– sempre me interesso pela ‘Outra’, aquela que não tem nome e ocupa a maior parte do texto; em grande medida é ela que define a Amélia, por contraste…

– pois é, o macho-lírico está dolorido com essa turbinada que faz exigências… Ora, se faz exigências é porque sabe o valor da mercadoria, deve ser uma gostosona…

– ela é voraz (tudo que vê quer…), interesseira e superficial (só pensa em luxo e riqueza) e apronta (…o que você me faz); coitado do cara…

– e assim, do lado dele o que aparece é rancor, decepção, queixumes (mas o desejo está lá…) tudo isso abrindo o caminho para a saudade idílica da Amélia…

– o artesanato da canção se alimenta dessa dramaticidade, seja pela dinâmica dos contornos melódicos, pelo tratamento sequencial de várias Dominantes individuais (Lá, Mi e Ré, em Dó maior), ou pela proliferação de cromatismos…

– queixas e idílios das duas primeiras estrofes são encaixados nesses quatro gestos (todos tem um clímax e depois descem); a presença das notas dó#, fá#, sol# e o conectivo sib, estranhas a Dó Maior, gera uma série de inflexões interessantes e ‘chorosas’; conjuntos complexos são formados por essas inflexões.

– no plano conceitual, o que está em questão é mais do que a descrição de um tipo de mulher, é toda a dinâmica de gênero e de sexualidade; e isso fica bastante claro na análise da oposição entre as duas imagens (uma santa, a outra… ‘turbinada’)…

– e o ‘macho-lírico’ que as imagina, o qual exerce o poder de nomear uma ‘mulher de verdade’, confirma que na dialética da sexuação, só um outro pode dizer ‘Tu és mulher!’…

– mas diz isso na direção contrária ao desejo, celebrando uma mulher sem vaidade – um atributo ancestral da feminilidade e gatilho da própria masculinidade!

– o que seria do desejo masculino sem o jogo de esconder e revelar tão próprio da vaidade? A mulher sem vaidade não seria meio homem?

– ou Amélia seria a única solução para um macho manter o seu poder e autonomia? Será que a canção anuncia o ocaso desse macho brasileiro dos anos 40 e pretende se firmar como uma espécie de canto do cisne?

– não foi por acaso que inventaram outro final para a canção: ‘Amélia que era mulher de verdade, tirava a roupa e ficava à vontade!’ A paródia reúne para deleite do ouvinte os pólos do conflito – a abnegação e a sacanagem… – e assim o caso fica resolvido.

Gago Apaixonado

noel

Devo, não nego, uma crônica dedicada a Noel Rosa. Sua presença constante no cenário da música popular reafirma uma condição ímpar. A trajetória de vida não fica atrás: produziu mais de duas centenas de canções num período de sete anos, morrendo antes de completar 27 (1910-1937)— um verdadeiro vulcão. Chico Buarque reconhece que vem de sua lavra uma primeira formatação da canção popular no Brasil.

No entanto, pensar em Noel como patriarca fundador é um tanto estranho porque ele constrói um personagem tão malemolente, irônico, gozador, anárquico — dizem que gostava de escrever versões pornográficas do Hino Nacional — que espécie de pai seria? – Leia na íntegra

 

MJ e a fabricação de si mesmo

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Mais do que qualquer característica pontual — voz, repertório, gênero — a construção de MJ é o personagem. Seus clips provam isso. E que personagem seria esse? Por que exerce um tal magnetismo?

Podemos evocá-lo facilmente através do estilo de movimento, uma cinética toda especial, uma dança eletrizante mas aparentemente disforme, dança sem lei que faz o corpo andar para trás, amolecer que nem borracha, deslizar sem gravidade. As crianças piram: seria um Chaplin trans-figurado pela pós-modernidade? – Leia na íntegra

França—Brasil: Allons enfants da pátria amada

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Os textos não são coisas fechadas e autônomas como tantas vezes nos acostumamos a pensar. Eles dialogam entre si, e mesmo já nascem como respostas a outros textos — de antes e de depois! Pasmem! Isso acontece porque idéia não tem casca.

Os países também não. São textos — o que significa que são intertextos. O bode que deu vou te contar (você conhece esse verso?). O fato é que parece perfeitamente possível cantar o primeiro verso do hino francês seguindo com o segundo verso do hino brasileiro, sem tirar a beleza de nenhum dos dois, que lá isso eles têm de sobra… – Leia na íntegra

O Rei como personagem cultural

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Roberto oh Roberto, que estranha potência a vossa! Como te entender? e por que preciso?

lá na década de 80 Regina Casé tinha um curioso bordão no revolucionário grupo Asdrúbal trouxe o trombone: ‘Eu te amo Roberto Carlos’! Isso era dito de forma tão escancarada que ficava óbvia a caricatura da melosidade platitudinosa, a redundância da redundância transformada em atitude crítica e cômica – Leia na íntegra

 

O resto é mar: o tom de Jobim

Tom_jobimA canção é toda cheia de onda, e o seu autor-personagem não deixa por menos. Na versão em inglês adverte(2): Don’t try to fight the rising sea (não tente lutar contra o mar que se ergue). Está aí, de próprio punho, uma declaração sobre o umbigo temático da obra, que, não por acaso, leva o nome de Wave (onda) – uma das canções brasileiras mais cantadas em todo o mundo.

A marolinha do ‘vou te contar’ e a onda inexorável, se erguendo logo após. Basta cantar esse início para perceber que, na canção, o gesto de onda é tão fundamental quanto o amor. Ou melhor, que o amor, a onda, o mar, brisa, cais, noite, estrelas, cidade, eternidade, indizível, tudo isso se mistura e se aproxima nesse verdadeiro hino… Pois é, essa é palavra que me ocorre – hino. Mas que espécie de hino seria Wave? – Leia na íntegra

Quem é o autor?

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Parece uma pessoa, mas quem me garante que assim o seja? Não há em torno de si uma aura de mistério e de ilusionismo? Ele se confunde com a fonte de onde jorram os sentidos…
Tirem o chapéu de couro de Luis Gonzaga, permanecerá o mesmo?

Imaginem por um momento que não se trata do ‘rei do baião’ e sim de um cantor de fados.

Um cantor de tangos e fados na noite carioca… pois foi assim que ele viveu os anos 39 e 40 no Rio. –Leia na íntegra

Debaixo do barro de chão

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Silêncio. Há uma zabumba pensando. Pensando? O que porventura pensam as zabumbas entre uma batida e outra, entre um tempo e um contratempo? Tum…tum. Entre a afirmação de uma ordem hegemônica (de tempos) e sua imediata desautorização pelo ataque no finalzinho do período regulamentar, fazendo um contratempo desabusado, audacioso, que quase rouba para si o status de tempo forte, quando é mera dissonância rítmica. Será?

Não sei se o leitor entende de dissonâncias, acordes dissonantes etc. Aqui faço referência a dissonâncias rítmicas, como se fosse possível transpor o conceito do campo das alturas para o campo das durações. A mais curiosa das dissonâncias rítmicas seria a hemíola, uma ordem rítmica que surge como contravenção e ameaça se tornar dominante… – Leia na íntegra

 

Meu Caro Amigo: uma homenagem a Chico e Hime

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O que há de tão especial nessa canção?

De um lado o tom da delicadeza – existe algo mais carinhoso do que um “meu caro amigo”? E que vai adiante: me perdoe por favor, se não lhe faço uma visita… É uma linguagem bálsamo que a entonação quase jocosa de Chico realça e projeta (Confira no Youtube).

De outro, o tom do desabafo, um painel de durezas elencadas em carritilha logo após “a coisa aqui ta preta”, registrando muita mutreta pra levar a situação, e nessa mesma linha: careta, pirueta, sarro, sapo, cachaça… O desenlace é inevitável: “ninguém segura esse rojão”. – Leia na íntegra

 

Só louco

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Só louco / Amou como eu amei / Só louco / Quis o bem que eu quis Oh, insensato coração / Por que me fizeste sofrer? /Porque de amor para entender / É preciso amar / Porque / Só louco…

O que há nesta canção de Caymmi que a faz tão especial? Composta lá atrás, em 1955, como ‘samba-canção’, ganha performances marcantes com Nana, Gal e com o próprio Caymmi, e certamente anuncia o jeitão/jeitinho da bossa nova (confira no YouTube).

Constrói no coração-ouvido da gente uma certa sensação suspensiva. A gente fica suspenso junto com a música, pairando no espaço da canção, no espaço desse monólogo onde não há referência direta ao objeto amado – ‘quis o bem que eu quis’ e não ‘quis o bem que eu te quis’ como às vezes ouvimos por aí -, pairando, em suma, na turbulência estática da fricção entre o reconhecimento da loucura do amor (sua insensatez) e ao mesmo tempo de sua inevitabilidade (‘é preciso amar’). – Leia na íntegra

Alguém pode querer me assassinar: poder e paranóia

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Mamãe, não quero ser prefeito,
pode ser que eu seja eleito
e alguém pode querer me assassinar.
eu não preciso ler jornais,
mentir sozinho eu sou capaz,
não quero ir de encontro ao azar

O poder é um lugar de paranóia? Para Raul Seixas a conexão é bastante palpável. Uma breve inspeção dos significantes/personagens de sua canção “Cowboy fora da lei” nos leva diretamente ao contexto, e o título já nos fala das relações entre lei, heroísmo e transgressão.

Aquilo que parece ser apenas um balacobaco inofensivo com banjo e coisas do velho oeste oferece como ponto de partida um diálogo pra lá de delirante, envolvendo ninguém menos do que mamãe – “mamãe não quero ser prefeito”. Vamos e venhamos: combinar mamãe e velho oeste é uma raridade excêntrica. – Leia na íntegra

 

De Caju em Caju… até a Cajuína

cajuMeu sobrinho americano chegou com um livrinho feito especialmente para viajantes, trazendo palavras importantes em português e sua “explicação” em inglês. Qual não foi minha surpresa ao consultar o verbete do caju: fruta típica que tem o sabor entre a pêra e o limão, com um rim grudado encima…

Um rim? Quem no mundo poderia descrever um caju como algo meeiro entre pêra e limão, e ainda por cima achar que a castanha parece com um rim? Fiquei possesso. Mas agora, lendo o verbete “caju” do mestre Cascudo, descubro que a autoria dessa comparação esdrúxula (castanha com rim de ovelha) é de Georg Marcgrave¹ (1610-1648). – Leia na íntegra

Terra

caetano_veloso

Não há cosmonauta, simplesmente porque não há cosmos.
O cosmos é uma noção do espírito
Jacques Lacan

Nós, do século XX, construímos o privilégio de vermos a Terra de longe, e de fora. E ao vê-la assim desgarrada, parece que somos invadidos por uma ternura toda especial, uma ternura azul e branca. Como se a terra fosse um espelho, e o que víssemos fosse ao mesmo tempo um berço e uma lembrança antiga. Uma divindade em órbita, e ao mesmo tempo, o mais recôndito umbigo.

É mesmo uma sensação radical de desgarramento, tal como aquela que nos aparece em sonhos, quando pairamos na beirada do teto, ou quando saltamos e percebemos com grande surpresa que estamos flutuando — tem gente que bate os braços como se fossem asas. Acordar desses sonhos é sempre difícil, ninguém quer… – Leia na íntegra

Acabou o papel!

4g4

Quem foi que teve a “brilhante” idéia de rimar o título aí de cima com “jingle bells”? A resposta a essa pergunta abriria caminho para uma pequena história da esculhambação brasileira através da música. Que espécie de traço cultural seria a esculhambação?

Sobre a canção ando perguntando por aí, mas ninguém conseguiu me ajudar até o momento. Por exemplo: quando é que foi “composta” a versão mais brasileira das canções natalinas? Por quem? Se o leitor sabe, que me diga. – Leia na íntegra

 

 

Atirei o pau no gato

pau ao gatoQual a emoção veiculada por aquela tradicional canção infantil ‘atirei o pau no gato’? Podemos mesmo falar de uma emoção, ou seriam várias? Devemos aderir à antiga noção de que a cada música corresponde um determinado afeto?

Na verdade, música não tem emoção – nós humanos é que as temos, na presença de acontecimentos sonoros. O fenômeno é complexo, envolvendo uma negociação entre o repertório de referência de quem ouve e aquilo que está sendo ouvido. – Leia na íntegra