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maio 5, 2009

Em nome de quê?

riscos

Paulo Costa Lima

Há uma surdez progressiva na sociedade, especialmente entre os jovens. Os professores não cansam de repetir pra si mesmos que os jovens parecem estar ficando surdos. Que já não ouvem nada do que falam. Como se continuassem com a televisão e o computador ligados durante as aulas.

Mas para Dufour (2003) essa surdez mesmo sendo ampla é seletiva — ela incide diretamente sobre a impossibilidade de se falar ‘em nome de…’ — e afeta de modo especial os professores. Oblitera o formato tradicional de veiculação de autoridade que se apóia nessa injunção simbólica.

Em seu livro A arte de reduzir as cabeças (Companhia de Freud), Dufour analisa cuidadosamente a importância desse lugar terceiro (em nome de…) que se faz presente na justiça, na política, na educação, aliás o mesmo que aparece em conceitos como o ‘Nome do Pai’ de Lacan — a paternidade como metáfora para a formação do desejo e da ordem.

E, sobretudo, ele registra como as grandes mudanças de configuração da sociedade de hoje — da supremacia da mercadoria ao individualismo, e daí ao presenteísmo — estão afetando de forma profunda os processos de subjetivação (do tornar-se pessoa).

De como estão enfraquecendo um de seus mecanismos mais tradicionais, que é a conformação do sujeito a partir do discurso desse terceiro ausente. Conformação aí entendida não apenas como ‘estar conforme’, ‘estar sujeito a’, mas também e especialmente como reação ativa a um certo limite — caminhando contra ele. Observa ainda como tudo isso incide sobre a formação de ‘novos’ sintomas: pânico, depressão, bulimia, adição.

Com essa progressiva vaporização do limite, os sujeitos enfrentam o desafio de construção de uma autonomia que não tem propriamente onde se sustentar. O exemplo moral ou religioso, a causa, a ideologia, o ideal de formação do espírito, tudo isso cedendo espaço para uma espécie de sem-limite do mercado e de novos prazeres e gozos — no embalo de novas tecnologias.

A questão é das mais relevantes e afeta todos os setores da sociedade. Suas implicações para a área cultural merecem reflexão contínua, até porque o capitalismo cultural vem transformando profundamente a cultura, numa direção que ainda não se sabe onde vai parar — há quem profetize que arte e publicidade se fundirão (e a expectativa soa assim mesmo).

Mas há uma questão específica que me interessa sobremaneira — é a tal da surdez seletiva. A impossibilidade crescente de comparecer ao mundo da música sem o apoio do tradicional enunciador coletivo ‘em nome de…’ — santo guerreiro das tradições artísticas, do modernismo, das vanguardas.

A audição de músicas as mais diversas sempre envolveu essa ponte referencial. Ouve-se música em nome de um determinado estilo (pessoal, coletivo ou histórico), em nome de pertencimentos diversos (à cultura, a uma certa época, a uma tribo tradicional ou contemporânea), ou em nome de uma causa, e por aí vai. Há quem diga que esse pertencimento referencial é a própria definição da música.

A concepção tradicional de autoria envolve uma associação necessária entre o nome do autor e aquilo que sua arte representa. Com a fluidez dessa operação simbólica, esse tal engate parece ser um dos campos sujeitos a grandes transformações. E quem é o personagem mais representativo dessa nova quadra? Obviamente o DJ.

O DJ se pronuncia em nome de que causa? Sua performance alude ao contemporâneo (eletrônico) e relê o passado-vinil. Será que ele é o defensor da mixagem de tudo, da hibridação das culturas? Ou apenas um resíduo desse impasse contemporâneo — o representante mais puro da impossibilidade de falar em nome de quem quer que seja — investindo dessa forma numa multiplicidade desconstrutiva, que ainda assim (ou sobretudo assim) anima a festa?

Muitas vozes vão aqui se levantar para defender justamente o papel criativo do DJ, desde a escolha de repertórios até a produção de incríveis efeitos. Tudo bem. Concordo, mas estou mirando outra coisa. O que me move nesta crônica é a identificação do DJ como modelo de nosso tempo — quero saber até que medida todos os criadores de música estão sendo transformados ou remoldados pelo papel e atratividade da função do DJ! Ou seja, até que ponto a capacidade de invenção de músicas está sendo empurrada na direção da arte do DJ?

Se tal for o caso, como devemos agir com relação a uma produção de qualidade que seguia (segue) outros parâmetros? Esquecê-la? Esperar pacientemente até que essa grande onda passe? Usar as espertezas de outrora nesse novo campo? Criar cursos de DJ nas universidades? Valorizar o ensino de mixagem tanto quanto o de harmonia? É preciso lembrar dessa questão com cuidado para planejar o ensino de música em todas as escolas do Brasil. Mais do que o conhecimento de gêneros e repertórios, o que está em questão é a própria capacidade de ouvir, ou melhor, a escolha de escutas possíveis e necessárias.