Posts tagged ‘Imaginário’

abril 10, 2009

O incrível desafio entre Hulk e Obama

"De certa forma, as nossas ruas estão cheias de hulkies".

"De certa forma, as nossas ruas estão cheias de hulkies".

Paulo Costa Lima


Vez por outra deparo com antigos episódios do Incrível Hulk. Fico cada vez mais convencido de que aquele sujeito verde que explode de repente e sai correndo com as bermudas em frangalhos estava prenunciando uma série de coisas com relação ao imaginário dos anos 80.

De forma mais direta existe a conexão com o corpo. O herói-monstro apregoa uma estética de músculos e malhação, pouco celebrada anteriormente.

Só para citar um caso: o que em 1983 era apenas uma academia na Califórnia, hoje se transformou em rede mundial, com receita na casa dos bilhões. De certa forma, as nossas ruas estão cheias de hulkies. Foi uma fantasia eficaz…

Mas o que mais intriga é o caráter reativo do herói. Movido a raiva e stress, só aparece quando confrontado. Muda radicalmente o modelo consagrado de fantasia heróica.

Heróis de outras décadas queriam salvar o mundo — Super Homem, Mulher Maravilha —, fazer coisas heróicas na floresta (Tarzan, Caveira), ou mesmo proteger Gotham City. Mas o Hulk vive perdido por aí, perambulando de capítulo em capítulo até sua transfiguração apoplética. Toda a ênfase recai sobre a transfiguração em si.

Acho que é o único super-herói imbecilizado, menos sabido que sua forma original. Se fosse possível entende-lo como canalização de uma necessidade coletiva, como pára-raios de uma raiva espalhada na sociedade, que de repente se expurga através do personagem, essa crônica ficaria bem mais interessante.

Talvez expurgue a perda do paraíso da liberdade sexual e a perda da utopia. A agressividade que antes estava voltada contra os centros de poder locais e globais (da família ao capitalismo), agora flutua ‘livremente’ e incomoda.

Enquanto a narrativa dos outros heróis envolve uma relação amorosa — difícil mas potencializada pelos ‘poderes’ do personagem —, o Hulk sempre aparece para atrapalhar alguma ligação que o personagem cientista estava prestes a realizar. Pois é. Quem vai querer transar com aquela coisa — teria uma genitália verde?

E aí temos um ruidoso paradoxo: toda a ênfase colocada sobre o corpo sarado e potente convive com um ambiente de dessexualização. Estaria a série ensinando à nova geração o caminho de um narcisismo exacerbado, onde a energia sexual ficaria direcionada para o corpo modelar? O fato é que ela aprendeu.

Seria, dessa forma, o prenúncio de uma época que precisou dizer a si mesma que ‘o sonho tinha acabado’ ? Começa o pesadelo? Pois não foi a década de 80 que matou logo cedo o maior arauto do ‘faça o amor e não faça a guerra’— Lennon ? Voltam à cena com toda força temas como nacionalismo, materialismo e religião.

Não seria essa tendência à transfiguração uma marca claramente estabelecida pela década de 80? Sai Lennon entra MJ com seu thriller e dança lunática — sou mau, sou mau. Mau como um pica-pau. Não estamos no clima do Hulk? Os jeans agora são rasgados (relendo um ícone central ao período anterior), os passos ariscos, o corpo exposto como centralidade de uma sexualidade e etnia incertas.

Num certo sentido, o ET é uma espécie de Hulk. Só que encantado. Essa outra solução imaginária coloca o sonho num nível celeste e existencial. Mas o ET é um monstro, que quando encurralado faz coisas prodigiosas. Nesse caso os humanos adultos é que são os imbecis — criaturas das décadas de 60 e 70 —, incapazes de entender a vida e os sentimentos…

O re-encantamento é feito pela relação entre a criança e o monstro-sábio, que talvez tenha um tom cinza-esverdeado… A propósito, não tem sexualidade. Seria macho ou fêmea?

Daí para Reagan e Thatcher seria apenas um passo — lideranças capazes de controlar essa degenerescência do sonho. Ou seja: capazes de operar uma transfiguração política, permitindo o florescimento de um sistema global de negócios, reprimindo tudo que estivesse em seu caminho — e inaugurando uma era que apenas agora, com a crise, encontra o seu limite histórico.

Nesse sentido, o Hulk é bastante atual e incita a imaginação sobre os novos modelos de fantasia, sobre a difícil retomada de um projeto de participação coletiva, cuja estabilidade surge, dessa vez, patrocinada pelas evidências de destruição planetária (simbólica e real).

Sendo assim, e levando em conta a necessidade retórica de um final retumbante, diria que o Hulk é o verdadeiro oponente de Lula e Obama — personagens bastante reais dessa nova quadra.