Brasil, um lugar de fala!

Você já leu a Interpretação dos Sonhos, de Freud? Lá dentro tem um relato sobre o ‘Sonho de Irma’. Se não me falha a memória trata-se de um sonho com sua cunhada. Pois é, há uma injeção no sonho, e uma garganta exposta, com pintas de possível inflamação, e é o Dr. Freud que aplica a injeção. Então, conteúdo sexual latente em família não é coisa nova quando Nelson Rodrigues afirma que “todo homem merece uma noite com a cunhada”.

De um lado o ímpeto germânico de entender e classificar tudo, de revelar o sentido dos sonhos, a ciência dos sonhos. Do outro, uma refinada esculhambação que celebra uma curiosa flexibilidade de limites – é flexibilidade ou é estupro mesmo?

Eu continuo preferindo falar em flexibilidade, mesmo de forma irônica. Vale observar que Nelson Rodrigues não recomenda comer a cunhada todos os dias – apenas uma noite. E que escolha preciosa da palavra ‘merece’. Fico pensando que espécie de merecimento é esse… Quantos sentidos essa formulação acumula?

É bem verdade que a noção de ‘identidade cultural’ acabou pagando um preço pela super exposição e quase banalização depois de Stuart Hall, na década de 90. Mas não os fenômenos que recobria, e recobre. No caso, a plasmação de uma perspectiva cultural que atua sobre todos, e em especial sobre a criação. Talvez, algo que seja melhor entendido como um lugar-de-fala do que como um estilo.

Nem sempre nos damos conta de que a irreverência de um Machado de Assis autorizando o protagonismo de um morto – o nosso estimado Quincas Borba, para quem a tumba foi um novo berço -, segue por linhas semelhantes. Habitamos um lugar-de-fala desconstrutivo, galhofento, ávido por afirmar que a ordem simbólica dos centros do mundo aqui não vale, ou simplesmente não existe.

O escritor Machado de Assis (foto: Divulgação)

Ora, as principais queixas (sintéticas) recentes sobre o modernismo são:

a) seu ascetismo e autoritarismo – sempre centrado na crítica da representação;
b) sua teleologia estética, sempre pescando o mais novo como ideal de sentido;
c) seu minimalismo típico ou ‘economia de meios’;
d) o culto do gênio ou do visionário – e a valorização dos repertórios canônicos;
e) as exigências não-prazerosas feitas à audiência.

Um jogo divertido é ver como cada uma dessas linhas de síntese encontra (ou não) refração na produção brasileira. Se por um lado celebramos um gênio como Villa-Lobos, por outro, dificilmente poderíamos classificá-lo como rigidamente ancorado numa teleologia estética, ou apontar com facilidade seu lado minimalista; ou mesmo representá-lo como visionário (no sentido dado à palavra pelo povo do norte). E muito menos essa história de ceder às exigências não-prazerosas com relação à audiência…

Avançando algumas décadas, vamos nos ver em plena execução da obra ‘Santos Football Music’ de Gilberto Mendes. A obra apaga os limites entre a música de vanguarda (anos 60/70) e o futebol brasileiro. A sala de concerto vira campo de futebol, com torcida, charanga, gritos, vaias, mas também uma série de sonoridades típicas das texturas modernas – glissandi, clusters etc. Minimalismo, nunca. Ascetismo, nem pensar. Teleologia: até sim, mas muito transformada pela hibridação. Afinal, como entender nosso modernismo?

Há uma noção cultivada pela psicanálise da cultura, que pensa o Brasil a partir da dificuldade de implementação de uma ordem simbólica unificada em torno de uma referência paterna estável. Todos os agrupamentos humanos que construíram o Brasil tiveram que lidar com um afastamento radical de sua ordem simbólica de origem. Os índios pelo simples extermínio, os negros pela escravização, mas também os portugueses, assumindo uma posição completamente distinta daquela da Metrópole.

Muitas coisas no Brasil seriam conseqüência dessa frouxura de laço com a dimensão da Lei simbólica, da ordem, do respeito às regras, da articulação social – e também pelo lado da cultura, a celebração da flexibilização dos limites, dos repertórios, o tal lugar-de-fala do qual falamos.

Ocorre que com a emergência daquilo que vem sendo chamado de pós-modernismo, no âmbito do processo de globalização e capitalismo cultural, tudo que se vê é derretimento de limites, evaporação de narrativas mestras, prazer imediatista etc… Os psicanalistas chamam isso de queda da função simbólica do Pai.

Mas nós, que sempre tivemos essa função comprometida pelo caos e violência da colonização, vivemos agora (e sempre) um paradoxo todo especial: fomos pós-modernos mesmo antes do modernismo. Como é que pode??????

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: