Adeus Macho Contumaz


meu filho se aquiete, olhe… uma vez smetak me disse, aos setenta anos, “agora enfim descobri o prazer de não fazer nada” era tarde, havia inventado mais de cem instrumentos.

diga-me agora macho contumaz:
os bagos ou a memória de uma glória qualquer?

conte-me rápido rápido porque lampejou na história,
mesmo que seja a do bairro; do clã; do hospício;
na pata da pátria, nas fímbrias do peloponeso,
nas artes ou nos desastres…

você napoleão dormido
nordestino cabra da peste,
capitão de indústria

inventou o direito autoral
patenteou a aspirina e o urubu?
organizou o carnaval em lisboa?
a lavagem de hong-kong?

desesperado pelo sentido que porventura alcance
do outro lado da folha, do cabo, da vida

e deixe que no divã digam que isso é “desejo”
– ora, esse é o nome que lhe deu sigismunda

de que adianta protestar contra a testosterona? ou contra a metafísica?
para aristóteles a definição de homem é conhecimento…

e mesmo deus assim o fez com as escrituras
(mostrando que também é macho)
e as quer ressoando pelo tempo adentro e afora

tudo isso vem da inveja ou perplexidade de não conseguir parir?
deves desafiar o pai e tecer os fios de sua baboseira heróica?
olhe aqui pai: vinte e cinco séculos o contemplam!

vocês girafas que batem o pescoço
bodes que batem cabeças
pavões de rabo enfunado

principalmente quando se sabem néscio, reles, mediano?
você vendedorzinho de meia tigela, conta-nos suas vitórias comerciais…

tio milton, quando bebia, virava proprietário em nova iorque;
o vizinho, pra não ficar atrás, elogiava o carnaval de caruaru – “o confete
bate na altura do joelho” – “fora daqui, seu mentiroso”…

você alucinado presidente schreber de algum senado alemão,
modelo para tudo que se sabe da paranóia,
transando com deus para gerar uma nova raça…
e assim denunciando o modelo-limite da masculinidade heróica

glórias e tresglórias infectando o planeta
com narrativas e contabilidades
com o dinheiro que mede o clamor das vitórias alegadas

os exércitos, os territórios, as leis
as revoluções, os golpes, o projeto e o projétil…

os uivos e silvos no esporte popular
a invenção do motor a diesel, o vapor, a eletricidade
a ideia de matar deus (denunciá-lo morto),
limpar a raça,
exterminar as bactérias
ganhar as maratonas e povoar a lua
caçar as baleias
empalhar os tigres
domesticar os mestiços
e pacificar o mundo!

e ainda, ó cultura, a pujança das idéias e os pilares dos gênios
ó joana sebastiana porque inventaste a fuga?
emanuelle, isaca, luisa, carla e karlinha;
karlinha querida, de onde tiraste a “falsa consciência”?
alberta e a relatividade das coisas

e mesmo as pugnas da justiça e da igualidade
servindo de assunto para bagos e favos inesquecíveis
definir o estado – o estado sou eu!
cortar a cabeça do rei
cortar a cabeça de todos os opositores

expandir os impérios
matar o che (mataram o sonho americano?)
matar um beattle

e mesmo a dramaticidade meio biruta que invade esse texto,
como se glória não houvesse em desnudar as mitologias
e pedir reparação já! – reinventar o feminismo, “de dentro” da horda

tudo isso parou – acabou, vai acabar, está declinando com o Pai…
pra onde irá toda essa energia?
e o que será da ordem cosmológica, e do relógio do Big Ben?

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