Santa vaselina: lubrificante universal

O caso foi o seguinte. Minha amiga Neide trabalhava naquela época como auxiliar de enfermagem de um hospital psiquiátrico na Lapinha, tradicional bairro popular de Salvador – o mesmo local onde ficam guardados os carros do caboclo e da cabocla, símbolos maiores da independência brasileira na Bahia. Suspeito que seja um lugar meio mágico. Talvez seja a água…

Aliás, o mesmo local onde, aos nove anos, tive que convencer meu primo João Pequeno, personagem de outras tantas histórias, a não jogar uma bomba (de São João) no pé do Governador recém-eleito, que passaria no desfile cívico em alguns minutos. De nada adiantou, tive que procurar ajuda dos adultos para impedir o espírito festivo de João Pequeno. Detalhe: era época da ditadura de 64. Imaginem o bode que daria.

Mas, voltando ao hospício, o médico de plantão avisou que tinha um compromisso inadiável numa famosa gafieira ali perto. Sairia de fininho, pois dava para passar sem maiores problemas pelo fundo do hospital, numa ligação muito comum naquele tempo entre quintal e quintal. Não vai ter nada, disse ele confiante. Você resolve qualquer coisa. E, além disso, eu volto logo.

Neide ficou nervosa. Isso era lá responsabilidade que jogassem nas costas dela? E ainda sem proveito? A noite parecia mais calma que de costume. Já estava mesmo achando que nada haveria de mais quando o caldo entornou de vez.

Um dos pacientes mais agressivos, psicóticos daqueles que ficavam encerrados em quartos que só tem uma pequena portinhola para colocar as refeições, deu um jeito de enfiar a cabeça para fora da portinhola, e não conseguia recolher de volta…

Ele gritava com toda força, sem conseguir resolver o problema e cada vez mais desesperado. Os outros pacientes acordaram e também começaram a gritar espalhando o caos pelo sanatório. O que fazer? Pensou em sair correndo feito louca. Mas os loucos estavam lá dentro, e ela devia resolver o caso…

Tentava acalmá-lo, alisava a cabeça toda raspadinha de interno veterano, tentava mostrar que só com calma ele conseguiria encontrar o jeito de desfazer o que havia provocado. Mas nada! E se tivesse um problema maior? Se ferisse o pescoço ou a nuca? Se sufocasse?

A cabeça de Neide girava que nem birro doido. De repente, não mais do que de repente, a inspiração surgiu. Foi até a enfermaria, mas precisamente ao depósito de medicamentos e trouxe algo correndo. Retirou apressadamente do tubo e espalhou por toda a cabeça e pescoço do coitado.

Daí em diante foi uma questão de segundos, talvez meio minuto. Ele continuou forçando a barra, mas a cabeça reagiu de outra forma. Passou rapidamente pelo buraco apertado, e o impulso foi tão grande que ele quase caiu no chão do outro lado.

O médico voltou. Deu muita risada do acontecido. Elogiou a sua presença de espírito e sua idéia genial. Quem pensaria nisso? Santa vaselina!!!

PS – As novas gerações talvez nem saibam usos e funções da vaselina, tão habituadas com a liberdade sexual e os lubrificantes aquosos. Naquela época a vaselina era o lubrificante universal. Minha amiga realizou uma estratégia cognitiva de translação de uma habilidade de um campo para outro.

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