Ensaio do Trio

 

Pára! Pára!! Pára o carro
Olegário!!!
Não tá vendo que tá andando de banda?
– Mas Seu Osmar, o carro já quebrou há muito tempo,
é o povo que está empurrando!
(famoso diálogo entre Osmar Macedo e o motorista da fubica em 1951)

 

O ensaio, como tradição literária, é esforço interpretativo;
o que dizer de profundo sobre o trio elétrico?
Tanta espetacularidade dispensa maiores justificativas?

Neste ensaio, persigo o ideal formalista de fazer coincidir forma e conteúdo: um discurso com três pontas (trio) e uma questão-síntese

A primeira ponta é o frevo.

Há uma ligação de umbigo entre trio elétrico e frevo pernambucano.

Dodô e Osmar tiveram a idéia de colocar a tal fubica na rua em 1951.

Poucos dias antes passara por Salvador o Clube Carnavalesco Vassourinhas, de Recife, em direção ao Rio.

O frevo traz marcas indeléveis da herança afro-brasileira.
Não tem nada de africano na melodia ou na harmonia,
poderia ser tocado até como minueto! Mas os ritmos!!!

As idéias rítmicas impingem aos compassos da Europa acentos e tensões que são tipicamente brasileiros. Imprescindível para o espetáculo. Imagine se funcionaria com música de valsa? Tem que ter malandragem…

Mas aí surge um fino detalhe. E essa é a segunda ponta do argumento. O carnaval que predominava nas ruas de Salvador até então era o do corso e dos préstitos – o desfile das beldades de elite com fantasias e acenos do alto de carros especialmente preparados para a ocasião.

O povo ficava na Barroquinha e na Baixa dos Sapateiros em cordões e afoxés. Consta que em décadas anteriores, até ópera italiana era usada nesse carnaval dos mais ricos.

Portanto, a presença da fubica, tocando frevo, era uma subversão enorme. E o cerne da subversão era que o frevo colocava como centro das atenções o próprio povo dançando. O corpo.

Quem já assistiu à passagem de um trio elétrico trazendo em torno de si todo o repertório humano de um bairro popular saberá do que estou falando. Encantamento total na junção entre música e dança.

O calor e a euforia são tão grandes que alguns tiram a camisa pra rodar por cima da cabeça. Tem casais abraçados, crianças montadas no pescoço dos pais, gente de meia idade, mulheres em grupos, vendedores ambulantes vendendo e dançando, disputa pra ver quem faz a melhor pirueta, e aquele empurrão no meio do bolo…

Os ritmos afro-brasileiros oferecem situações de equilíbrio e desequilibrio, convocam o corpo em movimento, o rebolado. Esse, aliás, o espírito que Caetano celebra através do verso ‘só não vai quem já morreu’.

Portanto, naquela virada de 1951, algo mudava na Bahia do governador Octávio Mangabeira, figura maior da nossa vida democrática. Um ‘momento histórico’ proporcionado pela bolha democrática entre o Estado Novo e a ditadura de 64?

No modelo que daí surge, o espaço público vai ser ocupado mais democraticamente. E essa energia vai favorecer uma qualidade musical diferenciada, embalada pelo virtuosismo do frevo, e pela “livre” aventura de botar uma música na boca do povo. Caetano, Moraes, Armandinho… A terceira ponta do discurso relembra Manoel José de Carvalho. Para ele, as dinâmicas de rua são construções sociais com enorme peso histórico. A cidade de Salvador teve 300 anos anteriores de experiências com o cortejo de rua. Principalmente no contexto religioso, com procissões e festas de paróquia.

O aparecimento do trio acaba mobilizando essa memória grupal histórica pelas ruas da cidade. O trio se encaixa na dinâmica ancestral construída em torno do andor das procissões. É como se tudo estivesse pronto aguardando sua chegada.

Nos anos seguintes vai ocorrer um processo espetacular (e muito original) de design para a festa, da carroceria de um caminhão até os nossos fulgurantes monstrengos de hoje – grandes palcos ambulantes.

Síntese:

Hoje estamos em outro planeta: cordas, cachês e abadás. E mais: camarotes e celebridades. Ganhou-se em gestão, profissionalização e expansão. Perdemos em participação, diversidade e qualidade musical.

As músicas não ficam mais no ouvido durante anos, estão congeladas em sua funcionalidade homogênea… Aliás, a funcionalidade excessiva ameaça congelar quase tudo (raras exceções).

Será que o impulso democrático dos últimos anos, essa bolha que esperamos definitiva, vai ter a força e o discernimento para fazer brotar um novo modelo que recupere as coisas perdidas?

Mais do que questão, uma demanda: multiplicar os ganhos (socializando-os) e potencializar a qualidade/diversidade cultural.

*Este texto contou com a leitura prévia de Paulo Miguez.

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