Quem é o Autor?

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Paulo Costa Lima

Parece uma pessoa, mas quem me garante que assim o seja? Não há em torno de si uma aura de mistério e de ilusionismo? Ele se confunde com a fonte de onde jorram os sentidos…
Tirem o chapéu de couro de Luis Gonzaga, permanecerá o mesmo?

Imaginem por um momento que não se trata do ‘rei do baião’ e sim de um cantor de fados.

Um cantor de tangos e fados na noite carioca… pois foi assim que ele viveu os anos 39 e 40 no Rio.

E só se aproximou da identidade autoral que tomamos por absolutamente legítima hoje, a partir de um peteleco incentivador de Ari Barroso na Rádio Nacional, cantando o chamego ‘Vira e mexe’.

Como confiar em autenticidades? Quem foi o autor da autenticidade?

Então há um dedo de Ari Barroso em nosso Luis. E há um dedo de Getúlio Vargas na decisão de Ari Barroso de encorajar personalidades regionais brasileiras. E por aí vai… Há um dedo de todos nós que acolhemos e certificamos autenticidade ao Rei do Baião… Somos seus autores.

Vargas inventou Luis? Não, dizer isso seria exagero e perjúrio.

Quem é o autor? Quem são os autores? De qual (ou de quais) texto(s)?

O autor é um fingidor? Fingindo que é sua a idéia que deveras teve, além das outras? A autoria não deixa de ser uma performance.

Mais do que uma pessoa (menos do que uma pessoa) talvez a autoria seja um lugar, um lugar a ser descoberto e construído, um lugar ficcional. Um lugar que me chama…

Mas aí acontece essa juntura tão fina, tão bem encaixada entre Luis e forró, entre Luis e a alma de tantos que ouvem, entre Luis e Luis…

Quem vai duvidar que Luis sempre foi Luis, que havia no interior da pedra uma estátua pronta, e o autor apenas se despiu das aparas…?

Se a autoria é um lugar, então é um lugar cheio de linhas que remetem a outros tantos lugares, como aqueles galos de Cabral que tecem uma manhã com raios invisíveis…

Um lugar vazio, pois o autor tanto funda o tempo narrativo como afunda nele e reverbera, como se fosse um-pai-de-lacan perdido e reinventado… um curioso travesti da sua lei.

Basta lembrar da vertiginosa confusão entre o autor defunto e o defunto autor em Machado de Assis, distribuindo piparotes irônicos a leitores desorientados.

O autor morto: Deus está morto? (Na escola chamam isso de ‘eu lírico’. Mas que lirismo trágico, sarcástico ou simplesmente hiper-realista é esse de Machado e Nietzsche?)

Pois saibam que Roberto Carlos começou a carreira artística imitando João Gilberto numa boate carioca… Pense!

Meu Deus – e se desse certo? Imaginem a confusão que seria gerada no plano divino, na ordem do tempo da música brasileira!

E se os fados e tangos de Luis Gonzaga tivessem dado certo? Teríamos um incrível fadista de chapéu de couro e sanfona de sete baixos? Luis respeita Januário, mas… como?

E se John Cage, o grande compositor da ‘chance music’, tivesse continuado aluno de Schönberg em busca de controle e de determinação total? E Tom Zé tivesse continuado nos Seminários de Música da UFBA escrevendo partituras?

E se os minuetos de Mozart não tivessem a graça e a elegância que têm? Se Beethoven não tivesse cortejado as representações do heróico, e Brahms não tivesse cortejado aquela melancolia eufórica que anima sua obra?

São encontros marcados ou taras?

Quem é o autor? Você pensa que é você, mas na verdade não é. A propósito quem inventou a verdade, quem assina esse outdoor? O autor seria justamente esse encontro com a mentira verdadeira da criação? Um administrador de sentidos?

As decisões vêm de muitos lugares e até Getúlio interfere nelas. Não existiriam decisões específicas, causas específicas, apenas intertextos, inter-autores, inter-causas…

Vivemos num mundo violento com relação à autoria. Um mundo que nos quer com a mesma desfaçatez autores individualizados e célebres nulidades sedentas, gerando a síndrome dos 15 minutos de visibilidade.

E certamente há nesse jogo de ser e de fingir ser, de não ser e de fingir não ser, uma gozância toda especial…

Contudo, se eu não sou eu, quem é você caro leitor autor eu e você caras pálidas?

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6 Responses to “Quem é o Autor?”

  1. nossa..um misto de aula de sociologia com filosofia! bem interessante o post!

  2. O tema que abordou é bem complexo. O que é ser celebridade nos dias de hoje? Temos tantas que dificilmente sabemos distinguí-las. Temos até celebridades instântaneas…

    Artistas imunes a mídia? Impossível. Até os que uns resistem por bastante tempo, mas sempre se rendem. Afinal, quem é que faz a o capital girar?

    Veja os casos MV Bill e Marcelo D2. Todos que antes criticavam a mídia e hoje comem nas mãos dela.

    Blog
    http://maynabuco.blogspot.com/

    Siga-me no Twitter
    http://www.twitter.com/maynabuco

  3. Muito bom texto, explanou bem diante de um tema tão complexo

    O príncipe bêbado e a plebeia equilibrista – Um encontro marcado
    Olá!
    Acabo de postar no meu blog o texto Fábula “http://cemiteriodaspalavrasperdidas.blogspot.com/2009/09/o-principe-bebado-e-plebeia.html”!
    Para acessar o texto o link direto é
    http://cemiteriodaspalavrasperdidas.blogspot.com/2009/09/fabula-vampiricaou-seria-vampirista.html
    Cemitério das Palavras Perdidas
    http://cemiteriodaspalavrasperdidas.blogspot.com/

  4. É o star-system, um verdadeiro lixo. Artista algum deveria ser alçado ao status de super coisa, uma vez q suas habilidades não são supra humanas, apenas parecem maravilhosas qdo concorrem apenas com um grupo pqno, no caso, os dos q tem visibilidade na mídia. Se todo mundo tivesse um emprego comum e fizesse lá sua artezinha por diversão, poderíamos notar q o limite é mto próximo entre todos.

  5. Que viagem você fez nesse texto. Concordo que toda celebridade diz que é dificil a vida de celebridade, mas nunca vi ninguém querer deixar de ser celebridade. Já o caso do vídeo, ela se expôs e viu que pode ganhar dinheiro com isso, está aproveitando a sua fama instantânia. Me lembro de uma música de Gabriel o pensador, que tem uma parte da letra assim: A sua bunda está empinada, mas sua moral está embaixa.

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