Onde está o centro do mundo?

Terra (foto)

Paulo Costa Lima

Queremos informar a todos vocês que tudo anda sobre controle e por que não dizer que tudo vai no mais perfeito e harmonioso equilíbrio e o centro de atenções que está prestes a perder as forças não deixa de ser uma baboseira geral e não vai além do espaço físico entre o homem e o picolé…

Texto de abertura do espetáculo Falamassa (década de 70)

A pergunta não deveria ser levada tão a sério. O centro do mundo se desloca com a gente. Afinal, só conseguimos perceber as coisas a partir de nossas próprias coordenadas.

Todavia, a idéia de que há centros e periferias nunca foi tão forte e operante. A grande maioria das pessoas do planeta compartilha essa visão e distribui sua atenção de acordo com uma escala de valores orientada a partir daquilo que é visto como centro.

Obviamente, o grande tema da centricidade é a distribuição ou concentração de poder. O fenômeno afeta todo mundo e incide sobre inúmeras áreas da vida. Mesmo assim não parece ser muito discutido.

As informações tendem a circular desses centros focais para os pontos periféricos, e quase nunca ao contrário. O capitalismo de hoje é basicamente um capitalismo de controle da atenção. O direcionamento da atenção precede e determina a formação de mercados.

As comunidades minúsculas olham para as pequenas como referência, e estas para as cidades, que miram nas metrópoles, que por sua vez se encantam com os grandes pólos da economia mundial. Tudo encadeado e firme. Tudo embalado pela agenda da mídia global.

O jogo se repete de rua em rua e de bairro em bairro, os menores desembocando nos maiores, e as pessoas buscando com tenacidade os melhores lugares no espetáculo da centricidade.

No Brasil o problema tem proporções consideráveis. Sabemos muito pouco da realidade uns dos outros – apesar de vários programas dedicados ao tema -, com a diferença de que Rio e São Paulo expressam livremente essa ignorância através da mídia nacional.

O mesmo acontece no nível das capitais de estado: tendem a ignorar ou simplesmente não prestar atenção aos municípios vizinhos ou distantes. Seus jornais falam apenas dos acontecimentos da metrópole, a não ser quando o assunto é ‘folclore’ ou ‘autenticidade’…

Houve uma atriz baiana atuando em novela de projeção nacional, que passou pela dura experiência de ter que aprender a imitar o sotaque padrão utilizado para representar a Bahia e os baianos.

O que seria da moda, das celebridades, do sucesso em geral, do marketing, do cinema, e até mesmo da excelência acadêmica – as universidades tendendo a grifes e cada teoria com seu guru e Meca -, o que seria disso tudo sem o charme da polarização em direção a lugares do mundo e pessoas que são considerados os paradigmas de cada um desses segmentos?

Ora, não se sabe ao certo quantos graus de charme ou centricidade haveria no mundo. A coisa varia, depende do assunto.

Se a questão é ‘ser um lugar adiantado’ podemos imaginar que o pessoal de Tanquinho de Feira olha para Feira de Santana (aquela cidade sempre citada por Jô, que realmente fica perto de tudo embora ele não acredite). Daí para Salvador. De Salvador para São Paulo, e de São Paulo para New York. Neste caso a escala de valores tem aproximadamente 5 graus.

É claro que esses níveis são desdobrados em dezenas de outros, a partir das sutilezas de cada posicionamento na escala – Tanquinho de Feira tem lá dentro vários graus de centricidade, só é uniforme quando comparado com algo externo.

Se o assunto fosse ‘finesse’, bem sabemos que o povo de New York olharia para Paris, aumentando a escala para 6 níveis. Não custa lembrar que a China está vindo aí com toda força, na esperança de alterar essas rotas de atenção.

E não apenas os lugares, mas também as pessoas se avaliam em termos de escalas semelhantes, algo que afeta diretamente suas vidas, moldando percepção e auto-estima.

O sistema trabalha para disseminar o desejo de que todos busquem uma melhor posição no jogo, se aproximando das celebridades e dos pontos focais. O sucesso da motivação coletiva é o sucesso do próprio modelo.

Não parece viável investir num discurso de ‘esquerda’ – leia-se transformação do mundo – que não envolva o componente de crítica ao centrismo. Muitos discursos pseudo-transformadores se apóiam totalmente no status da centricidade, na força do modelo. O consenso da valoração da centricidade às vezes parece tão natural que assume ares de realidade.

Mas afinal, quais seriam as alternativas para quem não quer jogar esse jogo?

Ir morar na Chapada Diamantina? Desmascarar continuamente o discurso contaminado pela centricidade? Brigar por uma nova sensibilidade? Trabalhar pela exaltação de outros centros? Trabalhar pela criação de micro-comunidades dispostas a experimentar com a construção de autonomia e libertação dessa paçoca?

A tarefa não é nada simples, para complicar as coisas, muitas vezes, aquilo que detém o status de centro é realmente melhor, exibe qualidade. De nada adiantaria simplesmente inverter tudo.

Há de se reconhecer que os próprios paradigmas de eficácia e de excelência estão no centro da questão. O que os indígenas vêm fazendo há séculos só agora pode ser reconhecido como fruto de uma consciência ecológica imprescindível para o planeta.

Bem faz o povo simples, que apelidou uma parte nada cosmopolita do corpo humano de ‘centro do mundo’, colocando o nosso tema de cabeça para baixo, gozando com a nossa própria sensibilidade e vulnerabilidade.

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6 Responses to “Onde está o centro do mundo?”

  1. Zhōngguó (o nome da China, em mandarim) significa “país do meio”, ou “reino central”. Alusão ao “centro do mundo” que há milênios eles acha(va)m ser, pelo desenvolvimento e refinamento de sua cultura (e talvez também pela falta de contato com o resto do mundo). Curioso estarem voltando a essa condição, agora consensualmente, pelo menos como “potência” econômica…

  2. Danças ao redor de centros que dançam ao redor de centros, sempre concêntricos em alguma escala ou dimensão, até onde não se sabe… Caos ou cosmos?…

    Grande abraço, Paulo!

  3. adorei, eu, um eterno descentrado
    abs

  4. Faltou falar da decentralizacao inerente a’ web, que permite um musico em Tanquinho de Feira interagir com um musico em qquer lugar do Globo em pe’ de igualdade. Fico imaginando quantas Tanquinho de Feira estao conectadas, enquanto escrevo esse post.

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