Democracia cultural versus democratização da cultura

cultura

cultura + democracia = educação
educação + democracia = cultura
cultura + educação = democracia

O que vai acontecer com a gente brasileira? Basta olhar para as cidades e constatar o quanto está posto para ser resolvido (ou não) pela democracia. Lembro de Cazuza: Mostra tua cara… Quem é que paga pra gente ficar assim?

Democracia não é coisa fácil. Até parecia, antigamente… Mas veja, ainda não consagramos no coração da sociedade a ética inviolável da ‘coisa pública’.

Democracia não tem fórmula. Precisa ser inventada junto com o caminho. Por exemplo: o que seria democracia na cultura? Que coisas precisariam acontecer para que tal conjugação fosse possível?

A linguagem engana. Não poderia ser ‘conjugação’ — porque essa palavra se refere a duas coisas distintas. Se a cultura fosse uma coisa, e a democracia outra, uma das duas seria caolha, aliás, ambas[1].

É também por isso que a expressão ‘cultura popular’ deixou de fazer sentido (idem para cultura erudita). Ambas veiculam uma idéia de cultura menor do que o todo.

Também não avançaremos muito com a estranha figura da ‘democratização da cultura’ — levando cultura do centro para as periferias — pois ela supõe que a cultura pré-existe com relação ao processo. O modelo esquece que todo mundo pode e deve criar.

A única forma de sair desse imbróglio é falar de democracia cultural — necessariamente uma espécie de amálgama, onde uma coisa personifica a outra. Onde uma coisa vai sendo reconstruída como função da outra. E onde o horizonte buscado é o do cidadão com potencial de criação e fruição crítica.

Na montagem desse amálgama todos os repertórios precisariam estar abertos à flexibilização, não existindo garantia prévia de estabilidade dos repertórios, mas também nenhuma restrição.

A capoeira pode dialogar com a formação de atores? Claro que sim. Por que ainda não desenvolvemos algo revolucionário nessa direção? Da mesma forma: design popular e moda, mestres de percussão do candomblé e música erudita contemporânea, cordel e multimídia… Estamos falando de amálgamas e não de misturas. E obviamente, queremos que tudo isso deságüe na escola.

Mas lembre, há um princípio mestre: para que haja avanços, a gente brasileira precisa aprender a construir autonomia responsável. Essa formulação resume a preocupação com desenvolvimento, distribuição de riqueza e inteligência ambiental. Não há como fugir desse princípio.

Qualquer coisa que chamemos de democracia cultural — e a rigor não precisamos de duas palavras — deverá dialogar com esse horizonte, melhor, de dentro dele. Quais os processos que facilitariam essa caminhada?

Como artistas, somos treinados a fazer perguntas de dentro dos nossos campos. Como desenvolver a música (?), grupos de excelência, cadeia produtiva, novos mercados ou campos teóricos etc. Essas perguntas são importantes, mas elas não definem sozinhas as prioridades. A cultura não pode ser entregue apenas às demandas de cada setor.

Ora, a música não tem problemas, e sim as pessoas. Um problema musical só faz sentido quando há pessoas à sua volta, significando-o. Equivale a dizer que os problemas (musicais, culturais) têm historicidade e peso estratégico (político). Algo está muito errado com os caminhos da especialização radical.

A favela — como parâmetro de referência das zonas onde a nação ainda não se fez presente como deveria — não pode ser parâmetro exclusivo, mas exige que pensemos a cada passo se as soluções propostas a contemplam. Precisa estar incluída nos diagnósticos e soluções.

De Cazuza prá cá houve avanços inegáveis. Temos hoje um número bem maior de líderes e gestores comunitários. Os avanços dependem disso. Mas ser liderança ‘orgânica’ não é mole.

Os líderes enfrentam problemas de muitos tipos: dificuldade de mobilização e sustentabilidade (credibilidade da idéia de mudança e de democracia), violência circundante, apelos de alienações diversas — das proporcionadas pela mídia global aos caminhos populistas ou simplesmente corruptos, e por aí vai.

De alguma forma, nessa mesinha colocada no meio do barracão — onde logo mais acontecerá a reunião da associação cultural unidos do jardim esperança — está também colocado o destino da gente brasileira

Mais do que pungente, o desafio envolve conectar mundos aparentemente isolados (e esse isolamento esplêndido é o nome de nossa tragédia) — as decisões ‘culturais’ da grande mídia, dos produtores e celebridades, as decisões culturais das universidades, as políticas de governo — e, principalmente, pairando sobre tudo isso, a construção de um processo político virtuoso.

Ah! Que junção extremosa entre essas duas palavras: virtude e política. Então é dessa magnitude que se tratava o tempo todo?! Muito mais amplo que ‘políticas públicas’ de cultura — cuja flexão republicana nos últimos anos tem dado tanto rebu — imagine pegar o touro completo pelos chifres?

Alguns respondem com aquela famosa chave de ouro: educação.  Está certo, mas remete a médios e longos prazos. Eu queria uma solução pra ontem, ou pelo menos, pra já…

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[1] Mas a dicotomia entre cultura ‘de baixo’ (dos populares, ou de raiz) e cultura ‘de cima’ (de alguma elite) reverbera no mundo da palavra cultura há vários séculos.

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2 Comentários to “Democracia cultural versus democratização da cultura”

  1. Recomendo que dê uma olhada no novo projeto do MinC para discussão aberta e democrática de políticas públicas para a Cultura.

    http://www.culturadigital.br

  2. Caro Peixe

    As transformações recentes proporcionadas pelo MINC são extremamente importantes (e estão reconhecidas no texto, no penúltimo parágrafo).

    Porém, a questão colocada é bem mais abrangente.
    A construção de democracia cultural passa pela transformação da estrutura dos meios de comunicação, pela transformação da escola pública, e mesmo do sistema político (entre outras). Daí a questão: para onde vai a gente brasileira?

    O universo da cultura pode ser visto como uma espécie de laboratório onde todas essas macro-questões são refletidas. Mas há uma diferença de escala.

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