Chico, Mané e Beiçola – todos três na corriola

Paulo Costa Lima

Chico é o leitor, mané o editor, e beiçola é quem escreve. No jargão de hoje, produtor de conteúdos. Não, não. Melhor mesmo é colocar o beiçola como leitor. Consumidor tem ou não tem cara de beiçola?

Pode até ser engraçado, mas quem vai ler insulto? Deixa o criador ser beiçola, fica mais fofo.

Só tem esses dois jeitos, porque o editor tem que ser o mané. Ele tá no meio, e não tem nada a ver com a ingrisilha. Como não? Ele não é amigo do gandola?

Mas o gandola não faz parte desse jogo – só virou folclore depois do Jô.

Nesse jogo da corriola o mestre vai impondo a cada pessoa uma sentença, e ninguém deixa a roda sem cumprir a lei: “cantar como galo, grunhir como porco, cacarejar de galinha, mugir de vaca, rezar uma oração, abraçar alguém…” (Danças e Ritos populares de Taubaté, p.39).

Você quer dar ares de semiose digital pra Chico, Mané e Beiçola – só porque a expressão não existia em nenhuma máquina de busca – mas combinou com o pessoal dapuc (?), vai dar rolo -, e no Aurélio o que aparece é outra coisa: arruaça e motim de rua…

Não tire atenção da beleza da imagem. Muito mais intensa que galos tecendo uma manhã. Temos aqui também porcos, galinhas, vacas e abraços, tecendo manhã, tarde e noite, nessa rede global de teúdos e conteúdos.

Escafedeu-se a obra prima, perdeu a forma. 240 canções do robierto (deixa assim mané!) num único suporte, meu amigo comprou. Pra onde vai a obra ora a obra não vai pra onde ia?

socorram-me, subi no … ônibus, em Marrocos
Acaba a ex-clusividade da obra? Os fãs, esses beiçolas empedernidos querem virar Chico – ou vice-versa. Os beiçolas querem ser gente. Produzem suas obras-b com grande entusiasmo: “posso divulgar o meu blog?”

Uma galinha grunhiu na Austrália.

obra-b, c, d, obra-r, rabo brabo de obra: abób-obra. Os beiçolas e o fim de repertórios canônicos. Beiçolas do mundo, uni-vos! E assim transito da semiose para o valor da rebeldia. Inventem uma geringonça diferente que a gente possa chamar de mundo. Já!

E talvez, o que um dia foi arruaça, num lugar desigual e violento como a bahia do século XIX/XXI tão bem pintada por João José Reis* e seu relato da vida do liberto Domingos Sodré, possa mudar…

Foi certamente um ambiente desse tipo que cravou na expressão seu viés de censura – entre brincadeira e motim, os três são denunciados. E cabe ao não nominado o maior peso nessa história.

A culpa é do beiçola? – uma marca de preconceito contra esse personagem sem nome que ameaça intervir no jogo? Afinal, ele é o único que rima com ‘curriola’ (fala-se assim), e vem no final da denúncia, recebendo todo o peso rítmico e métrico…

(Quantas mortes violentas já ocorreram no brasil em 2009 em função de curriolas do mal? 450 em Salvador)

A minha obra-b está pronta. Agora pensem em outras crônicas que tratariam de novas possibilidades:

eleitor, mídia e políticos (Chico, Mane e Beiçola);
os três macaquinhos;
o antes, o agora, e o depois (que beiçola terrível seria o depois)
o espírito, a alma e a mente (obrigado Pedro!)
a tese, a antítese e a síntese (êta beiçola danado!)
a trindade, o ego, o super-ego e o id (um beiçola intratável…)
Entro por uma porta e saio pela outra…

* Imperdível o livro do grande historiador baiano, com as teias de resistência e vida traçadas na bahia do século XIX, Companhia das Letras.

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