Quadrilha

Quadrilha_Carlos Drummond de Andrade

Paulo Costa Lima

Quase nada sobre J. Pinto Fernandes. Apenas uma foto em preto e branco, com dedicatória e um grande charuto entre os dedos. Unhas polidas e esmaltadas como convém aos que lidam com a batuta – fraque ou casaca? Depois do casamento com Lili, as turnês da cantora (de voz afetada e fixada numa certa ária de Mozart) acabaram trazendo-o por essas bandas onde regeu três concertos e meio e arrotou intimidade com Karajan, tudo isso tentando abocanhar o Teatro Castro Alves (anos 70).

Como despertasse alguma simpatia entre incautos, o pessoal daqui percebeu o perigo e enxotou-o de volta. A demarcação de território não é exclusividade dos tigres. Um pouco de álcool a mais fez com que um belo dia, descesse para reger a orquestra de pijamas. Um escândalo… Há mulheres assim como Lili, o coitado do Joaquim fez de tudo, serenatas, canções especialmente compostas para sua voz incipiente, músicas que dedicou e batizou com algo do seu nome, nada disso adiantou. Era uma musa inatingível e atraía o compositor como se fosse uma espécie de atonalidade distante.

Enquanto isso, Maria ali de junto, tesa, tímida e um tanto magrela, doidinha por ele e pelo método Orff. Deu pra tia, educadora musical modelo, fundou corais e associações e Joaquim não viu nada. Pensava em Lili e em cosmologia, Smetak alertara para o dilema: “os eruditos insistem em colocar um conteúdo no espaço, enganam-se quase sempre, ao invés de dominar suas criações, são dominados por elas; já os populares, sentem mais do que sabem o que sentem e ainda se satisfazem em tocar para a lua!” Daí para o suicídio foi uma questão de compassos, polirrítmicos e polimétricos.

O desgosto de Maria não encontrou remédio, urubu quando está de azar, Raimundo, que pelo menos a amava, morreu de desastre, indo a Aracaju. Tocava viola em três orquestras e quatro conjuntos de casamento. Com a crise, há sempre aprendizes e outros periquitos que aceitam tocar em qualquer lugar por qualquer preço; o público, exigente e detalhista na mesma proporção das harmonias do pagode, nem nota que a “alegria dos homens” pode estar sendo um desespero tonal, cheio de glissandos e arranhaduras.

Teresa não teve outra escolha além do convento. Das aulas com Magnani guardou o fervor de gregorianos e já que uma coisa leva à outra, deu-se envolvida com os arquivos da diocese, e os exemplares de partituras seculares nele contidos. Com o tempo, olhava para a música como algo que se exuma, que vale pelo quanto morre, pelo tempo de enterro e esquecimento. Em sua cela, uma flâmula estendida na parede: musicologia: que os mortos enterrem os vivos! João já não a aborrecia com convites e propostas, foi para os Estados Unidos estudar etnomusicologia na Califórnia, minto, na Flórida ou Texas, e desenvolveu progressivamente uma mania de anotar, colecionar e medir comportamentos e usos musicais; quando esgotasse a lista teria aprisionado seu objeto.

Para que brincar de adivinhação com essa caixa preta que faz e ama a música que somos nós? Restrinjamo-nos ao visível e palpável: “João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém. João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes…” (Carlos Drummond de Andrade).

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4 Comentários to “Quadrilha”

  1. Por que eles sempre colocam o convento como uma fuga?

  2. muito bom o post!! parabens

  3. eu nunca me lembro de quem é esse texto,,mais eu acho ele muito engraçado.eu sempre tive pena dos que morreram,mas o esperto foi o J. Pinto Fernandes

  4. Tenho orgulho de blogs como esse que respiram cultura…
    Parabéns, Os jovens de hj precisam é disso mesmo.
    Adoro Carlos Drummond.
    Vide. http://mulheresecharme.blogspot.com/

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