MJ e a fabricação de si mesmo

Michael_Jackson

Paulo Costa Lima

“Homens promovidos ao estado de produto” [1]

Mais do que qualquer característica pontual — voz, repertório, gênero — a construção de MJ é o personagem. Seus clips provam isso. E que personagem seria esse? Por que exerce um tal magnetismo?

Podemos evocá-lo facilmente através do estilo de movimento, uma cinética toda especial, uma dança eletrizante mas aparentemente disforme, dança sem lei que faz o corpo andar para trás, amolecer que nem borracha, deslizar sem gravidade. As crianças piram: seria um Chaplin trans-figurado pela pós-modernidade?

Esse personagem que canta e dança, atrai para si os adereços mais incríveis. Na verdade ele configura o corpo como adereços — e naquele famoso sacolejo de quadris que sempre emoldura uma pegadinha radical, parece nos dizer que o próprio pênis é um adereço —, existiria irreverência maior?

Com isso, personifica a rebeldia e a ‘aventura’ na terra do sem-limite, sua never-land interior, seu rancho permanente, de onde nunca pôde sair. Preso a um intrincado processo de fabricação artificial de si mesmo — impedido de seguir o caminho da identificação com um pai violento — transforma essa auto-fabricação (misérias e delícias) no foco de atenção midiática.

Repete compulsivamente esse fantasma de que não há pai, de que ele se inventa sozinho — tal como seu personagem. Isso vale tanto para a dimensão ficcional como para o MJ real, que apresenta seu filho ao mundo de maneira esdrúxula, do alto de um hotel. Aparentemente não há registro do que é um filho. Como poderia haver?

Preso nessa condição, enxerga-se/ama-se em todos os meninos, no quase delirio dessa horizontalidade fabricada, onde ele também é um deles – terreno minado da père-version. Mas a onipotência da fama bate de frente com o sintoma — no final das contas ele realizou o desejo do pai, tornando-se o J. mais famoso. Esse conflito deve ter exigido medidas drásticas.

Ignora a genética e fabrica-se branco — não há limite. Envolve-se, portanto, numa intricada desconstrução impossível de sua negritude, que grita por todos os seus poros, em cada jeito de corpo, em cada foto de família. Dolorosa travessia ao nada da impossibilidade de identificação.

Imaginem um MJ futuro, já no auge das manipulações genéticas… O que aprontaria? Não é justamente isso que aquele famoso clip ‘black and white’ anuncia, fundindo dezenas de faces?

Ora, MJ não é apenas o corpo que morreu anteontem, mas também o conjunto bilionário de todas as representações que dele fazemos. Representações vivas que se materializam em covers espalhados pelo mundo afora. Quem não gostaria de deslizar eternamente com aquele gingado?

E ao oferecer ao mundo seu processo de fabricação artificial de si mesmo como objeto de adoração, está absolutamente alinhado com a necessidade pós-moderna de desvinculação da instância terceira de um Outro — pai, pátria, religião, instituição, causas sociais e políticas, moral etc.

E está também alinhado com as boas práticas do mercado. Um mercado para o qual a auto-referência representa o caminho da maior lucratividade, pela via da globalização, que se entranha nesse declínio do Outro através da flexibilização econômica — atores sem nada acima deles que impeça a maximização das trocas.

Como sinal dos tempos, o percurso de MJ absorve diversos traços característicos da vã tentativa de remediar a carência do Outro:

a) o discurso para o bando, para a gangue (esse é o ambiente dos clips), onde se distribui a responsabilidade da ‘auto-fundação’;
b) o impulso para a adição (mesmo que pela via da medicalização ou do consumo), um recurso imprescindível para enfrentar depressão e dor;
c) os signos da onipotência tão comuns ao estrelato;
d) um implacável enfraquecimento do espírito crítico (não há a quem prestar contas), daí para o endividamento, um passo;
e) as novas formas sacrificiais e a manipulação do corpo;
f) a negação da diferença sexual e geracional;
g) a exposição da vida íntima como artifício de mercado (prenuncia os blogs) [2].

Do ponto de vista das mercadorias, MJ representa um ponto culminante no processo de fetichização. Foi aí que ouvi do meu amigo João Carlos Salles a famosa tirada do velho Marx sobre o futuro do capitalismo, na direção do fetiche: as mesas vão dançar…

E nós, o que faremos sem essa pirueta fantástica fingindo ser coisa nossa?

[1] Flexão pós-moderna de uma famosa crítica ao capitalismo: “homens reduzidos ao estado de produtos”

[2] Cf. Dufour, A arte de reduzir as cabeças. Editora Companhia de Freud.

Anúncios

18 Responses to “MJ e a fabricação de si mesmo”

  1. Paulíssimo maestro: Uns hints para medir a estação.
    1. a Despalquização e desplateização do espetáculo. O artista ignora o palco e a platéia, fundidos e fodidos
    2. A dessacralizaação do espetáculo, o artista acima do show.
    3. A fetichização do corpo.
    4. O eu coletivo, identificações.
    Bota essa cabecinha prodigiosa pra pensar esses hints, magister

  2. Ate que fim um texto falando de MJ que realmente fala algo muito bom e não cai na fórmula “vida e obra”.

  3. puta cara, belo post gostei muito…tudo tem bastante coerencia, e nunca vi a historia do mj por esse ponto =D

  4. Oi, Paulo!

    Um dos melhores artigos que li até agora sobre o Michael Jackson. Vc analisou ele não só como artistas, mas como a invenção de um produto cultural de sucesso que atravessou gerações, parabéns!

    Abraço

  5. Belíssimo texto, fora do lugar-comum de tudo o que eu já li sobre MJ. Com certeza, um texto à altura do que ele foi e fez pela música.

  6. Oi passando para desejar felicidades e dizer que adorei o blog, peço para dar uma olhadinha no meu: http://gilbertogil.wordpress.com/ ´´Descrevo,como vejo´´ é um blog de humor criado no intuito de fazer humor ao mesmo tempo informar, lá você pode se divertir e fazer donwloads de livros como crepúsculo, o segredo e muito mais..acompanhar o concurso beldades do orkut 2009 e votar. Espero que gostem e comentem, dessa forma iremos crescer juntos….valeu…!

  7. Olá Paulo,
    parabéns pelo texto! Muito interessante. Concordo com várias coisas, o Michael jackson era mesmo um personagem e usava seu corpo para as transformações que queria em cada momento. Mas foi um ícone, um gênio da música pop.

  8. Caro Prof. PC LIMA,
    mais uma vez venho parabenizá-lo pela análise ímpar que traz este belo texto. Ontem eu vi uma entrevista de MJ que deixava bastante claro a que ponto a compulsão consumista do Cantor chegava: comprar 80% de produtos de uma loja, sem sequer saber o preço da mercadoria. Mito e realidade se confundiam na vida desse personagem, cujos filhos eram obrigados a andar de máscaras para ocultarem suas identidades. Um pai que não é biológico, um filho que tem uma mãe de identidade não revelada. Nessa embolada de vida no Never Land falida em meio a clips gravados junto aos rotos, aos horrores, às favelas tem um adulto, aquele que permanece num estado de infância prolongada e criativa, que nutre o mito de Peter Pan, o de uma eterna criança que se recusa a crescer, como um modelo de uma idade feliz e inocente que não se deixa contaminar pela realidade. Essa mesma realidade que foi pouco a pouco lhe asfixiando pelo excesso de consumo até matá-lo, transformando-o em um outro produto que agora será certamente reciclado até perder seu prazo de validade nas prateleiras das principais casas do ramo.

  9. Parabéns!

    Enfim, algo sensato sobre MJ !!
    Abçs

  10. Parece mentira,nao, uma pessoa tao irreverente dona do seu proprio sucesso ir assim para nos do nada,pois nao estavamos acompanhado o que estava acontecendo com ele,foi tudo muito rapido.Que pena.

    Atenciosamente
    Marsia

  11. TEXTO LIIIIIIIIIIIIINDO! “MENSAGEM” PERFEITA!
    PARABÉNS E OBRIGADA… CÉLIA MARIANO

  12. Olá Paulo,

    primeiro gostaria de me apresentar, meu nome é Heraldo Paarmann , sou musico guitarrista e produtor musical , recém pós graduado em Docência superior em musica ( FMU ).

    Fiquei muito feliz em ler seu artigo no site do terra, sua visão estética a respeito do Rei do Pop foi realmente especial. Hoje temos uma carência incrível a respeito das reflexões que todos deveriam fazer a respeito dos acontecimentos de nossa época, poder ler suas palavras visando a reflexão sobre o que esta gigantesca pista quer nos dizer me encheu de felicidade.

    Parabéns pela “ousadia” de fazer essa reflexão, precisamos mais textos assim nesse país em processo desenfreado de fetishização ( se é que esta palavra existe hehehe ) .

    Caso vc tenha interesse te conhecer um de meus trabalhos http://www.quartetokroma.com ou http://www.myspace.com/kromaquartet é um quarteto de guitarras elétricas aonde fazemos interpretações cameristicas de diversas obras populares e eruditas. De certa forma fazemos uma mini master class sobre apreciação musical durante nossas aprsentações, gostaria de saber a sua opinião sobre este trabalho.

    Abraços

  13. Paulo boa tarde….

    Meu nome é Sandra sou estudante de direito em São Paulo, trabalho na revista Istoé.
    Gostaria de parabenizá-lo pela coluna que escreveu sobre MJ, quando lí pensei nossa ele captou tudo o que eu sempre pensei sobre o assunto, esta tudo bem explicito é realmente o que ele era.

    A sociedade esta tão desgotosa de sí mesmo que precisa de um personagem para admirar, se identificar e etc, não importanto este verdadeiro ou inventado, é triste esta ilusão toda.
    Precisamos de pessoas realistas assim como você para continuar expondo a dura realidade.

    Parabéns Grata
    Sandra Elisa

  14. Profundo é só o que tenho a dizer, fã de MJ, sem uma explicação lógica, admiração, rebeldia, não sei, só sei que tudo que vc falou é magnífico e que pode ser a mais pura verdade.

    Hethene

  15. Já li seu artigo três vezes e sei que lerei muito mais. Fantástico. Ele me faz pensar…
    Janete

Trackbacks

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: