Caminhos da análise musical

Paulo Costa Lima acena para "a esperança de construção de um painel mundial de culturas musicais"

Paulo Costa Lima acena para "a esperança de construção de um painel mundial de culturas musicais"

Paulo Costa Lima

O leitor provavelmente pouco se dá conta do quanto já foi escrito e pensado sobre análise de música – ou seja, sobre as diversas maneiras de explicar o que está acontecendo quando se ouve música. Como funciona? Por que soa assim, ou assado? O que significa?

Todas essas questões (e muitas outras) aparecem quando o desafio é ampliar os horizontes do entendimento humano sobre esse fenômeno. Há textos complexos sobre o assunto desde a Grécia Antiga – pelo lado do Ocidente.

Aristóxeno, aluno de Aristóteles, nos deixou um belíssimo tratado sobre o ritmo: Como entender o ritmo? Quais os seus principais componentes? Como analisar algo que não permanece quieto num lugar, vai passando e levando nossa atenção junto com ele? Como dividi-lo em vertentes de estudo? – são questões sobre as quais ainda não há consenso.

Mas foi só a partir dos últimos duzentos anos que o discurso ancestral da teoria da música – que enfocava explicações do tecido musical de forma mais genérica, sem se deter sobre obras individuais – foi se diversificando em abordagens analíticas específicas.

A teoria da música cultivava abordagens amplas – regras de contraponto, encadeamento de acordes, ornamentação etc. A análise musical surgiu para fazer jus à individualidade da obra. Na verdade, só pôde surgir a partir do momento em que a própria noção de obra de arte passou a ser prioridade – evidentemente coisa da modernidade. Como entender a 3ª Sinfonia de Beethoven, chamada de “heróica”? Como Beethoven construiu sua unidade interna?

Pois é, a partir do final do século XIX foi ganhando força a idéia de que as chaves de explicação da música estavam dentro dela mesma, e não do lado de fora, em algum programa ou força extra-musical. O líder dessa corrente foi Hanslick, e sua pregação meio que hipnotizou o século XX.

No século XX os melhores esforços foram dedicados ao desenvolvimento da idéia de estrutura em música. As estruturas da música seriam portanto entidades analíticas deduzidas do próprio texto musical: estruturas harmônicas, por exemplo, ou reduções revelando entidades capazes de sintetizar o percurso realizado.

Uma outra noção muito potente vem reforçar esse campo de estudo e de invenção – a ideia de que há células musicais, pequenos motivos ou formas básicas que se diversificam ao longo do texto musical, garantindo unidade, coerência, economia de meios – tudo de bom no ideário do analista moderno.

Mas eis que a partir dos últimos vinte anos, vai surgindo uma tendência contrária a essa lógica estrutural e organicista (ou seja, oriunda do desenvolvimento de células e motivos). O que vemos hoje é uma diversificação quase que espetacular dos discursos analíticos sobre música.

A primeira transformação a merecer registro é a repotencialização do contexto como fonte de insights e mesmo de modelos preciosos para o entendimento da música.

Se o analista moderno típico buscava entender a ordem e unidade internas da Sinfonia “Heróica”, o analista de agora pretende conectar essa visão estrutural ao melhor entendimento possível das representações sobre heroísmo na época da criação da Sinfonia.

Um breve levantamento de áreas de construção teórica, na direção de novos modelos analíticos apontaria o seguinte:

a) a esperança renovada de que modelos de análise da linguagem possam ser transpostos para o entendimento de música; comparecem aí os enfoques da narratividade, do desenvolvimento de uma semiótica da música, a revisão apurada das relações entre texto e música, intertextualidade, etc…

b) a esperança de que modelos cognitivos, ou seja, modelos que tentam entender como o cérebro humano processa o sinal música, possam contribuir de maneira diferenciada para o entendimento da música; por exemplo, através do uso de tecnologias recentes, tais como ressonância magnética, e mapeamento do cérebro que ouve…

c) a esperança de construção de um painel mundial de culturas musicais, capaz de promover uma visão abrangente da criação, dos estilos e gêneros;

d) a esperança renovada de que novos modelos matemáticos e computacionais possam aprofundar o entendimento do fenômeno;

e) a esperança de suspensão dos enfoques teóricos tradicionais em prol de uma priorização da experiência musical; ou seja, a busca de ferramentas da fenomenologia, para tratar dos aspectos mais diretos da vivência sonora/musical – tempo, espaço, sentimento e jogo;

f) a esperança de produção de novos modelos a partir de diversas conexões interdisciplinares;

g) a esperança de construção de um meta-discurso sobre análise, capaz de classificar todos os discursos analíticos…

Entrei por uma porta, e saí pela outra…

Anúncios

7 Comentários to “Caminhos da análise musical”

  1. Sem dúvida o texto acima assinala a constate pesquisa em relação à música.Os meios materiais e instrumentais assinalados são chamamentos e por mim observados com relevância.Os afins da música e suas estratégias sempre serão assinaladas por estudiosos e com essa postura váriops tópicos surgem entre eles o fato histórico.No mês de agosto estarei lançando o livro “Vertente do Amor e Morte” -Reflexões sobre o Amor e Morte na ópera Tristão e Isolda de Richard Wagner edits/Scortecci SP e Bow Art International SRL(UE.Parabenizo pelos falares.

    • Oi Paulo, esse seu texto demonstra acima de tudo a sua ânsia de estar conectado com as principais correntes de pesquisa em música, analisando, criticando e comparando, a meu ver muito pertinentemente, todos os aspectos envolvidos. Poderia dizer, fuçando em todos os buracos.
      Isso anda fazendo sentir-me velho aos 36 anos. Ou andando em círculos. Ou sei lá mais o quê.

      Nos batemos pelos corredores!

      Abrs

  2. O livro “Vertente do Amor e Morte” será lançado na livraria Arlequim,pça 15 48,paço Imperial no dia 05 de agosto de 2009 a partir das 18 hs.maiores detalhes serão fornecidos pela mídia.grato

  3. GOSTEI MUITO DO TEXTO EMBORA TUDO ESSE DISCURSO É FANTASTICAMENTE SUBJETIVO!(ENTREI POR UMA PORTA E SAI POR OUTRA)MUITO LEGAL ESSA CITAÇÃO

  4. Paulo Costa Lima cada vez escreve melhor, com maior clareza e, sem sacrifício da abrangência, com exemplar capacidade de síntese. Este seu texto deve ser enviado à lista de Bibliografia relacionada ao seminário MUS 502 da UFBA, Estudos Bibliográficos e Metodológicos I, e ao “REPEM-Belém”, ambos desenvolvendo linhas de discussões sobre as análises e, daí, seus limites e potenciais para descrições de música, subsquente interpretações e … quem sabe? … algum dia, hipotéticas explicações. Paulo, junte-se a essas listas.

  5. Pelo meio da passarada existe um estrada, que passeia no perãmbulo do destino fazendo de tu menino, que de proeza faz crescer a mais pura maestreza e de quebra deixa exaurir a infinita magnitude da leveza do ser,
    quero rodas, quero barômetro, sem deixar de esperimentar o gosto gelado do veneno da aurora, e nesta mesma hora vou me entendendo na contagem do tempo a tempo mastigando a guloseima da fartura, e nessa mistura o que fica é a gostosura de poder viver a lisura do próprio intelecto fenomenal.
    ESTRADA.
    Uma homenagem á um grande mestre que esta sempre atento a inovação.(P.C.L.)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: