O Resto é ruído – Ouvindo o Século XX?

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O crítico musical Alex Ross dedica parcas e equivocadas linhas sobre o brasileiro Villa-Lobos, avalia Paulo Costa Lima

Paulo Costa Lima

Tenho em mãos o livro O Resto é ruído – escutando o século XX, escrito por Alex Ross, que é crítico musical da revista New Yorker, lançado no Brasil pela Companhia das Letras com fogos de artifício, tradução e revisão técnica impecáveis, e presença garantida na Flip deste ano.

É um caso editorial curioso – mergulha numa tradição musical geralmente considerada hermética, vanguardista -, e ao fazer isso de forma atrativa, cumpre um importante serviço. Ao mesmo tempo, apesar da indicação para o Pullitzer, devemos observar que se fosse maço de cigarros, precisaria trazer uma inscrição de alerta – “A cultura adverte: prejudicial à imagem do seu País”.

Em 568 páginas com linguagem moderna e florida, seguindo o percurso de várias dezenas de compositores e algumas centenas de obras, dando origem a um laborioso painel, somos informados de escapadelas da mulher de Mahler, sexualidade de Copland e Partch, tentativas suicidas de Schönberg, ciúmes e invejas de muitos…; mas há apenas duas frases sobre Villa-Lobos, que entra na história apenas como penduricalho da trajetória de Milhaud (e nada mais sobre outros criadores brasileiros):

Na mesma época, o jovem compositor brasileiro Heitor Villa-Lobos combinava idéias rítmicas extraídas de Stravínski a padrões complexos percebidos na música afro-brasileira. Em obras neoprimitivistas como Amazonas e Uirapuru, Villa-Lobos compôs seções percussivas de tumultuosa intensidade. (p. 116)

Duas páginas depois, e ainda no mesmo contexto:

É possível também que ele tenha ouvido as especulações de Villa-Lobos acerca do solo comum entre a música folclórica brasileira e o cânone clássico – tema desenvolvido nas Bachianas brasileiras. (no original: great Bachianas , pelo menos esse louvourzinho)

Representar toda a música brasileira com duas frases é uma vergonha. E o que dizer das implicações derrogatórias contidas nessas poucas frases: idéias extraídas de Stravinski, neoprimitivista, tumultuosa intensidade, especulações…?

Poucos autores conseguiriam comprometer de forma tão completa, concisa e diversificada e aparentemente sem intenção, a inteligência de Villa: as idéias são copiadas, a música tumultuosa, a identidade cultural falsa (neoprimitivista) e a visão teórica especulativa.

O autor do Choros n. 8 não se enquadra nessa camisa de força. Sobre ele, o livro parece nada ter entendido. E olhe que a Semana de 22 estava logo ali para ser comentada. Uma rara oportunidade de abordar uma nova consciência, com repercussões inegáveis sobre o processo cultural brasileiro do século XX, inclusive a música popular. A propósito, neste século XX do livro, o jazz existe, a bossa nova não.

Mas, apesar de termos boas razões para um acesso de furor nacionalista, não é por aí que uma visão crítica do livro deve caminhar – até porque a tal cegueira atinge muitos outros países e regiões -, e sim pela consciência de estarmos diante de um modelo de história ultrapassado. É que o livro não escuta do século XX a crítica sistemática à estreiteza da visão eurocêntrica, canônica – uma de suas conquistas mais impressionantes. Não se dá conta que o mundo mudou e que já não precisamos do ranço dessas histórias centradas num mesmo cenário.

Outras partes do planeta quando merecem alguma atenção, apenas pipocam em feitos bem específicos e situações aligeiradas, que embora prometam outra abordagem, acabam sendo absorvidas pela estrutura central de gênios e obras primas europeus e americanos.

Toda a estratégia de imagem do livro, seu apelo emocional e editorial, se apóia justamente na esperança de transpor para o século XX a aura do século XIX – erotização das figuras heróicas da música. Cavaleiros da revolução musical brigando pela primazia das inovações – Schönberg e Stravinski, Boulez versus Cage.

Quais são as verdadeiras linhas de força da criação musical no Século XX? Como definir realmente essa força crítica e criativa da modernidade que se encarnou como vanguarda e como revolução musical? São apenas pororocas estilísticas e competição em torno de uma radicalidade mal definida? Ora, a contribuição do século XX só poderia ser escutada a partir de grandes recortes temáticos inclusivos, que reconhecessem o direito fundamental de todos criarem história e cultura. Será que isso é tão difícil?! Vejo que o livro recente do Nicholas Cook sobre o Século XX (na série de Cambridge) caminha nessa direção.

Ocorre que essa visão estreita do século não é exclusividade do autor. A literatura musicológica tem vários outros exemplos. Mas, neste caso, trata-se de um lançamento no Brasil, não há como ignorar. É preciso expor o problema, e até espanta que a editora tenha engolido silenciosamente mosca tão conspícua – a celebração dessa narrativa confundindo-se com a afirmação quase explícita de que a cultura brasileira foi irrelevante para a música do século XX. Uma sugestão inocente. Bastava mudar o sub-título – escutando uma parte do século XX…

O que se pode considerar como qualidade do livro é a disposição em construir um rico painel de informações (contextos e obras) em torno de meia centena de compositores representativos do Século. Demandou uma laboriosa pesquisa documental e um trabalho considerável de montagem de todas as informações recolhidas. E nesse sentido é um feito diferenciado.

A trajetória narrativa vai conectando a vida dos compositores com os grandes movimentos políticos e artísticos de suas épocas, e recheando o todo com informações de bastidores e descrições abreviadas das obras – mais ao estilo dos críticos do que da ¿new musicology¿. A linguagem descritiva e as informações de bastidores são parte imprescindível da estratégia de vinculação do leitor ao texto e ao tema. Mas, o que dizer de sua acuidade?

Em alguns casos, os problemas ficam evidentes. Sobre a última das Três peças para piano op. 11 de Schönberg o autor diz:

O teclado se transforma numa espécie de instrumento de percussão, um campo de batalha de fortes triplos e quádruplos.

Para quem conhece a natureza complexa dessas peças, o trabalho artesanal sofisticado, a estrutura planejada ao extremo, objeto de dezenas de artigos mobilizando gente como Forte, Wittlich, Perle, entre outros, os quais apenas vislumbram o que estava sendo feito de fato… esse tipo de comentário soa bastante vazio, fora de propósito. Ou ainda o que é dito sobre Premonições, primeira das Cinco Peças para Orquestra de Schönberg:

…figuras rápidas e agitadas unidas a vibratos, figuras de tons inteiros em giros hipnóticos, madeiras estrilando em seu registro mais alto, padrões de duas notas gotejando como sangue sobre mármore, um quinteto de trombones e tubas cospem e rosnam…

Gotas de sangue sobre mármore? Trombones que cospem e rosnam? Que musicologia estranha! São mensagens fortes para a imaginação visual do leitor leigo, mas apenas isso. A conexão com os processos musicais é débil.

É o mesmo que acontece quando descreve a 5ª Sinfonia de Mahler, nos seguintes termos:

É um drama interior desprovido de qualquer indicação programática, que atravessa uma luta heróica, uma marcha fúnebre delirante, um scherzo selvagem e derramado e um adagietto de lirismo sonhador, chegando ao coral radiante do final.

Novamente, é uma descrição bastante superficial de um objeto tão mais complexo. Se essa redução é a façanha prometida, e esse é o preço a pagar para projetar o século XX – será que vale mesmo a pena?

Algumas referências que apontam para uma outra narrativa do século XX:

Sociedade Internacional de Música Contemporânea – ISCM

Dicionário Online de Compositores Africanos

Liga de Compositores Asiáticos

Centro Latino-Americano de Música da Universidade de Indiana

Centro de Documentação de Música Contemporânea da UNICAMP

Entre muitos e muitos endereços…

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8 Responses to “O Resto é ruído – Ouvindo o Século XX?”

  1. O livro está devidamente comprado e à espera de uma dedicação expressiva para ser lido. Há alguns livros na frente.

    Ainda mantenho o Carpeaux na memória.
    Vamos ver no que dá.

  2. Gostei do seu texto. Apesar de ser um amante da música e um músico principiante, não tenho conhecimento o suficiente para julgar a obra. Mas pelas figuras de linguagem, ele soa para mim mais como uma obra de exaltação do gosto pessoal do autor do que de fato um tratado musicológico. Gostaria de receber, por meio do blog, sugestões de leitura para iniciantes. Desde já grato.

  3. Belíssimo texto, se não me engano tenho esse livro aqui. Aumentou minha vontade, vou tentar vencer a preguiça e começar a ler!

  4. Muito bom, muito bom mesmo…

  5. Poxa muito bom o blog, conteúdo excelente e temática atraenta. Estpou vendo que tenho muito o que aprender por aqui. To add ok?

  6. Muito interessante o seu blog! Parabéns!

    bjos

  7. Prezado Paulo, obrigado pelo fértil post que nos permite comparar olhares distintos. Gostaria, no entanto, de fazer uma pequena crítica ao seu texto.

    De fato, como você mesmo cita de forma implícita, é humanamente impossível uma História da Música do século XX que se resolva em apenas um meio milhar de páginas.

    Alex Ross envereda por esta História, que possui o seu valor, optando pelo olhar eurocêntrico e clássico. Acho que o maior problema não é se escrever um livro com esta metodologia e tema, e sim se pensar que esta visão é a única possível.
    Daí o grande valor de seu post: prevenir os incautos.

    Quanto as figuras de linguagem com propostas visuais: nunca estudei música e adorei as comparações. Estou conseguindo as músicas, ouvindo-as, pesquisando (foi assim que cheguei ao seu blog). Quem sabe um dia entenda de música e consiga fazer o mesmo comentário rico e refinado que você. Se isto acontecer, Alex Ross terá cumprido seu papel: ajudado a gestar um amante da música erudita que, anteriormente, temia este mundo de hermetismo, reservado aos iniciados.

    Sim, houve a Bossa Nova (já tratada em outros livros), como há o RAP, os maracatus, o tango, os batuques de candomblé, os ritmos caribenhos, etc, etc, etc. A espera de outros livros…

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