Seja breve! No Juízo Final isso não passa de um pum!

Lima: Goethe rimou em alemão Juízo Final e pum

Lima: Goethe rimou em alemão Juízo Final e pum

Paulo Costa Lima

Goethe sabia das coisas. Colocou essa belíssima frase na boca do seu personagem demoníaco – Mefistófeles – só que rimando, e em alemão*.

E hoje a recomendação do diabo está na ordem do dia em todos os cantos, principalmente na internet.

Tem valor especial quando aplicada aos personagens políticos – de quem tanto dependemos – e seus intermináveis discursos. Imagine se as casas legislativas de todo o mundo colocassem essa insígnia em seus plenários…Mas também se aplica ao fazer artístico com igual relevância. O que dizer das óperas?

Fico admirando a imagem de um juízo final montado como um grande resumo de tudo, lembrando uma espécie de ‘vale a pena ver de novo’, ou BBB total.

Seria (ou será) fantástico. Assistir tudo que importa da vida humana numa única sessão. Pelo menos podemos ter esperança de que a ótica da narração não será a mesma dos filmes americanos.

Vale lembrar que naquela cena de julgamento divino no ‘Auto da Compadecida’ de Suassuna, Jesus é negro. E sua visão não é a dos senhores do nordeste. Há esperança.

Lembro de pelo menos dois criadores que reconstruíram essa imagem da visão ciclópica final: Machado de Assis no fantástico delírio de Brás Cubas, e Raul Seixas em ‘Eu nasci há dez mil anos atrás’. Ambos deliciosos.

Mas voltando ao dito. Chamo a atenção para essa associação atroz entre o diabo e o mundo de baixo, o mundo dos puns.

Para Freud – que usou a expressão como forma de ironizar Jung (em alemão ‘Jungsten Tag’ forma um trocadilho entre juízo final e ‘dia de Jung’, e os dois já estavam brigados) -, o diabo estaria aí refletindo um mecanismo de repressão, bastante germânico por sinal, dessas sujidades.

Outra coisa impressionante é que esse pum finalístico, ou pum final, está sendo adotado pela gozação do diabo por ser coisa muito breve e insignificante.

Percebo, dessa forma, que a metáfora de Goethe acaba sendo musical. O pum é apenas um tempinho sonoro, sujo e insignificante na presença divina.

Como se a presença divina criasse um tempo dentro do tempo geral. E mais: como se esse tempo especial fosse sonoro.

Para quem nada esperava desse tema, está aí de forma bem implícita, uma teoria do tempo em música. Que, por razões óbvias, não será possível desenvolver aqui…

Mas fica a idéia: a música como um domínio tocado pela presença divina (ou diabólica), onde é possível construir um tempo especial, um tempo próprio, diferente do tempo do relógio.

Um tempo, que justamente por ser diferente do tempo geral da vida, pode ser manipulado, atrasado, dilatado, até mesmo interrompido. A música suspende o tempo comum, e se oferece como substituto equivalente. Ou pelo menos, cria uma tensão entre os dois.

Pense leitor, na bossa-nova. Não é a toa que ela consegue os climas que consegue – barquinho deslizando no mar, no cantinho um violão – a bossa nova constrói uma noção especial de tempo com sua batida e suas harmonias. Um tempo malemolente, que passa mas não passa, como a Garota de Ipanema.

Muito diferente da valsa de Strauss que rodopia no salão ou no espaço sideral, ou mesmo da bateria de escola de samba, ou do frevo. No caso da bateria, ficar no meio daquela multidão de ritmos (sem samba enredo) tem o efeito paradoxal de parar o tempo. É uma experiência de não-linearidade. A música não quer chegar em lugar algum, apenas permanecer efervescente e rebolativa.

Já o frevo é bem diferente. Puxa pra frente – e acumula energia no corpo por causa da acentuação disciplinadamente fora do tempo, é só conferir os seus passos. Quando você entra na música não tem jeito, vai deslizando até o fim, como em Vassourinhas ou em Atrás do trio elétrico, que por sinal fala que o diabo nasceu na Bahia…

Cruz credo, já falei demais! Entrei por uma porta…

* Mach es kurz! Am Jungsten Tag ist es nur ein Furz.

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